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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Decência

João Gonçalves 9 Abr 13

 

Fico satisfeito por Paulo Júlio ter sido ilibado nos tribunais. Nunca, aliás. duvidei da sua inocência. P. Júlio foi um governante sério, empenhado e patriota. Apesar de pertencer à comissão política nacional do PSD, nunca descortinei nele a menor apetência pela politiquice rasteira, pela intriga doentia ou pela deslealdade como "modo de usar". Não. Paulo Júlio singularizou-se pela competência e pela discrição. Saiu pelo seu próprio pé sem ser culpado de coisa alguma a não ser da sua própria integridade. Trabalhou, enquanto secretário de Estado responsável pela tutela autárquica e pela reforma administrativa, com total isenção e absoluto empenho pelo interesse público. Pessoas como ele, pouca dadas a "arranjinhos" e ao  "tricot" rasca da vida político-partidária, rareiam. Duvido que o seu exemplo frutifique.

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O "método"

João Gonçalves 9 Abr 13

 

Consegui finalmente reunir todos os volumes dos "discursos e notas políticas" do Doutor Oliveira Salazar. São notáveis peças de oratória política, muito inspiradas pela pena de Vieira (que Salazar tinha sempre no gabinete), e que revelam, acima de tudo, um acrisolado afecto à língua portuguesa. Até António José Saraiva dedicou um artigo a estas muito peculiares prosas da literatura política doméstica do século XX. Antes de se afirmar como Presidente do Conselho, em 1932, Salazar famosamente ocupou a pasta das finanças. A 28 de Abril de 1928 tomava posse na sala do então Conselho de Estado (a do Risco) e proferiu uma alocução que o celebraria praticamente até ao acidente da cadeira no Estoril quarenta anos depois. Aí explicou o seu "método de trabalho". «Reduziu-se aos quatro pontos seguintes: que cada Ministério se compromete a limitar e a organizar os seus serviços dentro da verba global que lhes seja atribuída pelo Ministério das Finanças; que as medidas tomadas pelos vários Ministérios, com repercussão directa nas receitas ou despesas do Estado, serão previamente discutidas e ajustadas com o Ministério das Finanças; que o Ministério das Finanças pode opor o seu «veto» a todos os aumentos de despesa corrente ou ordinária, e às despesas de fomento para que se não realizem as operações de crédito indispensáveis; que o Ministério das Finanças se compromete a colaborar com os diferentes Ministérios nas medidas relativas a reduções de despesas ou arrecadação de receitas, para que se possam organizar, tanto quanto possível, segundo critérios uniformes.» Mais adiante diria que «pouco mesmo se conseguiria se o País não estivesse disposto a todos os sacrifícios necessários e a acompanhar-me com confiança na minha inteligência e na minha honestidade – confiança absoluta mas serena, calma, sem entusiasmos exagerados nem desânimos depressivos.» Como? Salazar clarificava a coisa mais com a eloquência política do panfletário calculista do CADC do que como o "mago" das contas de somar e subtrair. «Eu o elucidarei [ao país] sobre o caminho que penso trilhar, sobre os motivos e a significação de tudo que não seja claro de si próprio; ele terá sempre ao seu dispor todos os elementos necessários ao juízo da situação. Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar.» Cerca de três anos após este discurso chegou "a altura de mandar" como Presidente do Conselho (de Ministros), isto é, absolutamente. Terminava aí a Ditadura Militar e começava o Estado Novo. O resto é conhecido.

Sugestão

João Gonçalves 9 Abr 13



A estreia do João Távora em letra fixa de forma.

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