Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Franqueza

João Gonçalves 31 Mar 13

Aos jornais, preferi neste domingo de Páscoa a troca de argumentos entre dois homens inteligentes ao longo de várias décadas. Refiro-me a Óscar Lopes e a António José Saraiva e à "correspondência" reunida no livro da foto por Leonor Curado Neves. Correspondência deste jaez é praticamente impossível de encontrar hoje em dia. Quer porque o "mundo" editorial português mudou radicalmente, e  para pior (e muitas das cartas tratam dele, sobretudo por causa das sucessivas reedições da História da Literatura Portuguesa de ambos), quer porque o "mundo" dito literário português de agora não se confunde com o que eles frequentaram enquanto estudiosos, quer ainda porque a densidade das prosas respectivas não "toca" os espíritos shallow nem o mandarinato medíocre que rege o "meio". Estes homens nunca precisaram de lambuzar ninguém para se afirmar. As cartas contam a história de uma amizade intelectual que sobrelevou sempre a "razão" de cada um. Numa delas, aliás, Lopes diz a Saraiva que prefere a amizade deste a ter propriamente razão. «Franqueza é amizade e confiança.» Incompreensível, não é? Mas, como escreve Lopes na mesma missiva de 1969, "é tão fácil ser E. L." Ainda hoje é.

 

Adenda: Sobre Óscar Lopes, este "depoimento" de José Pacheco Pereira

«O populismo católico»

João Gonçalves 31 Mar 13



«Coisa estranhíssima num país católico, ou que se diz católico, quase ninguém discutiu a política do novo Papa, já mais do que evidente. E essa política é importantíssima para a América e para a Europa, onde a Igreja passa pela sua mais grave crise de sempre. A maioria dos católicos aproveita da Igreja o que lhe convém e rejeita o resto. A doutrina ortodoxa foi substituída por uma mistura de crenças, variável e muitas vezes contraditória, que se adapta melhor ao estilo de vida ocidental, não incomoda os crentes no dia-a-dia e sobretudo não impõe a mais leve proibição ao que eles querem pensar ou fazer. Um católico pode hoje, por exemplo, aprovar os contraceptivos, como pode ser a favor da homossexualidade e do casamento homossexual, sem qualquer dor ou distúrbio de consciência. Nestas matérias, o Vaticano passa por uma instituição obsoleta e anquilosada, cuja intransigência se não deve levar muito a sério. O Papa Bento XVI, um velho professor de Teologia Dogmática, insistiu em relembrar os fundamentos da doutrina e em reconstituir, na medida do possível, uma tradição ignorada e, agora, crescentemente desprezada. Não chegou longe, impedido pela indiferença geral e pela resistência interna e externa, que pouco a pouco o isolou. Quando saiu, o seu pontificado estava sem destino. O Papa Francisco resolveu seguir outro caminho. Sendo - como o seu nome indica - um franciscano, pensa manifestamente em reconstruir a Igreja de baixo para cima. Daí a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa a que ele mesmo conseguiu chegar: não aceitou os sapatos da convenção, recusou o apartamento (suponho que magnífico) que era o dos papas desde o princípio do século XX e escolheu para ele uma hospedaria de padres num canto do Vaticano. Outros gestos como estes não tardarão a vir com o propósito transparente de surpreender e mobilizar o "povo de Deus". O franciscanismo foi na sua origem um movimento popular, que pretendia reconduzir a Igreja à sua pureza primitiva. Este Papa também não se interessa muito por batalhas teológicas, o que lhe interessa é reconquistar as massas, perdidas no ateísmo e na heresia, para o catolicismo: e a sua vocação para o espectáculo irá com certeza mudar a face da Igreja. Mas sem nenhuma concessão no essencial. O Papa Francisco acredita no Diabo e acredita que o Diabo está por detrás das desordens de que os verdadeiros crentes sofreram a partir de Pio XII. E, além disso, o Pai da Mentira é um inimigo familiar.»

 

Vasco Pulido Valente, Público


Nota: Vários leitores "indignaram-se" por VPV se ter referido a Francisco como franciscano e não como discípulo de Santo Inácio. Não sei se é um lapso mas isso só o próprio pode esclarecer. Para além disso, "franciscano" também pode querer dizer o que VPV escreve a seguir, isto é, "a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa". E não tanto a pertença à respectiva ordem. Mas, para usar um novo uso filológico e substantivo facultado recentemente pelo serviço público de televisão, o que aqui importa é a "narrativa" e menos os detalhes. Não é o que toda a gente aplaude?

