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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Acerca disto, estas interessantes observações de Nuno Azinheira no Diário de Notícias sobre a "exemplar" BBC dos dias de hoje. «É que o busílis, no que à RTP diz respeito, não está na tutela: está na dimensão. Na dimensão da empresa, na dimensão do caderno de encargos, no peso exercido pela estrutura quer sobre o erário público quer sobre o universo da televisão portuguesa. De resto, não vamos mais longe: hoje mesmo, a revista conservadora The Spectator exige, em editorial, a privatização da BBC. Em parte por azar, em parte por forçar a tónica errada, Poiares Maduro dá-nos conta da intenção de replicar em Portugal o modelo de propriedade e administração da estação pública britânica na mesma semana em que, em Inglaterra, se debate um tema quente: o pagamento de indemnizações sumptuosas a ex-administradores da empresa, num valor total acima dos 60 milhões de libras - e, de repente, o recurso a uma série de expedientes de facturação especial (incluindo, por exemplo, processos em tribunal contra os profissionais de comunicação com licenças em atraso) para compor o orçamento. A BBC, independentemente da The Spectator, é grande de mais. E burocrática de mais. E corporativista. E fundamentalmente sem desafios, porque tem o financiamento garantido. E porque os seus profissionais têm o emprego garantido também (ou então as indemnizações sumptuosas). E porque, no fundo, há um défice de monitorização da parte da sociedade civil. E porque, em todo o caso, ainda não se sabe bem o que o serviço público seja. Portanto, o primeiro passe de Poiares Maduro, é bom. Mas falta - insisto - saber o essencial: que dimensão terá a RTP? Quanto custará? O que deverá fazer? Que publicidade roubará aos seus legítimos destinatários? Nada disto se percebeu ainda.»

"Não percas a rosa"

João Gonçalves 14 Set 13

 

Se fosse viva, Natália Correia teria feito ontem noventa anos. Pouco dirá agora às gerações que julgam que o protótipo do literato é um "valter hugo mãe" ou uma treta semelhante. Ou que um polemista se resume a um misto de sucessivas declinações do "eixo do mal" com Medina Carreira, por exemplo. Natália Correia - como, noutro plano, Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa) - pertence a um mundo que acabou. É claro que há os livros, os programas, as fotografias, as memórias deste ou daquele (sem contraditório, o que as pode tornar num pretexto para os seus autores falarem mais deles do que dela), etc., etc. Mas, no fundamental, aquela espécie de festim nu que Natália e os seus protagonizaram décadas a fio, sobretudo no "meio" lisboeta (como se houvesse outro), é incompreensível à luz dos "valores" em vigor. Não porque Natália fosse um extraordinário poeta (nunca foi), um invulgar dramaturgo (também não) ou um prosador, como se costuma dizer, incontornável. O que sobretudo retemos de Natália é aquilo que mais falta faz no espaço público nacional e que talvez o livrinho Não percas a rosa resuma melhor do que qualquer outro, datado ou não: a liberdade de espírito, a opinião forte, a impiedade crítica que irrita. Não é por acaso que o declínio físico de Natália é coevo da banalização e da trivialidade que tomou conta de tudo e de todos a partir de certa altura. Acredito que Natália tenha morrido afogada em amargura e solidão. A partir de dado momento as coisas devem ter deixado de fazer sentido e ela - espírito, corpo, cidadania - desistiu. Apesar de ter sido sempre uma mulher moderna desde a adolescência, não conseguiu rever-se na "modernidade" absurda e vazia que se instalava mansamente entre nós. Pessoas como Natália Correia não aceitam contemplar espectáculos destes até ao fim como bonzos vulgares. A sua dimensão não é a vida nem é a morte.

Os pastelões

João Gonçalves 14 Set 13

 

Precisamente daqui a quinze dias - inúteis - têm lugar as eleições autárquicas. As últimas com um módico de punch foram as de Dezembro de 2001. De norte a sul, o país, mais do que escolher este ou aquele contra o outro, decidiu varrer indirectamente o imenso pastelão em que se tinha tornado a governação de António Guterres. A coisa foi tão surpreendente que o então líder do PSD, D. Barroso, que já se tinha despedido da noite eleitoral, voltou depois de Guterres ter anunciado que se ia embora, exibindo a gravitas de futuro, ainda que breve, PM. Nada disto veremos na noite de 29 de Setembro a menos que haja para aí uma qualquer "maioria silenciosa" que não debita para as sondagens e que se reserva para o voto. E não será por falta, não de um, mas de vários pastelões. Sucede que a mediocridade do "ambiente" político geral fatalmente contamina este processo. Para além disso, as pessoas estão assustadas. As prestações dos principais dirigentes partidários são confrangedoras e as dos candidatos autárquicos "mediáticos" não são melhores. Nas principais capitais de distrito, não se vislumbra uma luz. Nos concelhos limítrofes, salvo raras excepções, é a mesma coisa. Em Lisboa, onde voto, Costa será amplamente reeleito e, espero, Seara adequadamente vexado. O presidente da Câmara, em vez de ter reunido a sua comissão de honra no quentinho chique do Pátio da Galé, devia tê-la conduzido através do lixo e do pó das obrinhas de circunstância dos passeios de Lisboa. E Seara devia fazer um voto patriótico de silêncio durante estes quinze dias para dar descanso à sua proverbial nulidade. Entre estes dois "colossos", com as cabeças noutras coisas, apetece ficar em casa, votar em branco ou votar num candidato que sobretudo não dispute nem a nossa paciência nem a nossa inteligência.



«O ministro Poiares Maduro, no estilo bastante arrogante com que faz declarações, diz que quer "uma nova cultura política para Portugal", coisa que ele sabe o que é, escolheu no lote de "culturas políticas", e que nos acena como "melhor". Repare-se que ele não se fica por pedir uma outra política, ou outras práticas políticas, quer nem mais nem menos do que uma "nova cultura política", ou seja, que pensemos de forma diferente (...). Sei muito bem qual é o contributo que o ministro Poiares Maduro pode dar para essa "nova cultura política": demitir-se de imediato e denunciar o discurso, a prática, a linguagem do actual poder, a mais velha e perniciosa cultura política que existe em Portugal, uma mistura de muita ignorância, apego ao poder, desprezo pelos portugueses, partidocracia e dolo. Em que casa é que ele pensa que está? (...) Ele não podia deixar de saber ao que vinha e para que vinha. E sabia-o tão bem que de imediato se colocou na função de repetidor da propaganda governamental naquilo em que ela é mais dolosa, função que tem desempenhado até ao dia de hoje, como circulador de falsos argumentos e de afirmações manipulatórias. O intelecto e a arrogância ajudam, a subserviência acrítica de muita comunicação social faz o resto (...) Na mesma semana em que nos exortou a uma "nova cultura política", em que "as ideias sejam discutidas em vez de ser substituídas por slogans", ele assinou um comunicado do Conselho de Ministros. Nesse comunicado diz-se, quanto ao "processo de requalificação" (que ele já tinha jurado na entrevista à TVI não ter como objectivo despedir ninguém), que os primeiros doze meses se destinam "a reforçar as capacidades profissionais do trabalhador", e que, por isso mesmo, dão logo origem a uma brutal diminuição de salário, seguida de um ersatz do despedimento, apenas porque o Tribunal Constitucional não permitiu a fórmula anterior. Quer dizer "reforçam-se as capacidades profissionais do trabalhador", gastando dinheiro e recursos, e depois deita-se fora. É isto que é uma comunicação "menos baseada na táctica política e mais nas opções políticas de fundo, e fornecer às pessoas o máximo de informação viável"? Um intelectual que aceita chamar "requalificação" àquilo que o Governo pretende há muito fazer, despedir funcionários públicos, não merece qualquer respeito, nem que tenha mil doutoramentos.»

 

José Pacheco Pereira, Público

 

 

«No cérebro do sr. Seguro, não existe o vestígio de uma ideia. E o PS não achou conveniente fabricar um programa, um horrífico trabalho que guarda para o Verão de 2014. Por isso, quando vai animar a festa (mais conhecida, no vocabulário da seita, por "campanha"), está reduzido a duas soluções: ou se indigna com a miséria da austeridade, ou promete desfazer tudo o que o Governo fez, coisa em que ninguém acredita e que, de resto, é patentemente absurda. A dívida continua com ou sem Passos Coelho e os credores não amolecem ao ver a carinha de Seguro, mesmo que ele ponha, como devia, um bibe. Seja como for, os sofrimentos de agora ninguém os "paga", sobretudo com promessas de um regresso mítico à prosperidade e ao dinheiro fácil do Portugal que morreu em 1910. Passos Coelho também fica em perigo cada vez que abre a boca. Anunciar cortes, despedimentos e o aumento do horário de trabalho para o funcionalismo público não é, como se calculará, a melhor maneira de convencer o eleitorado a votar na gente que lhe trouxe tantas benesses. Pior ainda, o crânio do primeiro-ministro anda, coitado, tão vazio como o de Seguro. Perdido na crise, é constantemente empurrado de um lado para o outro, nega e afirma, não manda de facto no Governo e trata com um inexplicável zelo as querelas do partido e da coligação. Nestas patéticas circunstâncias, o silêncio era a melhor política. Mas não para Passos, constantemente obrigado a falar. E ele fala, coitado, com o amadorismo e a irresponsabilidade a que se habituou na JSD. As vociferações contra Seguro acabam por ser o melhor refúgio, tanto mais porque Seguro amavelmente retribui. Este par é que precisava com urgência de "requalificação".»

 

Vasco Pulido Valente, idem

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