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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

 

Com alguns anos de diferença, nasceram no dia 13 de Junho os poetas Fernando Pessoa e Joaquim Manuel Magalhães. Deste posso dizer que sou amigo e do outro também, de outra maneira. Termos como "moderno" e "contemporâneo" - talvez seja útil ler o que Eliot escreveu sobre estas coisas - podem porventura ligar-se aqui e, com eles, os termos, andar para trás e para diante a "explicar" poesia que, até hoje, ninguém tem qualquer certeza que possa explicar-se (pode ler-se Austin, Bloom ou Sena). Deixo o Joaquim para a ocasião de um novo livro de versos, se o houver. A arca do outro continua a ser amplamente explorada. Em vida, curta, fora a colaboração dispersa por revistas, versos e prosas, só Mensagem conheceu a forma em livro e um segundo prémio literário a seguir a uma chachada, de nome Romaria, escrita por um padre. Honra a Gaspar Simões que "chamou" logo a "atenção", não para Mensagem, mas para o que aí vinha. Régio falou de Pessoa como podendo ser uma espécie de "índice dos nossos tempos" quando ainda estavam a experimentar as chaves na arca. Jacinto do Prado Coelho, Casais Monteiro, o dito G. Simões, Sena, Mário Sacramento, não necessariamente por esta ordem, leram muito cedo um Pessoa "deles". Lourenço veio depois catar naquilo que chamou de "revisitação" e que é do melhor que a sua incandescente prolixidade produziu. Todas as "explicações" do mundo famosamente não chegam porque, como referiu um dos membros da "equipa Jerónimo Pizarro" - a que actualmente toma conta do establishment Pessoa -, a coisa não tem propriamente pontos de chegada e ou de partida e vice-versa. Pizarro assevera, aliás, que apenas conhecemos cerca de 20% - vinte por cento - da obra do dito cujo, e que outras gerações e novas "equipas" se sucederão à sua na gerência intelectual e física do espólio do mais famoso cliente do Martinho. Na realidade, nas belíssimas Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro, Pessoa/Campos antecipa esta perplexidade, a característica maior do acervo édito e, pelos vistos, inédito.E nossa. «Nunca vi triste o meu mestre Caeiro. Não sei se estava triste quando morreu, ou nos dias antes. Seria possível sabê-lo, mas a verdade é que nunca ousei perguntar aos que assistiram à morte qualquer coisa da morte ou de como ele a teve. Em todo o caso, foi uma das angústias da minha vida — das angústias reais em meio de tantas que têm sido fictícias — que Caeiro morresse sem eu estar ao pé dele. Isto é estúpido mas humano, e é assim. Eu estava em Inglaterra. O próprio Ricardo Reis não estava em Lisboa; estava de volta no Brasil. Estava o Fernando Pessoa, mas é como se não estivesse. O Fernando Pessoa sente as coisas mas não se mexe, nem mesmo por dentro. Nada me consola de não ter estado em Lisboa nesse dia, a não ser aquela consolação que pensar no meu mestre Caeiro espontaneamente me dá. Ninguém é inconsolável ao pé da memória de Caeiro, ou dos seus versos; e a própria ideia do nada — a mais pavorosa de todas se se pensa com a sensibilidade — tem, na obra e na recordação do meu mestre querido, qualquer coisa de luminoso e de alto, como o sol sobre as neves dos píncaros inatingíveis

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