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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Os velhos

João Gonçalves 30 Jun 13



«Os jovens merecem uma vida, mas parece que os velhos não merecem nada. O dr. João Salgueiro sugeriu outro dia que os reformados fizessem um sindicato deles. Não percebeu, como é óbvio, a manifesta impossibilidade do exercício. A primeira praga dos velhos é o isolamento. Sem amigos, nem camaradas, porque uns morreram, ou estão doentes no hospital ou em casa, ou vivem numa miséria tão profunda que ficaram sem forças para resistir. De resto, os poucos privilegiados, a quem sobra um vestígio de energia e de indignação, perderam o lugar por excelência para se encontrarem e se organizarem: o lugar do trabalho. Aos vários governos, que nos trouxeram à presente desgraça, não escapou esta impotência essencial. E a troika, que teme distúrbios, concorda alegremente com a receita. Se um belo ano morrermos todos simultaneamente, haverá uma grande festa nas Finanças. Entretanto, se a pensão não chegar ou diminuir para além do tolerável, os velhos, tirando uma pequeníssima minoria, não conseguem, como os jovens, encontrar trabalho. Mesmo fortes, mesmo lúcidos, mesmo competentes e, às vezes, competentíssimos, ninguém os quer. Pior do que isso: no bom tempo, os velhos mereciam o respeito da generalidade da populaça. Agora, não. A deferência e a delicadeza com que eram tratados desapareceram e, no lugar delas, apareceu uma arrogância e um desprezo, uma espécie de ironia perversa que os põe firmemente à margem como se eles não tivessem também o direito de viver.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

O país das maravilhas

João Gonçalves 30 Jun 13

 

Não passaria pela cabeça de ninguém convidar uma amálgama de criaturas - entre as quais se poderão encontrar, talvez, escritores (e chamar a todos "escritores" diz bem do estado da arte do que passa por literatura portuguesa há já algum tempo) - para se dedicarem a "inventar" uma espécie de prolongamento livre de Os Maias, de Eça. Mas o facto é que passou pela cabeça de alguém no hebdomadário Expresso que, como toda a gente sabe, determina o "cânone" em matéria de funcionamento geral da nação nas suas mais distintas manifestações. Não há todavia hipálage de Eça para definir isto sem ofender ninguém, sobretudo a ilustre memória do velho "vencido da vida". É uma espécie de "construções na areia", agora que chegou o Verão, em versão supostamente mais sofisticada. E, nalguns casos, de uma alarve sofisticação. Por outro lado, e depois de muito porfiar a "comissão" destinada a "reformar" o IRC, eis que é um amável comentador de televisão, o meu estimado dr. Marques Mendes, quem afinal faz de "relator" da dita comissão antes de esta, segundo ele, entregar as conclusões a quem as pediu. Finalmente, o Presidente da República vai chamar a Belém trinta luminárias da economia nacional para, uma vez mais, discutirem o "futuro". Conviria aqui lembrar que, da academia à padaria, passando pelas instituições, pelas televisões e pelos jornais, nunca o país teve tantos "economistas" e que nunca o país, nos derradeiros anos, foi tão puxado famosamente para baixo. Isto quer dizer que a circunstância de estarmos atafulhados em "economia" de manhã à noite não provou fazer-nos muito bem. Talvez o PR lucrasse mais em ouvir outro género de cientistas sociais e, sobretudo, alguém que lhe sussurrasse para que serve a política, em democracia, em tempos como estes. Não falta, do presente, passado e futuro do regime, quem pudesse fazer isso (até podiam aparecer um ou dois economistas, não mais) sem a língua de pau do "economês" e do "financês" que parece que veio para ficar. Em suma, como dizia um personagem de Os Maias, "falhámos a vida". Mas neste país das maravilhas não sabemos, pelos vistos, falhar outra coisa.

Saber qualquer coisinha

João Gonçalves 29 Jun 13

 

Por falar em revistas, estou aqui com a do Expresso à minha frente. Duas entrevistas, uma entre "amigos" (a dra. Clara e o prof. Onésimo) e outra com Paulo Macedo, ministro da Saúde mas que poderia ser perfeitamente ministro de outra coisa qualquer (finanças, por exemplo) em qualquer governo. Macedo foi "meu" director-geral e nunca senti necessidade de o bajular. Se de vez em quando o "destaco" é porque aprecio o seu trabalho político (sim, o trabalho de um ministro é um trabalho político) e a forma como o pensa e o prepara. Só alguém que conhece adequadamente a realidade (sim, para desempenhar cabalmente uma função político-executiva é preciso conhecer a realidade) é que está à vontade para afirmar, sem sofismas ou complexos de capela, que "a ADSE é um sistema em que as pessoas estão satisfeitas e é autossustentável" e que não quer acabar com ela. Neste exemplo, por exemplo, o SNS tem mais a ganhar aproximando-se de um sistema como a ADSE do que o contrário. Para entender isto é preciso porém arejar a canga das "ideologias" - a do SNS e a do pseudo-liberalismo provinciano gemedor com o suposto "privilégio" da ADSE - e saber qualquer coisinha. Como Paulo Macedo.

