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portugal dos pequeninos

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A nossa era do vazio

João Gonçalves 18 Set 13



Numa breve troca de palavras com Gilles Lipovetsky à porta da SPA, referi-lhe andar a reler A Era do Vazio (na 1ª edição uma vez que, disse-me o autor, hoje em Aveiro, onde é doutorado honoris causa na respectiva Universidade, será lançada uma nova com prefácio de Manuel Maria Carrilho). O livro é de 1983 mas, para o caso, podia ter sido escrito nas últimas semanas, nos últimos meses, nos últimos anos. No fundo Lipovetsky antecipa as infelicidades que vivemos presentemente na sociedade e na "individualidade". É, insisti com ele, um livro da maior actualidade para tentar perceber, por exemplo, o que para aí vai entre nós - a boçalidade social, política, económica, financeira, cultural e mediática que domina - e que mais não corresponde do que a "formas de aniquilamento destinadas a reproduzirem-se por um tempo ainda indeterminado" nas quais "o deserto cresce", a "ameaça absoluta", "a potência do negativo, o símbolo do trabalho mortífero dos tempos modernos até ao seu termo apocalíptico" também. Estamos, portugueses, tomados pela síndrome do "hiper" em tudo sem praticamente qualquer saída para nada. Veja-se os juros da dívida a longo prazo e a queda generalizada na procura dos nossos amados bilhetinhos do Tesouro nas diversas maturidades. Olhe-se para a falácia da "requalificação" (alguém explica seriamente às pessoas que, ao fim de três anos, pura e simplesmente não podem regressar a umas funções que já não existem porque o vínculo laboral se extinguiu entretanto?). Espere-se pelos "milagres" que o dr. Lima vai trazer à economia portuguesa apesar de quase dois meses de banalidades deslumbrantes debitadas com o embotamento estéril das "grandes" certezas. Atente-se nas dezenas de "anos lectivos" que o prof. Crato já abriu, semi-abriu e ou não abriu de todo por esse país fora e naquilo que vai dizendo e fazendo em contradição com tudo o que fez dele o campeão do anti-eduquês (Lipovetsky bem explicou o papel da Escola e dos professores na preparação, desde cedo, para a cidadania que ele denomina "cultura-mundo" no seu lado luminoso e feliz) e faz dele, agora, a nova nemesis dos centros de emprego. Podia continuar. Todavia um dado revelado por Carrilho na introdução da conferência resume dramaticamente esta doméstica era do vazio. Em cada cem euros de dinheiros públicos, apenas um a dois cêntimos se destinam à cultura. Não é preciso dizer mais nada.

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