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portugal dos pequeninos

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A mer(d)itocracia

João Gonçalves 25 Ago 13

Um pequeno texto notável, que li, sozinho ao almoço, de Rita Pimenta no suplemento 2 do Público de domingo, e que remete para um "tipo" de sociedade onde cada vez menos me interessa viver. Uma sociedade que, afinal, nem é para velhos nem é para novos, a da "mer(d)itocracia", uma espécie de terra de ninguém prometida aos "espertos" nem que seja como reserva de talhão para a meritória sepultura.

 

«O "desejo profundo de concretizar alguma coisa". Esta é uma das definições inocentes da palavra "ambição", a que equivalem "aspiração", "pretensão" e "sonho". Há dicionários que lhe atribuem uma carga mais "pecaminosa", como "desejo veemente de riqueza, honras ou glórias" e "desejo ardente de poder, fortuna, sucesso". São os mesmos que escolhem os sinónimos "cobiça" e "avidez". Para clarificar a ideia, registam: "A ambição levou-o a cometer algumas loucuras." Pensamento semelhante terá ocorrido a quem tomou conhecimento do que aconteceu a Moritz Erhardt, o estagiário alemão do Bank of America, de 21 anos, que foi encontrado morto na casa de banho da residência onde vivia em Londres, a 15 de Agosto. Por "ambição" e/ou por "exploração", terá trabalhado 72 horas seguidas. "Exploração" significa "abuso de boa-fé de outrem para auferir benefícios". A dúvida sobre o peso de cada um dos substantivos ("ambição"/"exploração") no destino do jovem será difícil de esclarecer. Noticiário no PÚBLICO: "Afirmava ser "altamente competitivo e de natureza ambiciosa" (...). A organização britânica Finance Interns utiliza a palavra "escravatura" para descrever a forma como os jovens são tratados quando entram em algumas empresas do mundo financeiro. "O bem-sucedido Zeinal Bava, que se tornou CEO da PT em 2008 (na altura, o presidente executivo mais jovem dos operadores históricos europeus), dizia nas reuniões: "Não pedimos desculpas por ter ambição, pedimos desculpas quando falhamos." Lamentavelmente, Moritz Erhardt já não corre o risco de falhar.»

In memoriam António Borges

João Gonçalves 25 Ago 13

 

Morreu o dr. António Borges. Quando pertenceu à direcção política do PSD de Ferreira Leite, algumas vezes denotei aqui que nunca cheguei bem a perceber (mea culpa) o que é que o levou para lá e o que é por lá fazia pois não tinha qualquer lastro da política corriqueira doméstica que o recomendasse para tamanho sarilho. Depois, o acaso da mesma política fez com que tivesse contactado de perto com ele, sobretudo no verão passado, quando se discutia no Governo o modelo de gestão da RTP. António Borges, já muito debilitado fisicamente mas com uma vivacidade intelectual estimulante e uma coragem inexcedível perante a doença, nunca falhou com a sua presença em nenhuma das reuniões a que se comprometeu, envolvendo a  tutela representada por Miguel Relvas, a administração da RTP e os assessores jurídicos, técnicos e financeiros da empresa. A última vez que o vi aconteceu em S. Bento aquando da apresentação dos vários modelos alternativos ao ainda primeiro-ministro e aos então ministros de Estado. A lembrança que retenho de António Borges é a de um homem civilizado, cordato, estudioso e sinceramente interessado pelo futuro do país, sem que tivéssemos de estar sempre de acordo com ele ou ele connosco. Cada vez que emitia a sua opinião fosse sobre o que fosse, caía-lhe meio mundo em cima (a começar por algum teoricamente perto dele) porque em Portugal é proibido pensar sem ser em modo estritamente amanuense. Borges foi uma personalidade pública polémica e, para mim, isso basta. Curvo-me, neste domingo ainda mais triste do que os meus domingos costumam ser, perante a sua memória.

Mau gosto

João Gonçalves 25 Ago 13

 

 

Com parte do país a arder e com mortos em combate às chamas, o dr. António Costa não arranjou melhor maneira de "comemorar" os 25 anos do incêndio do Chiado do que com uma "brincadeira" em forma de simulacro do dito incêndio. e da actuação dos bombeiros, na Rua do Carmo. Que mau gosto.

"Os regimes morrem assim"

João Gonçalves 25 Ago 13

«O tema da essencial perversidade do Estado acabou por se tornar um tema obrigatório da nossa literatura. Eça contava que nos salões da "alta sociedade" (por exemplo, no salão da Gouvarinho) não se recebiam políticos, "porque as senhoras tinham nojo". Esta atitude não mudou durante a República e a Ditadura. Os criados de Salazar não mereciam mais do que boas maneiras, que eles, como de costume, pagavam com favores. Depois do "25 de Abril", algumas pessoas de uma acentuada ingenuidade pensaram que o Estado ia finalmente deixar de ser um "covil de ladrões" . Erro crasso. Os jornais de hoje revelam escândalo sobre escândalo, que na generalidade envolvem o Estado ou antigos dirigentes do Estado. Do BPN ao desaparecimento dos dossiers a pingadeira não pára. E previsivelmente não vai parar. O tal buraco de que tanto se fala não é só um buraco financeiro, é também o buraco dos "negócios" do Estado, que, pelos nossos 308 municípios, penetraram Portugal inteiro, de Lisboa à mais remota vila de Trás-os-Montes. Há por aí grandes cemitérios de escândalos à espera que a miséria e o desespero do país se transforme em raiva e os desenterre. Os regimes morrem assim. Se a população não conserva o mais leve vestígio de confiança na autoridade, governar é impossível. E esse momento não está longe.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

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