Restaurações

João Gonçalves 29 Jun 13

 

Percorre-se jornais, revistas, entrevistas, algumas peças de televisão, artigos, fotografias, etc., e fica-se com uma sensação idêntica à de Norman Mailer - «the media is like Madame de Staël who threw her friends into the pool for the pleasure of fishing them out again.»

O último sorriso

João Gonçalves 29 Jun 13

 

Há uma edição da biografia de Marilyn Monroe, por Norman Mailer, que inclui o fundamental da derradeira sessão de fotografias com Bert Stern. Stern morreu esta semana e contava que Monroe estava feliz e bela nesse trabalho como se fosse quase o primeiro de uma série de últimos.Todavia, ainda as fotos não estavam editadas e já ela tinha desaparecido. Tudo se passou entre Julho e Agosto de 1962. Stern fotografou muita gente "famosa" mas este portfolio com Marilyn subsiste "especial". Gosto de o legendar com as palavras de Mailer, mais "realista" que Stern sobre o "sorriso" final da actriz. «Marilyn is gone. She has slipped away from us over the edge of the horizon of the last pill. No force from outside, nor any pain, has finally proved stronger than her power to weigh down upon herself. If she has possibly been strangled once, then suffocated again in the life of the orphanage, and lived to be stifled by the studio and choked by the rages of marriage, she has kept in reaction a total control over her life, which is perhaps to say that she chooses to be in control of her death, and out there somewhere in the attractions of that eternity she has heard singing in her ears from childhood, she takes the leap to leave the pain of one deadned soul for the hope of life in another, she says goodbye to that world she conquered and could not use. We will never know if that is how she went. She could as easily have blundered past the last border, blubbering in the last corner of her heart, and no voice she knew to reply.»

Ter em conta

João Gonçalves 28 Jun 13

 

Estive com o ministro da Economia na "universidade de Verão" do Partido Popular Europeu, no Porto, cujos principais anfitriões foram os eurodeputados Paulo Rangel e Nuno Melo. Falei um pouco com o Paulo Rangel com quem não estava há algum tempo. O Paulo protagonizou, como cabeça de lista do PSD nas "europeias" de 2009, um grande momento político para o centro-direita e para a social-democracia doméstica em pleno "socratismo". Foi igualmente um excelente líder parlamentar. É agora um eurodeputado competente, empenhado e cosmopolita. Por junto, trata-se indisputavelmente de um político nacional que vale a pena ter em conta. Talvez, para já, de novo nas "europeias" da Primavera que vem.

 

Foto: Público

"Não temo o juízo do futuro"

João Gonçalves 27 Jun 13

 

Estou a ler o livro de entrevistas de Jorge de Sena editado pela Guimarães, agora Babel, numa magnífica edição (embora com uma gralha aqui ou ali) preparada por Jorge Fazenda Lourenço. São trinta anos de entrevistas com destaque, talvez, para a de Abril de 1968, à revista O Tempo e o Modo que lhe dedicou um número inteiro. O que Sena afirma a propósito do chamado "meio literário" doméstico podia ser dito sobre a nossa pequenina vida pública em geral, capelista e corporativa (no sentido rasca do "corporativo", normalmente um ajuntamento de ressabiados estúpidos e anónimos), como se fosssemos todos iguais por baixo. Pois não somos, graças a Deus. Somos mais isto que o Sena descreve à distância higiénica da geografia e do nojo. «Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos membros da vida [literária] portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos [que escrevem sempre um livro pior que o anterior]. O problema não está em eu me considerar muito grande - mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos. (...) O mais que fazem é louvar às vezes um medíocre ou desenterrar um morto, com medo da sombra que lhes seja feita. A diferença entre mim e eles é que não temo o juízo do futuro, e não procuro tapar o sol com uma peneira. Não: a minha segurança é total e absoluta: ninguém pode destruir-me senão eu mesmo.»

O perigoso ciclo das narratretas

João Gonçalves 27 Jun 13



«Com a Europa a capitular assim - revelando maior preocupação com os seus bancos do que com os seus jovens -, não admira que por todo o lado se multipliquem sinais do grande motim anti-europeu que se prepara: é Beppe Grillo em Itália, são os alternativos do AfD na Alemanha, é o Partido para a Liberdade de Geert Wilders na Holanda, são os "Verdadeiros Finlandeses", é o UKIP de Nigel Farage, etc., etc. E no último fim de semana tivemos mais um preocupante sinal desta escalada, com a Frente Nacional de Marine Le Pen a chegar quase aos 50% dos votos nas eleições francesas de Lot-et-Garonne. Este resultado traduz uma impressionante progressão de 20%, da primeira para a segunda volta. Não admira, pois, que Marine Le Pen tenha já anunciado que as eleições europeias do próximo ano, em que as sondagens a colocam a disputar o primeiro lugar nacional, serão transformadas num referendo à permanência ou à saída da França da União Europeia. Isto promete, pois. Mas, entretanto, os responsáveis políticos europeus continuam, como se nada acontecesse, a repetir as narratretas mais estafadas, uns sobre o laxismo sulista e as virtudes nórdicas, outros sobre as irresponsabilidades nacionais, outros ainda sobre o incontornável modelo germânico... todos invocando, para justificar o torpor em que se vive, as eleições alemãs de 22 de Setembro próximo. Mas seja qual for o resultado destas eleições, o que verdadeiramente vai fazer mudar as coisas na Europa, e em particular na Zona Euro, é a inevitável entrada da Alemanha em recessão. Aí, sim, vamos assistir a muita correria, mas tudo se arrisca então a ser tarde demais.»

 

Manuel Maria Carrilho, DN

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Razão apesar dele

João Gonçalves 26 Jun 13

 

 



Ontem, enquanto aguardava a chegada das minhas "amigas" Carrie, Samantha, Miranda e Charlotte - elas aparecem todas as noites, por volta das 23, no Fox Life, entre a 73th e Times Square - pus-me a ver, na tvi 24, Augusto Santos Silva. Sugeriu 5 regras para uma comunicação política eficaz e substantiva. 1ª: «Cada macaco no seu galho. Não pode o Ministro dos Negócios Estrangeiros vir falar de economia ou de agricultura». 2ª: «Os galhos são diferentes. Há um primeiro-ministro, ministros e secretários de Estado. Não pode um secretário de Estado, por exemplo enquanto decorrem negociações do ministro da Educação, meter-se na seara do ministro da Educação e falar em sentido contrário. Entendam-se, há uma hierarquia no Governo». 3ª: «Convém que se fale quando se tem alguma coisa para dizer. Não há excelência da forma que consiga apagar o vazio do conteúdo». 4ª: «Quando falarem vários convém dizerem a mesma coisa, senão entram na cacofonia que é fatal para qualquer grupo ou organização, muito mais para um Governo». 5ª: «Se a má notícia expulsa a boa, convém que as más e as boas notícias não sejam dadas ao mesmo tempo, como já dizia Maquiavel». As minhas desavenças críticas profundas com ele nos idos do "socratismo" (está tudo no arquivo) autorizam-me, agora, a dar-lhe razão. Uma razão apesar dele e por causa de uma coisa simples que é o bom senso.

"Nem atireis vossas pérolas aos porcos"

João Gonçalves 25 Jun 13

 

«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não deis aos cães as coisas santas, nem atireis vossas pérolas aos porcos; para que eles não as pisem com o pés e, voltando-se contra vós, vos despedacem. Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. Nisto consiste a Lei e os Profetas. Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ele! Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram!» (Mt 7,6.12-14) Este é o Evangelho da data e, creio, explica-se por si mesmo quotidianamente. No entanto, a caminho da missa na Igreja de São Nicolau constatei que a rua com o mesmo nome persiste intransitável para peões (imagino a alegria que grassa no comércio local), exibindo uma poeira desértica bastamente desagradável. E o agente da polícia municipal colocado à entrada da rua, a do Ouro, era incapaz de informar que não valia a pena sequer tentar atravessá-la. É para isto que temos os Sá Fernandes e as Rosetas das bicicletas - e de idiotices semelhantes - quando nem para andar a pé a Baixa serve. E quer ainda o pequenino vereador ver "crescer as árvores". Ámen.

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