Sobre nada

João Gonçalves 30 Mar 13

Infelizmente já não consegui o Diário de Notícias para ler, em papel, a entrevista do senhor presidente do conselho (de administração) da RTP. E estar a ver um clip com a criatura, sinceramente não tenho pachorra. Bastaram-me, para ficar esclarecido, meia dúzia de reuniões. Mas o Público resume o essencial. E, como seria previsível, a coisa não se recomenda. O senhor presidente não faz uma pequena ideia do que seja o serviço público de rádio e televisão. Confunde-o, desde logo, com audiências. Depois cita mal a BBC e transforma, por exemplo, Sócrates numa espécie de boneco de feira - «o que é popular é bom, e o que é bom é popular» -, reduzindo-o a um mero talk show de televisão de sucesso garantido. Não acredito que Sócrates agradeça ou aprecie especialmente este "populismo popular" do senhor presidente. Sobre a sua relação com o ministro da tutela, o dever de reserva pelo menos a mim impede de produzir qualquer comentário. A ele, pelos vistos, não. Numa completa inversão da ordem natural das coisas, é o senhor presidente quem "avalia" o desempenho de quem o escolheu. E para se estabelecer narcisicamente como o novo campeão nacional da defesa da RTP no modelo actual. Uma vez mais o dever de reserva (o meu) trava, para já, outros desenvolvimentos sobre estas "convicções" presidenciais. O mesmo se diga do "processo" Nuno Santos acerca do qual o senhor presidente também parece ter certezas absolutas, quer de calendário, quer de procedimentos. No lugar dele, eu não teria nenhumas. Sobre nada.

Argo e não só

João Gonçalves 30 Mar 13

 

Só esta madugada vi Argo, de Ben Affleck. Parece que ganhou, este, uns quantos óscares. Mais do que a peripécia - o repatriamento bem sucedido, executado no fio da navalha, de meia dúzia de diplomatas norte-americanos no auge da revolução iraniana de 1979 - interessou-me a personagem desempenhada por Affleck, o "especialista" nessa manobra que, famosamente, está sozinho no  "terreno", entalado entre a missão oficial à última hora abortada "por cima" e a determinação moral (e, no caso, a coragem física) em a levar até ao fim. Nem sempre é possível reagir com sucesso à impotência ou às dificuldades causadas pela pusilanimidade alheia. Quanto tempo inútil se perde, tantas vezes, a tentar explicar "por a mais b" que, por este ou aquele caminho, esta ou aquela omissão se está a levar tudo tão alegre quanto inconscientemente para o fundo? Ou que, ao chamar a atenção para disparates clamorosos se procura fazer elevar a voz crítica, sempre incómoda, claro, mas porventura mais sensata que a da superficialidade manobrista e da facilidade desastrosa? Ou, ainda, que é preciso denunciar o obtuso que parece o óbvio ou não tergiversar perante o óbvio que é mesmo obtuso? Foi ao não ter hesitado em responder a questões como estas, na solidão do quarto de hotel em Teerão, que a personagem de Affleck pôde ajudar aqueles pobres diplomatas norte-americanos a tremelicar de medo. No limite, eles souberam segui-lo.

Merecem perder

João Gonçalves 29 Mar 13

À conta das eleições autárquicas deste ano, têm sido servidos ao país diversos e prometedores "aperitivos". Desde logo a preciosa ambiguidade jurídica em torno da interpretação da chamada lei de limitação "de" mandatos autárquicos. Como o parlamento, do alto da sua excepcional presciência, decidiu que a lei não carecia de ser interpretada a não ser pelos tribunais, estes andam a fazer-lhe a vontade em prestações suaves. Depois, há pessoas que aparentemente fizeram profissão da contingência do voto que receberam para exercer mandatos nas autarquias. E que pretendem manter uma espécie de direito de pernada sobre uma junta ou uma câmara que nunca viram na vida à conta desse extraordinário chamamento. Finalmente sobram aqueles que, com a maior ligeireza, trocam responsabilidades de Estado pela precaridade de uma candidaturazinha paroquial a fim de satisfazer a gula torpe da intriga partidária. Nuns casos como nos outros, merecem perder.

