Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O lugar do morto

João Gonçalves 18 Mai 13

Um respeitável hebdomadário faz manchete com um corte "estrutural" de 4% nos vencimentos dos funcionários públicos. Depois, lá dentro, há "quadros" alusivos à matéria particularmente no que respeita a pensionistas da dita função pública. Se isto se confirmar, a "informação" está incompleta. E está incompleta porque os eventuais 4% devem ser acrescentados aos 5, 10, 20 ou mais por cento que entretanto já tinham sido aplicados à "massa salarial" dos trabalhadores públicos a partir de um determinado valor de salário ou pensão. Começou com o Governo anterior e aparentemente continua em nome do "ajustamento" e da "convergência" com os "privados". Mais do que outra coisa qualquer, isto parece querer dizer "empobrecer todos" (presente, futura e retroactivamente) e, na prática, nivelar "por baixo". Com uma nuance relevante. É que os "activos e os aposentados da apelidada função pública ocupam, neste "caminho" salvífico, o lugar do morto.

A política e a ceifeira de Pessoa

João Gonçalves 18 Mai 13

 

«A referência à poesia passa por encarar a política como uma simplificação das coisas complexas, mas uma simplificação honesta», revela Poiares Maduro numa entrevista ao Expresso quando o confrontam com um dito seu no sentido de que "o bom político é uma mistura de cartógrafo, poeta e juiz". Está tudo errado nesta asserção do ministro adjunto, salvo o devido respeito. Apesar de a poesia ser geralmente entendida como um, entre muitos outros, uso possível das palavras, ela não emerge para "simplificar" nada. Pelo contrário, se for boa e não mero versejar infantil - em que, por exemplo, "ama" rima com "cama" no mínimo umas doze vezes no mesmo "poema" ou meros fenómenos da natureza "batem leve, levemente" nos limiares de um "pastoral" grotesco -  é ela própria que "complica" e que nada "simplifica". O doutor Johnson, Wordsworth, Eliot, Empson, Bloom ou o nosso Pessoa fartaram-se, cada um à sua maneira, de explicar o "estranhamento" que decorre do contacto com os chamados poetas" fortes" e nunca perderam tempo com "simplificações". A política, sim, é, por aquilo em que se transformou e por causa dos seus protagonistas, simplificadora, mimética e shallow enquanto o poeta forte será complexo, ambíguo e uncanny - "desfamiliariza" tudo o que até ali era "familiar" através do uso, do alinhamento das palavras. Neste sentido, o poeta é sempre mais "honesto" na sua intrínseca desonestidade que o político porque "finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente". O político estará mais perto da ceifeira que "canta, canta sem razão" porque "canta, pobre ceifeira, /julgando-se feliz talvez". Mas isto é um mero verso e, como é sabido, a poesia não reenvia para lado algum. Muito menos para a política.

Um patriarca para a doxa

João Gonçalves 18 Mai 13

 

A escolha de D. Manuel Clemente, actual bispo do Porto, para cardeal patriarca de Lisboa e, por consequência, futuro "número um" da igreja portuguesa, não surpreende. Policarpo há muito que devia ter saído e os derradeiros anos do seu exercício não se recomendam. Bento XVI pediu-lhe que ficasse para além do limite de idade e ele ficou. A escolha do Papa Francisco acaba por ser previsível. D. Manuel Clemente "mundanizou-se" e fala um dialecto chão apesar de escrever muito e, em geral, bem. Está mais sintonizado com o imenso lugar-comum em que se tornou a vivência espiritual nos nossos dias - nem o Prémio Pessoa do Expresso lhe escapou - e corresponde ao que o Papa esperará dos seus cardeais e vice-versa. Autografa livros como Francisco autografa braços engessados o que é sempre um upgrade. Havia uma alternativa chamada D. Carlos Azevedo mas bastou um dichote repelente e oportuno posto a circular no momento certo (e logo desaparecido com a mesma celeridade) para o afastar do patriarcado de Lisboa. Nesse episódio miserável, a hierarquia da igreja portuguesa, bispo do Porto incluído, comportou-se de acordo com o cânone fácil da pusilanimidade. Mas estes aspectos "terrenos" da coisa interessam-me pouco e em nada alteram a minha relação com a fé. O meu lastro, nesta matéria, é o de Paulo VI, João Paulo II e, acima de tudo, de Bento XVI. Fico confortável.

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

  • António Maria

    Completamente de acordo.Ontem tive vergonha de ser...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, «plus ça change, plus c'est la mêm...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor