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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

E se melhor for impossível?

João Gonçalves 7 Mar 13

 

Parece que é dia de aniversário da RTP. Parabéns, pois, à prima. A RTP de agora nada tem a ver com a criada há 56 anos. Nos jardins do que viria a ser a Gulbenkian - era aí que funcionava a defunta "feira popular" -, muitos lisboetas, entre os quais o meu Pai, assistiram às primeiras transmissões. Salazar percebeu rapidamente que o "meio" era excelente para a propaganda e aproveitou-o até ao fim. Quando queria mudar de governantes, e lhe sugeriam nomes, dizia ao interlocutor: "passe-mo na televisão". Até ao princípio dos anos 90, a RTP reinou, absoluta, sobre o universo do audiovisual português. De "sociedade anónima de responsabilidade limitada", onde o Estado sempre mandou por interpostos governos, passou, com o PREC, a "nacionalizada" com o dito Estado como seu accionista único. Nessa qualidade, foi-lhe concessionado, logo por Salazar, o chamado serviço público de rádio e televisão, uma espécie de vaca depois sagrada constitucionalmente, o que tem servido de pretexto para a confusão oportunista entre a empresa e o dito serviço. Todavia, mais do que confundir-se com o serviço público, a RTP confundiu-se sempre com o regime. Não houve cão nem gato que não sugerisse um amigo ou uma amiga, um coitado ou uma coitada que estivessem para aí "sem fazer nada" para engrossar as prateleiras da empresa. Muitos cargos foram criados não porque fossem necessários mas porque era "preciso" dar guarida ao coitado ou à coitada. Quer o PS quer o PSD não se pouparam nesta obra misericordiosa e a RTP, já por si endogâmica (daria um estudo heráldico interessantíssimo), acabou transformada num centro de acolhimento do regime "desempregado" à semelhança, aliás, do extinto IPE. Como se parte geralmente do princípio que o Estado tem solvência perpétua, foram injectados milhões de contos e de euros na RTP à conta de um "princípio" elementar: "se eu, membro do governo, seja lá ele qual for, precisar de ir à televisão daqui a meia hora, tenho de ter pelo menos um canal que me garanta isso". A retórica dos "ideólogos" do serviço público nunca fala deste "princípio" que aparentemente os incomoda menos porque têm capelas, as deles, a defender. Basta consultar o cardápio dos "serviços externos" da RTP ou as lunáticas "propostas de trabalho" que lá entram ou tentam entrar por portas e travessas (sei o que estou a dizer porque também recebi algumas que guardo religiosamente para memória futura). Dito isto, a RTP possui excelentes profissionais (foi de lá que partiu quase toda a gente que "formou" os operadores privados) em todos os seus sectores de actividade, bem como um acervo tecnológico e de memória que devem ser preservados. Como? O regime - do CDS ao Bloco - decidiu que a RTP não pode ser privatizada e, por consequência, foi pedido pelo Governo à administração que evidencie como é que pode "governar-se" nas contingências impostas. Conhece-se pouco do que pensa a administração - e o que se conhece não se recomenda - mas sabe-se que a realidade não é famosa: quebra brutal nas audiências, insatisfação e desmotivação dos trabalhadores, direcções erráticas, autocomplacência presidencial e um processo disciplinar por delito de opinião a um director com vista ao seu despedimento. Tudo somado, isto não prodigaliza uma ambição com futuro nem homenageia um passado indisputável. A RTP, no Estado ou fora dele, merecia melhor. Todavia, como perguntava o outro, e se melhor for impossível?

Quem?

João Gonçalves 7 Mar 13

Bela frase de Francisco Assis no Público: «o país não precisa de pequenos catequistas, carece de verdadeiros políticos.» Mas podia acrescentar-lhe os célebres versos de Rilke -"se eu gritar, quem poderá ouvir-me nas hierarquias dos Anjos?"

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Brandão

João Gonçalves 7 Mar 13



Hoje, às 18h30, o lançamento do livro de Raul Brandão, A Pedra Ainda Espera Dar Flor, organizado pelo Vasco Rosa. No Centro Nacional de Cultura, Largo do Picadeiro (ao lado do São Carlos), nº 10, 1º.

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