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portugal dos pequeninos

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As famílias Adams

João Gonçalves 31 Mai 13

Há muitos anos que trabalho - no Estado, atenção, e não propriamente em nenhuma garagem de luxo de advogados - em torno de impostos, da sua administração e controlo. Também os pago, evidentemente. Por tudo (e, de uma forma geral, por manifesta náusea em relação a segregações sociais encapotadas e demagógicas), não posso deixar de concordar com Os Comediantes: «vir agora com a treta de baixar o IRS a famílias que dispõem de um rendimento acima da média só porque têm muitos filhos, por favor, vão dar banho ao cão, ok?»

Evidências de liberdade

João Gonçalves 31 Mai 13

 

 

«Quando o resto se afunda, é na liberdade que, em última análise, assenta o regresso a uma situação tolerável e “normal”.»



Vasco Pulido Valente, Público


«Há gente num e noutro espectro político, preocupada com as mesmas coisas, indignada pelas mesmas injustiças, incomodada pelas desigualdades de sacrifícios, com a mesma cidadania activa e o mesmo sentido de decência que é o que mais falta nos dias de hoje.»



José Pacheco Pereira, Abrupto



«A minha posição, neste momento, é de tranquilidade e, sobretudo, de grande desapego. Penso, de resto, cada vez mais, que o bom modo de estar na política é assumindo que somos sempre dispensáveis.»


Manuel Maria Carrilho, Pensar o Mundo

Encontro e desencontro

João Gonçalves 30 Mai 13

 

Estive ao fim da tarde no Grémio Literário na apresentação do livro da foto. Ainda não o li. Todavia é gente de outras alturas e de um tempo que acabou definitivamente. Sobrevivem nestes encontros e desencontros entre eles, e entre eles e aqueles que os conservam vivos precisamente através de livros como este. De resto, tudo começa a ser perigosamente insuportável.

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"Libertar Portugal da austeridade"?

João Gonçalves 30 Mai 13



«O problema nasce com o facto, que na verdade não podia ser mais paradoxal, de se investir numa imaginária Europa de esquerda no preciso momento em que o ultraliberalismo a configurava nos seus traços fundamentais: apologia da abertura e do livre-cambismo sem limites, das privatizações, da desregulamentação generalizada, da financeirização da economia, etc. "Libertar Portugal da austeridade" implica hoje uma plena consciência deste equívoco e das suas consequências. Sem ela nada é possível, continuaremos num carrossel de ilusões e de impasses. Porque foi através deste equívoco que se estabeleceu a misteriosa continuidade entre o capitalismo popular e o socialismo da dívida, como se ele fosse o milagroso operador de uma modernidade sempre incensada, e como se o governo das sociedades e das pessoas se tivesse tornado uma mera gestão de coisas. E é ainda esse equívoco que explica que, apesar de o Norte e o Sul da Europa viverem agora de um modo muito distinto o destroçar do sonho europeu de convergência, esta ficção se mantenha, nuns casos por razões tácticas, noutros com intenções estratégicas, mas todos igualmente esquecidos do "interesse europeu" e a pensarem apenas no espaço de manobra e nos pequenos interesses de cada um. Em segundo lugar, "para libertar Portugal da austeridade" é preciso compreender que a crise que vivemos é, acima de tudo, uma crise do capitalismo: uma crise nova, diferente, a exigir análises e respostas inéditas. E que ela é um produto do paradigma do ilimitado (da energia, do consumo, do crédito, dos direitos, etc.), e que este paradigma do ilimitado foi o verdadeiro cimento ideológico do ultraliberalismo desde os anos 80 do século passado. Um paradigma que, é preciso reconhecê-lo, também deslumbrou - e desarmou - a esquerda. Deslumbrou-a de três modos, suscitando um fascínio acrítico, antes de mais, com todas as formas emergentes, mais ou menos fracturantes, de um individualismo que reivindicava cada vez mais direitos, com base numa matriz mais consumista do que cidadã. Depois, com todos os malabarismos "criativos" de um financismo que garantia um novo bem-estar através do crédito fácil e sem fim, conduzindo assim à naturalização social da dívida. Por último, com todas as miragens das novas tecnologias, que anunciavam um novo mundo, ecrânico e auto-suficiente, que na verdade se revelou gerador de novas formas de submissão e de controlo dos indivíduos. Por isso, só será possível "libertar Portugal da austeridade" se, a este paradigma, formos capazes de opor gradualmente outro: com outros valores, outras prioridades e outra linguagem, outra cultura. É desta alternativa que se precisa, o resto não passa de "remendos" mais ou menos alternantes, submetidos à mesma lógica tentacular que nos conduziu aqui. Para "libertar Portugal da austeridade" precisamos ainda de compreender que a sociedade é hoje atravessada pelo que tenho designado como "endividualismo", que é o elemento novo que deu forma, tanto ao ultraliberalismo como ao mini-socialismo do nosso tempo. O endividualismo é o novo tipo de individualismo de massas que nas últimas décadas mudou todas as regras do jogo político, tornando as diferenças ideológicas muitas vezes indiferentes, quando não insignificantes. Em terceiro lugar, para "libertar Portugal da austeridade" não é possível continuar a ler-se a realidade com as lentes de há três ou quatro décadas, as mesmas que levaram a esquerda a não pressentir as consequências da globalização, a não perceber a transformação do capitalismo em financismo, a desvalorizar o choque demográfico, a negligenciar a questão da distribuição da riqueza, a não detectar o retorno das mais brutais desigualdades, a ignorar a fragilização do Estado-providência, a incensar a "estupidez sistémica" induzida pelas novas tecnologias. Ou, ainda, a não compreender o significado do individualismo sem freio e as novas modalidades de subjectivação que ele implica, a acomodar-se com as alterações do estatuto do trabalho, a pactuar com a desvalorização do imposto e a naturalização da dívida, a não reconhecer a bomba-relógio do euro sem união política na Europa ou a não ser capaz de avaliar as consequências da mundialização da cultura e do novo paradigma a que ela deu lugar.»

 

Manuel Maria Carrilho, DN

Concessões?

João Gonçalves 30 Mai 13

 

Quando, não há muito tempo, se colocou a hipótese da concessão a privados da gestão da RTP, gerou-se uma verdadeira comoção nacional para deixar tudo como estava. Do Rato ao Caldas, da Almirante Reis ao Hotel Vitória, até mesmo por trás de algumas portas na Lapa, passando pelos inevitáveis "movimentos espontâneos" da não menos espontânea "sociedade civil (com o António-Pedro Vasconcelos à cabeça), o regime oficial e oficioso ergueu-se para "defender" a RTP sem nunca distinguir (como podiam?) a empresa do serviço público que ela prestava. Até pessoas como o actual presidente do conselho de administração, que se mostravam confortáveis com a hipótese da concessão, tremelicaram de alegria e de temor reverencial quando perceberam que tudo não tinha passado de um sonho de uma noite de verão. Estou uma vez mais à vontade porque nunca me afastei um milímetro daquilo que defendo - a privatização total da gestão da RTP. Dito isto, há nos olhos meus as ironias e os cansaços do Régio quando vejo que, agora, a propósito da "reforma do Estado", as concessões se revelam, afinal, uma óptima "ideia". Ficarei pois sentado a observar quais e em que sectores porque decerto a vaca persistirá sagrada. Entretanto a RTP falece metodicamente nas audiências, não tem dinheiro para pagar rescisões e, em tese, este será o derradeiro exercício com indemnização compensatória. O futuro da contribuição para o audiovisual também está em discussão apesar do CA da RTP pretender o seu aumento em 2014, uma decorrência lógica do princípio desta conversa, ou seja, de a gestão ter permanecido 100% pública conforme a vontade genérica do regime. Sobre isto tudo, nem uma palavra dos "indignados" de há menos de um ano. Aparentemente está tudo bem assim e não pode ser de outra forma. O profissionalismo dos trabalhadores e dos jornalistas da RTP merecia melhor sorte, menos demagogia e outro destino. A ver vamos como dizia o cego.

