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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

A vaca

João Gonçalves 18 Ago 13

O dr. Lomba, secretário de Estado adjunto do prof. Maduro, brinda os leitores do Público de domingo com uma bonita redacção sobre "uma agenda para a imigração". Apesar de recorrer ao português acordográfico presumivelmente em homenagem a tão vasta "agenda" que ele jamais deve ter sonhado que um dia lhe ia cair em cima. E que nos diz Lomba acerca disto? Desde logo que existe (como não?) «um importante consenso político na sociedade portuguesa» em matéria de imigração. Desde, aliás, os anos 90 quando «o modelo de entradas representou precisamente o modelo de desenvolvimento assente em obras públicas, que criaram um efeito de chamada para muitos imigrantes indiferenciados», para além de «a instabilidade política e social nos países de língua portuguesa» ter aliciado «muitos imigrantes à procura de uma vida melhor no nosso país.» E tudo daí em diante correu em ambiente pastoral como se sabe frequentando a velha Porcalhota ou a Cova da Moura: «Portugal soube responder a estes fenómenos com uma política de imigração ambiciosa e socialmente pacificadora. Essa política, cruzando diferentes governos, deu frutos.» Mas eis que chegaram as "mudanças" com "a globalização, as crises financeiras, a recomposição económica entre o Norte e o Sul" e o dr. Lomba, atento a elas um pouco por todo o lado, incluindo as ocorridas nos países de origem, explica que «estas mudanças exigem políticas de imigração em sintonia com novas lógicas de mobilidade internacional e inter-regional» que «torna, pois, necessária uma política ativa de imigração que procure identificar e captar a imigração de grande valor acrescentado para o nosso país, ao mesmo tempo que persista no investimento social e profissional dos filhos dos imigrantes que já nasceram e cresceram em Portugal.» Mais. «Portugal enfrenta a mais baixa pressão migratória desde abril de 1974. Se temos hoje as mesmas preocupações de integração dos nossos imigrantes, esta é também a altura para adoptar outras estratégias de captação. Uma nova política de imigração passa por identificar o novo perfil migratório do país, definindo os melhores incentivos para a sua fixação e sensibilizando atores públicos e privados para esta realidade. E passa por organizar uma estrutura orgânica e operacional que, a partir da armadura institucional já existente, dê concretização a estes propósitos. A crise do país não será resolvida com soluções meramente nacionais. Ninguém pode acreditar nisso. Portugal precisa de quem nos abra o "espaço" que não temos e as oportunidades que nos faltam. Pensada e desenvolvida como política integrada, a nova imigração pode ser uma saída criativa e eficaz.» Isto inclui, de novo em modo pastoral pseudo-cosmopolita, «investigadores e estudantes internacionais de elevado potencial que trabalham em rede e buscam cada vez mais centros de excelência mundiais onde encontrem as condições certas para desenvolver o seu trabalho, em parceria com outros investigadores» e «residentes de longa duração e reformados de todo o mundo que podem encontrar na amenidade do país as condições certas para poderem desfrutar do tempo e dos rendimentos acumulados.» O novo léxico do secretário de Estado não consola os antigos leitores do cronista e bloguista Pedro Lomba que escreve tão bem, e com um módico de senso, em português. Imagino que nem sequer o deve consolar a ele.

Que viva tempos interessantes

João Gonçalves 18 Ago 13

 

Não sei em que contexto o dr. Marques Mendes adjectivou o prof. Crato como "medroso". Recorde-se que o prof. Crato foi chamado ao altar da pátria para "corrigir" quer o "eduquês" devastador da actividade neuronal das criancinhas, quer para "equilibrar" o que os seus antecessores teriam desequilibrado: a tensão professoral permanente, o parque escolar, a disciplina, a qualificação "desinfantilizada" das criancinhas. No superior, ao qual pertence, Crato preferiu aplicar prontamente a contabilidade analítica que é como quem diz, a penúria. O início do ano escolar entretanto promete um pequeno tumulto. Com a "reforma do Estado" reduzida à referida contabilidade analítico-criativa - e sendo o ministério a que Crato superintende um dos mais vastos em "recursos humanos" -, as escolas, em Setembro, como muitos directores de escolas e agrupamentos não se têm cansado de repetir, abrirão no caos. Desde a colocação dos professores à colocação dos próprios alunos (estou a acompanhar o caso do filho de um amigo, com contornos kafkianos, apesar de a coisa passar por um dos supostos melhores agrupamentos escolares da área de Lisboa, o Vergílio Ferreira da eterna dra. Esperança), sem falar no pessoal "administrativo" sob a cabeça do  qual paira o cutelo da "reforma", i.e., do despedimento "requalificado", é fácil prever o pior. O prof. Crato pelos vistos só não se revelou "medroso" quando foi a correr a Carnaxide, sob o alto patrocínio do senhor primeiro-ministro, dar uma entrevista sobre um relatório da sua Inspecção que visava um colega de governo que se demitira escassas horas antes. Aliás, seria interessante que a IGE desse a conhecer o follow up desse relatório. Ou foi só para aquele dia, para aquela noite e para aquele fim? Como recomendavam os seus antigos amigos chineses, que o prof. Crato possa viver tempos interessantes. Pelo menos na abertura do ano lectivo.

 

Adenda (comentário de um leitor): «O Prof. Crato é inteligente, mas é provinciano. A proposta de dar certas liberdades às escolas no país da cunha é assustadora. Imagino os agrupamentos escolares da província - ou mesmo das cidades - a contratar. Perguntem aos professores de Educação Física como funcionam as contrataçóes em certas autarquias... Tal como é absurda a proposta do cheque-ensino. Nos últimos 20 anos o Estado investiu uma fortuna no parque escolar. Nos tempos de Guterres foram construídas inúmeras escolas de Ensino Básico (com ensino até ao nono ano) para substituir as antigas Escolas de Ensino Básico Mediatizado, vulgarmente conhecidas como telescolas. Em boa verdade em algumas regiões investiu-se mais que o necessário e agora, nessas áreas, há um excesso de oferta para o número de alunos. Nesses anos, muitas freguesias reclamaram pela sua escola de Ensino Básico. Depois, nos anos Sócrates, surgiu a Parque Escolar e a renovação «milionária» dos liceus. Em algumas cidades e regiões do país existem ainda escolas com contrato de associação que «concorrem» com escolas públicas onde existem professores com «horário zero» e capacidade para acolher mais alunos. Há pais «assustados» com a possibilidade dos filhos frequentarem escolas a 10 ou 15 quilómetros de distância mas no interior existem alunos que percorrem 50 a 70 quilómetros até à escola secundária mais próxima: caso dos alunos das aldeias da freguesia de Martinlongo, no Algarve.  Com o parque escolar montado nas últimas décadas e a taxa de natalidade em queda, é um absurdo enveredar pelo cheque-ensino. Trata-se de uma mera opção ideológica e provinciana. Nós não precisamos de imitar holandeses ou suecos. Presicamos sim de criar soluções adequadas à nossa realidade. »

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