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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

A "novidade"

João Gonçalves 24 Mar 13

 

A "concorrência" de Sócrates, o comentador, já se pronunciou praticamente toda sobre o exercício. Faltou, porém, dizer uma coisa fundamental. Nem o governo nem a oposição souberam (ou quiseram), neste "intervalo", trazer a política para o centro das ponderações e das decisões. Não basta suspirar entre portas por melhores dias (ou melhores pessoas), intrigar a favor ou contra este ou aquele, preencher cargos, apresentar moções, discursos ou gráficos numa novilíngua qualquer para prodigalizar uma política. Não. É mesmo preciso "fazer" política a sério, a famosa velha senhora que, dizem, tem horror ao vazio. Foi precisamente por ter pressentido esse vazio (como calculam, não falei com o homem sobre o assunto) que Sócrates decidiu aparecer para, uma vez mais, separar, suscitar o conflito, o cerne (custa mas é assim) da democracia. Mesmo com um passivo e uma história que o desfavorecem e execram, Sócrates arrisca. Só esse gesto "é" política pura. Dir-se-á que não é um programa que muda a natureza das coisas e que a vergonha, em geral, não abunda. É verdade. Sócrates, aliás, pode acabar, como tantos outros, capturado pelo estúdio de televisão, sem consequências. Só que mais do que a sua vontade - ou a alheia de quem o contratou e consentiu nessa contratação -, é como resposta, (imagino que entre o divertido e o decidido) ao vazio e ao torpor instalados que (pasme-se) Sócrates emerge como uma antiga "novidade". É bem feito. Boa noite e boa sorte.

"Nós seremos os últimos"

João Gonçalves 24 Mar 13



O TNSJ, do Porto, recorda Fernanda Alves e Ernesto Sampaio, talvez das poucas histórias efectivas de amor que não me enxofram. Fernanda estava no Porto, no início de 2000, para uma peça e morreu, sozinha, no quarto do hotel onde estava hospedada. Ernesto, em Lisboa, aguentou pouco mais que um ano sem ela. Foi, diria Cesariny, a única pessoa que viu morrer de amor. «A tua ausência é como essas árvores perdidas num jardim ao abandono, que parecem transplantadas de uma floresta antiga, quando um perfume de infância habita a sua madeira. De mim não resta grande coisa. Não me chores. Aqui já não há fogo para apagar. Não me olhes (sei que não podes olhar-me). Estou quase a cair. Já não sinto o meu eu, o meu peso. Perco o equilíbrio, flutuo. Eras tu a gravitação da terra e do céu, e anulaste-as (...) Os últimos, nós seremos os últimos estendidos de uma grande família ignorada que atravessou os séculos dos séculos em termiteiras a perder de vista destruídas e reconstruídas, abatidas quando faz mau tempo, ensolaradas, dissolvidas em chuva, pisadas pelas multidões, sacudidas por abalos, revoltas, incêndios, contágios, milagres obscuros, futilidades ruidosas, feridas de sangue e de água, tiros. Por cima disto nada, ninguém soube nada, ninguém saberá nada.» Os dias felizes não voltam mais.

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O regresso do "inspector"

João Gonçalves 24 Mar 13



Francisco José Viegas traz esta semana de volta o "inspector Jaime Ramos". Nesse contexto é natural que aproveite a "boleia" que a RTP lhe ofereceu para "coordenar" o telejornal deste domingo. Na realidade, o domingo é o primeiro dia da semana pelo que o que se passou na que terminou porventura já não interessa. Mas foi a semana em que o jornalista Nuno Santos, ex-director de informação da mesma RTP que convidou o Francisco, foi despedido por alegada justa causa, leia-se, por delito de opinião, no lastro de uma "escola" que dificilmente será banida da nossa vida colectiva, e que tem mais epígonos, por acção e omissão, do que se imagina. O substituto de Santos, Paulo Ferreira, não obstante ter-se louvado em Voltaire a propósito do seu magnífico ovo de Colombo, Sócrates ("não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo"), não achou que Santos merecesse idêntica deferência filosófica. A ela preferiu o silêncio cúmplice e autocomplacente. Como escreve Nuno Azinheira no Diário de Notícias, "quando um facto cria ruído e impacto negativo na imagem de uma empresa, nada como criar um novo facto poderoso para que se deixe de falar do antigo." Isto é, não há como um dia depois do outro, do que um Sócrates depois de uma remoção ilegítima como se as pessoas fossem bonecos de trapos. Que diria o "inspector Jaime Ramos" disto?

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