 

Adenda: Afinal já houve uma manifestação "indignada" no sentido do "deixa estar como está para ver como é que fica", na expressão feliz sobre o portugalório visto por Ruben A.

Dois Senhores

João Gonçalves 29 Mai 13



Infelizmente não cheguei a conhecer Jorge de Sena. Ele vivia e ensinava nos Estados Unidos - a "academia" pós-25 de Abril fez-lhe o mesmo que a do Estado Novo - e, no 10 de Junho de 1977, na Guarda, só o acompanhei pela televisão. De resto, muito cedo habituei-me a lê-lo e a considerá-lo porventura o intelectual mais completo do século XX português. Quanto a Gaspar Simões, entrevistei-o na sua casa da Calçada das Necessidades, para o Semanário, a pretexto de Pessoa. E ainda nos cruzámos em subidas e descidas da Rua Garrett até à sua morte. Foi dele, em exclusivo, e anos a fio, o mandarinato crítico-literário de jornal. Era um senhor, não sei se sabem o que é que isso quer dizer no meio do lixo geral. Eram ambos, cada um à sua maneira, uns Senhores.

O país

João Gonçalves 29 Mai 13

Aborrece.

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O culto íntimo dos livros

João Gonçalves 28 Mai 13



Medeiros Ferreira evoca a memória do escritor açoriano Daniel de Sá. E a apresentação de um livro seu na Caloura, em São Miguel, onde um acaso feliz nos juntou. «Apresentei outro livro dele «O Pastor das Casas Mortas», uma epopeia campestre, num fim de tarde cheio de graça e sol no centro cultural da Caloura. A sala estava cheia. Havia algo de mágico em toda aquela beleza da costa sul da ilha de S.Miguel. Era já raro que Daniel de Sá saísse da «sua» Maia. Não foi só o Daniel que se finou agora, mas sim um certo tipo de culto íntimo dos livros.»

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Em modo de apocalipse estável

João Gonçalves 28 Mai 13



Não há homens para um novo "28 de Maio", não vale a pena assustarem-se em vão. Não há tropa e, sobretudo, não há elites. Os media, que substituiram as elites, dão geralmente ao povo aquilo que o povo quer que lhe dêem. Circo e pão, embora este último não abunde por motivos de todos conhecidos. Há 87 anos o povo seguiu os militares a partir de Braga porque havia um "divórcio" entre a ditadura da República - citadina, pequeno-burguesa e praticamente limitada a Lisboa - e o resto do país. Há 87 anos começou a Ditadura, um interlúdio entre a I República, jacobina e terrorista, e o Estado Novo do Doutor Salazar e da Constituição de 1933. Não está muito estudada porque ficou entalada entre um fracasso e uma promessa que parece ser, aliás, o "mote" destes quase quarenta anos de "novo" regime. Fora as liberdades e algum conforto material agora ameaçado pelas circunstâncias que nem a Europa, minada por uma estupidez política endémica de que não se livra, consegue puxar para cima, Portugal flutua à sombra de si próprio quando começa a não haver desculpas para "este" regime. Karl Kraus, no princípio do século passado, após Sarajevo, escrevia que "o estado em que vivemos é o verdadeiro apocalipse - o apocalipse estável." Não temos guerras nem revoluções, de Maio ou outras, mas é como estamos, em modo de apocalipse estável.

"Uma subordinação inconsciente e feliz"

João Gonçalves 27 Mai 13



«O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz (...). Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro.»

 

Fernando Pessoa

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