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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Para quê?

João Gonçalves 23 Ago 13

 

Rui Machete deu-me aulas de direito administrativo em 1981. Recordo o gentleman que se passeava à nossa frente (nunca se sentava) e que dissertava intervaladamente em português e em alemão. Insistia em duas ou três coisas sobre os quais tinha escrito para o Dicionário da Administração Pública (boas) e para a Enciclopédia Luso-Brasileira da Verbo, particularmente o verbete "Portaria". Chamava vagamente a atenção se estávamos a falar mais alto ou a ler jornais na aula, mas permitia que trocássemos impressões sobre a indecifrável frequência com que nos brindou. Até um hoje ilustre professor catedrático da FDL obteve um absurdo nove (9) nessa frequência sobre matéria que viria a leccionar e a escrever abundantemente. Machete era cordial e pouco maçador nas orais. Costumava perguntar se um sinal de trânsito equivalia a um acto administrativo. Uns escassos anos passados sobre isto, Machete presidia ao PSD e era vice PM de Mário Soares no "bloco central". Cavaco, já então "dono" do partido, mandou-o assinar, nos Jerónimos, em Junho de 1985, o tratado de adesão a seguir a Soares. Decorreu este tempo todo e, sem que nada o fizesses esperar a não ser o alegado "dever patriótico" murmurado no Palácio de Belém, Machete aceitou regressar ao governo para ser o MNE de Passos e de Portas, não necessariamente por esta ordem. Não tinha ninguém na véspera de tomar posse e, segundo consta, "escolheram-lhe" praticamente toda a gente salvo a secretária pessoal. Ontem, a despropósito, fez saber que, afinal, não tinha adquirido umas acções ao preço x mas, sim, ao preço y como quem diz "não se esqueçam de mim apesar da Síria". Não terá, evidentemente, sossego. Para quê?

A pulharia e os arrotos

João Gonçalves 23 Ago 13

 

Alertado pelo meu amigo João Melo, comprei o JL porque tem um trabalho (fraquinho) com Mécia de Sena e algumas outras coisas sobre Jorge de Sena. Mécia tem 93 anos e, a avaliar pela fotografias, persiste indemne. Desde 1978, ano da morte do autor de Sinais de Fogo, que Mécia tem sido a incansável organizadora dos papéis do marido e a fidelíssima testamentária da sua herança intelectual. No pequenino mundo literato e académico nacional, Mécia nunca encontrou muito mais "apoio" do que Jorge de Sena antes e depois do "25 de Abril". Tem no acervo, no acto de amor que representa também a sua dedicação e devoção pela memória de Sena, excessos e porventura algumas injustiças. Mas na conta-corrente dos encontros, desencontros, rasuras e traições, o balanço é favorável aos Senas como ainda há dias se pôde constatar num texto publicado por Arnaldo Saraiva - um dos primeiros candidatos a "viúvos" académico-editorial-literatos de Sena que, não obstante, tem um trabalho muito posiitivo sobre o espólio do escritor a quem a dita academia nunca perdoou ter sido engenheiro de terceira classe na Junta Autónoma de Estradas antes de mandar isto tudo à merda, em 1959,para se dedicar primeiro no Brasil e depois nos EUA, em exclusivo, à literatura e ao seu ensino -  no suplemento Actual do Expresso. Fica-se a saber que Mécia, fora a organização e edição de mais correspondência - com inexplicáveis dificuldades editoriais decorrentes da vil ignorância rapace do glorioso "mundo" editorial doméstico cada vez mais apostado em promover analfabetos e analfabetas mediáticos -, entende que o seu trabalho terminou com as Entrevistas recentemente publicadas. Apercebi-me muito cedo da importância da existência de Jorge de Sena na minha vida. Acompanha-me quase diariamente desde que o vi, em directo da Guarda na televisão, a falar sobre Camões e sobre nós, graças ao empenho do Presidente Eanes e de Vasco Pulido Valente.  Em 1971, numa carta inédita a Ruy Belo que o JL publica, Sena escreve: «Trabalho... tenho muito para fazer e pouca vontade de tudo - a minha depressão e reduzida resistência concomitante dão-me tudo por inútil, quanto eu faça é para cair no poço da pulharia lusitana, o que não me dói por mim, mas pelo que sei que os meus ignorados contributos valem, ao lado da maioria dos arrotos nacionais.» Nestas, como em quase todas as matérias, não mudámos um átomo de 1977 para cá. A pulharia cresceu com os arrotos e os arrotos cresceram com a pulharia. Não saímos disto.

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