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portugal dos pequeninos

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Erro de casting

João Gonçalves 14 Mar 13

Quando vamos à ópera e, sobretudo, estimamos o intérprete e ele falha, sentimos aquilo como se tivéssemos sido nós a falhar - enterramo-nos na cadeira e esperamos que passe. É o que sinto cada vez que ouço o presidente do conselho de administração da televisão pública. Não por ele, evidentemente, mas por quem manda nele.

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Jorge Jesus* upgraded?

João Gonçalves 14 Mar 13

 

Transcrevo na íntegra o artigo de Manuel Maria Carrilho no Diário de Notícias, com a devida vénia amiga, porque nesse se desmonta um dos maiores embustes "comunicacionais" em funções, o extraordinário José Gil e a sua indecifrável "inscrição", ou "não inscrição", consoante o veio da hora. Confesso que na altura em que publicou O Medo de Existir o li com atenção. Só que, daí em diante, o referido Medo entrou em crisálida e Gil não mais saiu daquilo. Repetiu-o em doses industriais, consoante os "tempos" e os protagonistas, como um vulgar e superficial comentador dos muitos que enxameiam os jornais, as revistas e as televisões com a sua alacridade. Safa-se um livrinho (e nem sequer todo) sobre Fernando Pessoa e pouco mais. Que Gil inscreva a modéstia e o silêncio na sua cabeça de uma vez por todos, são os meus mais sinceros votos.

 

«A ideia surpreende: "Os portugueses, pela primeira vez, estão a entrar numa mudança da sua mentalidade profunda. Eles já não vão contentar-se com o tal paradoxo da não-inscrição, de viver em círculo sempre, como a pescada de rabo na boca, a fugir sempre à realidade, numa irresponsabilidade. Não. Pela primeira vez, o português encontrou a realidade. E encontrou a realidade como? Quando lhe tiraram tudo, todas as possibilidades." A ideia é de José Gil, e foi exposta aqui nas páginas do DN, em entrevista de João Marcelino, publicada no domingo passado. E ela é intrigante: será mesmo assim, o País estará, ao fim de uma inesperada série de choques e de privações, a descobrir uma outra luz no túnel da realidade e a mudar de mentalidade? Seriam talvez boas notícias, finalmente, mas não creio que José Gil tenha razão. E as minhas dúvidas reforçam-se ao ler o que ele afirma nesta conversa sobre o poder ou a democracia, a política ou o socialismo, bem como o que diz sobre a crise que se vive hoje, por cá e no mundo. A dificuldade surge com a noção de "não-inscrição", há muito usada pelo autor para interpretar Portugal. Ele pensa que há um problema especificamente português, que radicaria no que designa como a "não-inscrição", noção de sentido vago e equívoco, mas que no essencial aponta para a convergência de duas falhas: a da consciência histórica e a da consciência subjetiva daquilo que em cada momento se está a viver, processo que estaria na origem de um "medo de existir" que seria típico do Portugal contemporâneo. A principal dificuldade, a meu ver, está em que esta "não-inscrição" pouco ou nada adianta em relação aos conceitos tradicionais de alienação social, de negação psíquica ou de reconstrução histórica, muito usados para descrever os fenómenos e os acontecimentos a que José Gil se refere. Que, de resto, na grande maioria dos casos, só por caridoso simplismo ou inesperado paroquialismo se pode dizer que são especificamente portugueses... E se isto já era bastante claro há dez anos, quando o autor sugeriu esta alambicada noção, hoje é-o muito mais. É justamente isto que o confronto com os acontecimentos da atual crise, abordados na entrevista, revela de um modo inequívoco. Senão vejamos: a certa altura, José Gil afirma que hoje "as condições são completamente diferentes, não há uma nova Revolução dos Cravos a fazer. O que há a transformar é todo o sistema político. Há que reinventar a democracia que queria ser inscrita pela Revolução dos Cravos." João Marcelino pergunta então ao seu entrevistado - antecipando bem todo o interesse, para os leitores, da radical reinvenção política assim reclamada - quais as pistas que ele sugere nesse sentido. A resposta não podia ser mais esclarecedora: "Não, não tenho pistas", para a seguir remeter para "muitos pequenos autores internacionais que pensam, que querem pensar outra sociedade, uma sociedade a que eles ainda chamam socialista e que tem de ser inventada". Lapidar!... Assim arrumada a reinvenção da democracia, vejamos o que diz José Gil sobre o socialismo. Ele é de facto diversas vezes referido na conversa, mas pouco se sai das trivialidades mil vezes repetidas sobre a sua situação depois da queda do Muro de Berlim, e do seu recolhimento à famosa gaveta. Contudo, acrescenta: "Meteu-o na gaveta porque não tinha outro socialismo a apresentar, porque não havia, porque aquele já não dava! E o que ele devia ter feito, e isso é um enigma e um mistério, digo-lhe eu, só se explica talvez por preguiça mental, porque a preguiça mental traz benefícios secundários de gozo e de prazer." A novidade, aqui, é que a preguiça parece substituir a "não-inscrição", a não ser que tenham sido sempre - a hipótese é plausível - a mesma coisa!... Com arroubos destas sobre a democracia e o socialismo, o leitor poderá estranhar que a "não-inscrição" reapareça agora, digamos, reinscrita com um papel de destaque nas manifestações que têm ocorrido por todo País. Mas, diz José Gil, "o que se está aqui a manifestar não é uma contestação só de uma política. É isso também, mas é outra coisa mais, é uma manifestação porque, precisamente, 'eu me quero inscrever'". E o que é que isso significa, perguntará o leitor? Pois bem, diz José Gil, "eu quero inscrever-me significa: eu quero ter uma família, quero ter filhos, quero ter futuro, quero ter iniciativa". Bom, se é disto que se trata, é de prever que as inscrições agora sejam muitas. Mas será isto a tal mudança de mentalidades que José Gil diagnostica no País? Não o creio, repito. Portugal está hoje com uma intensidade sem paralelo desde 1974, tão atordoado como desvitalizado, e segue rebocado numa crise que ninguém parece capaz de enfrentar. É isso que as manifestações na verdade revelam, no seu silêncio cada vez mais pesado, na sua quase total inarticulação de ideias ou de propostas, nos seus olhares desamparados. Imaginar aqui "energias e forças" de inspiração mais ou menos "grillista", pensar a política e relação com o poder em termos do que "mete medo", etc., tudo isto não passa de tributos pueris que se pagam a uma radicalidade palavrosa que parece pensar quando, na verdade, apenas impede de compreender.»


*Um competente treinador de futebol a quem endereço todas as venturas.

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