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portugal dos pequeninos

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A estupidez política e as "gerações"

João Gonçalves 3 Set 13

Fora a estafada demagogia das "gerações mais bem preparadas de toda a história nacional" - como se as precedentes fossem. em geral, um bando de cavalgaduras inúteis que importa que desapareça o mais rapidamente possível- , o "conselho" do Paulo Rangel para se acabar com essa outra ainda mais estúpida da preservação das "gerações futuras" - como se representassem uma espécie ecológica em vias de extinção -, não deixa de ter interesse. A fonte é o Público de hoje. «O problema que se põe hoje, em especial na sociedade portuguesa, é um outro, bem diverso, e anda associado ao risco de "instrumentalização" do discurso da "protecção das gerações futuras". Na verdade, e aproveitando a apologia da juventude - que quase parece uma "ideologia" ou é mesmo uma "mitologia" no sentido de Roland Barthes -, têm-se lançado as bases de uma "luta de classes" geracional. A retórica das "gerações futuras" parece muitas vezes arrancar da assunção de que as gerações mais velhas estão a explorar as gerações mais novas. E de que as gerações mais novas são um novel "proletariado", explorado e expropriado pelas gerações mais velhas, presumivelmente detentoras do capital. A ideologia da defesa das "gerações futuras", neste preciso contexto e com este uso intencional, procura aproveitar e tirar partido de uma pretensa clivagem geracional, de um fosso entre gerações. De um lado, estariam os mais velhos, grandes beneficiários de um Estado social claudicante e do endividamento desmesurado, e, do outro lado, os seus filhos e netos, vítimas da falência e da bancarrota, espoliados para o resto da vida. Esta narrativa - para voltar a um conceito precisado de "valorização" -, pese embora possa estar indiciada em alguns traços da sociedade portuguesa, não tem adesão à realidade. Em primeiro lugar, porque o discurso das "gerações futuras" é feito não em nome destas, mas em nome do "futuro" de gerações presentes. E, em segundo lugar, porque essas jovens gerações presentes, que são as gerações mais bem preparadas de toda a história nacional, foram largamente beneficiárias das escolhas políticas das gerações mais velhas. É mesmo aí - e esta é já uma terceira consideração - que falha e soçobra o argumento das "gerações futuras": grande parte das condições que engendraram as gerações mais velhas foi largamente destinada a educar e dar melhor vida às gerações mais novas. Com efeito, merece a pena perguntar, mesmo que só para testar ideias feitas: se as gerações mais novas compararem a sua juventude e a sua formação com a juventude e a formação dos seus pais e avós, quem teve uma vida mais fácil e mais orientada para sucesso e realização no futuro? Ou, dito de outra maneira, também manipulada, mas ilustrativa: com quem gastaram as gerações mais velhas o dinheiro entretanto sumido? (...) A solidariedade intergeracional não funciona nem pode funcionar num só sentido, o sentido dos mais velhos para os mais novos. Diz-se que o facilitismo das gerações mais velhas do país põe em causa a vida e o bem-estar das gerações futuras (quer dizer-se, das gerações mais novas). Mas esquece-se que a solidariedade intergeracional também pode implicar algum sacrifício das gerações do futuro em prol do bem-estar e de um mínimo de dignidade das gerações presentes. Em conclusão, e com uma dose de simplismo, prefiro ter uma vida um pouco menos confortável e saber que isso contribuiu para que as gerações que me precederam tivessem um final de vida digno.»

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