Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

A nossa dimensão

João Gonçalves 16 Mar 13

 

Passam vinte anos sobre a morte de Natália Correia. A poesia de Natália é desequilibrada na sua qualidade e há demasiada prolixidade nos seus escritos. O Fernando Dacosta acha que era tocada pelo "mistério", um respeitável disparate, mas sempre preferi o seu lado bem terreno que misturava, nem sempre nas doses adequadas, com um certo romantismo político e cultural  traduzido na veemência das suas posições públicas, mesmo as aparentemente mais contraditórias. Natália pertencia a uma "escola" de polemismo que desapareceu por completo. Agora, uma "polémica", ou uma crítica, é tomada por coisa pessoal e as pessoas afastam-se estupidamente umas das outras em nome de uma "honra" que nem sequer dá para ser perdida. Pessoas como ela fazem falta nas horas anódinas que vivemos onde "a nossa dimensão/ Não é a vida. Nem é a morte."

 

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.
Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.
Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão

Não é a vida. Nem é a morte.

Ideias fortes

João Gonçalves 16 Mar 13

Luís Marques Mendes estreia-se este sábado, como comentador, no telejornal da SIC generalista. Tem o portefólio cheio. Com a política praticamente ausente da vida pública - e a pouca que existe não se recomenda -, a Mendes não faltam "temas". Os domésticos são quase todos desastrosos e, por isso, precisam de ideias fortes. Resta Francisco, o novo Papa, a surpresa luminosa nestes tempos que vão ficar para a história pelos piores motivos.

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

  • António Maria

    Completamente de acordo.Ontem tive vergonha de ser...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, «plus ça change, plus c'est la mêm...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor