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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

A bacia, a toalha e o sabão

João Gonçalves 4 Ago 13

 

Por coincidência, dois amigos, o Carlos Vargas e o Eduardo Cintra Torres, recomendaram-me a releitura do livrinho da foto. Parece que ambos o fizeram recentemente. Na verdade, este pequeno texto ironista de Alberto Pimenta, de 1977 - "maldito" na acepção sociológica deste outro livro -, é mais para pensar do que para sorrir. «O filho-da-puta que apenas finge que não deixa fazer tem também a seu lado, sempre, uma grande bacia para lavar as mãos. Está sempre a lavar as mãos, e essa é a sua real actividade e é por isso que, ocupado como está em lavar as mãos e portanto sempre de costas, não vê o que se supõe que devia ver e. ao mesmo tempo, tem as mãos sempre limpas e humedecidas. Claro que este filho-da-puta não trabalha sozinho: tem sempre quem lhe chegue a toalha e o sabão, enquanto alguém lhe derrama a água morna nos dedos, e outrem ainda lhe canta ao ouvido grandes toadas, que ele escuta sempre com delicada condescendência. Assim correm e deslizam os rodízios no mundo dos filhos-da-puta; e como são tantos e ocupam tantos lugares, alguns deles até se podem permitir fingir que o não são, pois acima ou abaixo, à direita ou à esquerda, em casa ou na escola, atrás da janela ou da porta, ou, noutro lugar qualquer, há sempre um filho-da-puta que, fazendo ou não deixando fazer, ou fingindo que faz ou que deixa fazer, ou que não faz ou que não deixa fazer, se encarrega de que nesse mundo não haja nunca deslizes no correr e deslizar dos seus rodízios.»

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O pensativo pupilar dos pavões

João Gonçalves 4 Ago 13

 

«Os portugueses, pelos vistos, têm uma tendência maníaca para o ‘consenso'», escreve o João Pereira Coutinho. A moleza das férias - o verbo "aguentar", afinal, sempre se conjuga - ajuda a enfiar o pastelão pelas goelas abaixo com umas sandochas de fiambre e queijo fatiado. Entretanto vai sendo preparado o primeiro orçamento de Estado sem Gaspar e sob o alto patrocínio dos novos "donos" da situação, em especial de um que agora já não se safa de ser o rosto político doméstico desse documento. É, não tenho a menor dúvida, o orçamento mais importante da legislatura e, por conseguinte, um momento político decisivo. Nenhuma instituição da nossa fraca democracia lhe ficará indiferente a começar pelo Presidente da República que, ao louvar-se na "coesão" e na "credibilidade" que outorgou ao novo executivo, decerto não deixará de prestar atenção rebobrada àquilo que espera seja no mínimo substancialmente melhor e diferente do que Gaspar conseguia (ou lhe permitiam em Bruxelas) produzir. Aí, já sem férias e bolas de Berlim, ver-se-á o que vale o "consenso" e demais facilidades linguísticas para crédulos engolirem. E, sobretudo, o que vale o "cooordenador" dos "coordenadores" todos juntos do novo governo. O pupilar dos vizinhos pavões do Jardim Zoológico que o ajude a pensar.

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