«A verdadeira realeza»

João Gonçalves 29 Mar 13

 

 


«No cimo da cruz de Jesus – nas duas línguas do mundo de então, o grego e o latim, e na língua do povo eleito, o hebraico – está escrito quem é: o Rei dos Judeus, o Filho prometido a David. Pilatos, o juiz injusto, tornou-se profeta sem querer. Perante a opinião pública mundial é proclamada a realeza de Jesus. O próprio Jesus não tinha aceite o título de Messias, enquanto poderia induzir a uma ideia errada, humana, de poder e de salvação. Mas, agora, o título pode estar escrito ali publicamente sobre o Crucificado. Ele, assim, é verdadeiramente o rei do mundo. Agora foi verdadeiramente «elevado». Na sua descida, Ele subiu. Agora cumpriu radicalmente o mandamento do amor, cumpriu a oferta de Si próprio, e precisamente deste modo Ele é agora a manifestação do verdadeiro Deus, daquele Deus que é amor. Agora sabemos quem é Deus. Agora sabemos como é a verdadeira realeza. Jesus reza o Salmo 22, que começa por estas palavras: «Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?» (Sal. 22/21, 2). Assume em Si mesmo todo o Israel, a humanidade inteira, que sofre o drama da escuridão de Deus, e faz com que Deus Se manifeste precisamente onde parece estar definitivamente derrotado e ausente. A cruz de Cristo é um acontecimento cósmico. O mundo fica na escuridão, quando o Filho de Deus sofre a morte. A terra treme. E junto da cruz tem início a Igreja dos pagãos. O centurião romano reconhece, compreende que Jesus é o Filho de Deus. Da cruz, Ele triunfa sem cessar.»


Joseph Ratzinger

Do CEO caiu uma estrela

João Gonçalves 29 Mar 13

O dr. Pires de Lima, CEO da Super Bock, é entrevistado pelo Expresso. Às tantas deparo com a "chave" da entrevista tal como nos sonetos se espera pelos três versos finais para o interpretar: "pensamos em nós próprios e isso é muito salutar". O CEO não estava, evidentemente, a pensar nas cervejas (por sinal as que prefiro), na economia ou na mudança da hora mas no seu partido. Só que um partido que faz parte de uma coligação e cujo lema - "salutar" - é o "pensamos em nós próprios", parece mais uma organização autocomplacente do que um partido convicto na coligação constituída com um propósito nacional e cívico que transcendia os partidos que a integram. Para citar o ministro Paulo Macedo, pessoalmente isto, ou o referido CEO, não me preocupa nada. Todavia, o que parece em geral é

Tags

Não haja ilusões

João Gonçalves 28 Mar 13

 

O Papa Francisco escolheu prodigalizar o momento do lava-pés pascal numa instituição de menores delinquentes, conhecida como "reformatório" ou, no nosso "correcto" jargão jurídico, por "centro educativo". Também afirmou que não quer que os padres andem "tristes" e trocou os aposentos papais no Vaticano por um quarto, salvo erro, na Casa de Santa Marta, ao lado. Não usa uma cruz de ouro e prefere manter os sapatos que usava. Sai a torto e a direito do jipe para saudar os circunstantes na praça de São Pedro. E por aí fora. Estes episódios têm feito a alegria daqueles que imaginam que o Papa - um homem tipicamente latino-americano -, por causa de um gesto ou outro, é "diferente" dos que o antecederam. Como repetia o Papa Emérito Bento XVI, a Igreja não pratica o proselitismo. Francisco não guarda uma fé distinta dos sucessores de Pedro. Terá um modo diferente de a evidenciar, mas é só uma (e única) a que proclama e defende. Há tantos caminhos para Deus quanto há homens, escreveu Ratzinger. O Papa sabe isso melhor do que ninguém. Não haja ilusões.

Torquato

João Gonçalves 28 Mar 13



O Torquato partiu. Em silêncio. Meu querido Amigo, que falta me vão fazer as nossas conversas sobre a história recente desta treta toda, destes velhos gnomos que Você tão bem conhecia e que andam por aí, entre a puta, o cabrão e o tartufo, armados nos humanos que nunca chegarão a ser. Não esqueci nada desses momentos de boa disposição, ironia e realismo sobre o curso disto tudo - a sua humanidade, a sua generosidade, a sua poesia. Agora, Torquato, o Senhor é o seu pastor. Nada, ao contrário de nós, lhe faltará.

Vem aí mais chuva

João Gonçalves 28 Mar 13

 

Lisboa, pelo menos, está invadida por turistas. Mesmo sob uma pressão meteorológica a raiar já o insuportável, eles aí andam, todos contentes, a fazer nos restaurantes cativos do fisco as vezes dos autoctónes tombados pela crise e pelo tédio pascal. E também se deslumbram nos eléctricos que fotografam profusamente antes de lhes furtarem, lá dentro, a máquina e o resto. Os de Lisboa terão ido presumivelmente para as hortas, para a "terra", e uns quantos para "low costs" de ocasião. Num alfarrabista, "apanhei" o Óscar Lopes. Está feita a páscoa. Vem aí mais chuva.

Pág. 1/8

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

  • António Maria

    Completamente de acordo.Ontem tive vergonha de ser...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, «plus ça change, plus c'est la mêm...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor