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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

 

Apenas ao fim da noite de ontem li o artigo de Manuel Maria Carrilho no Público de quarta-feira. Depois de Yvette Centeno no fim de semana, e da série dedicada aos "valores para 2013", este texto de Carrilho é porventura um dos que mais correspondem à famosa exortação de Pound, citada por Steiner, a propósito da linguagem: «tornar novo o que se faz.» Ora "tornar novo o que se faz" é, indisputavelmente, um valor para qualquer tempo mas particularmente decisivo neste. Trata-se de um ensaio que poderia figurar como "pórtico" num putativo opúsculo sobre qualquer putativa reforma de nós. «O país vive atordoado por uma crise cuja natureza e amplitude não quis prever e não soube compreender. E que, agora, não vislumbra como há-de superar. E como vivemos a folhetinizar tudo, acontecimentos e idiotices, catástrofes e efemérides, escândalos públicos e vidas privadas, escapa-nos tanto o sentido da história que explica como o pressentimento do futuro que mobiliza. E o presente torna-se, assim, numa interminável e pura actualidade, ora mais gelatinosa ora mais granítica, mas sempre cega e sem contexto, reduzida a protagonismos, a conflitos e a fait-divers. A informação conta muito, claro. Foi de resto um jornalista, Jean-François Kahn, quem melhor caracterizou a ideologia mediática hoje dominante (quase apetece dizer: a ideologia do "partido dos media") como um cocktail de infantilismo, de liberalismo e de conformismo. Cocktail que transforma, como já uma vez escrevi, o espaço público português num espaço sufocante de lérias, lamúrias e larachas, que a alternância entre a banalidade e a boçalidade procura converter num simulacro informativo. O atordoamento da sociedade portuguesa resulta, em boa parte, disto: da nossa submissão a uma actualidade que se vive como incontornável mas, ao mesmo tempo, sem sentido. Em que a urgência se impõe como a dimensão central de todas as temporalidades, fazendo do imediato e do curto prazo o único horizonte possível para as opções dos cidadãos e para as escolhas da sociedade. Esquecendo que no curto prazo não há convicção nem projectos, que só nascem com o médio prazo e o tempo longo. Mais do que de um "roubo do presente", como parece pensar José Gil (Visão, 20.12. 2012), é de uma condenação ao presente que na verdade se trata. Condenação que pode tornar o próprio pluralismo em algo de meramente vegetativo e formal, uma vez que a copiosa multiplicação de pontos de vista irrelevantes sobre todo o tipo de insignificâncias têm como principal consequência a privação de qualquer perspectiva consistente sobre o que quer que seja.(...) Uma democracia é tanto mais forte quanto mais qualificados forem os seus partidos políticos, quanto mais autónoma for a sua sociedade civil e quanto mais simultaneamente visionárias e populares forem as suas elites. Infelizmente, a nossa democracia rapidamente se resignou à desqualificação dos seus partidos, ao sonambulismo da sua sociedade civil e à demissão das suas elites. Ou seja, em suma, a desvitalização democrática, que foi o que conduziu o regime à decrepitude que hoje tanto nos assusta. Uma resposta simultânea e global a todos estes problemas exige, como tenho defendido, que se pense em termos de uma Nova República, que aposte na credibilização dos partidos, na revitalização da democracia e na qualificação do pais.(...) A ilusão europeia manteve-se até ao final da década passada, quando a crise do euro veio abalar todas as ilusões e revelar os gravíssimos problemas estruturais que a União Europeia enfrenta, e que persistentemente parece incapaz de resolver, entregue a um torpor que faz temer o pior para 2013. Só com esse choque é que se mediram bem as oportunidades que entretanto se tinham perdido, e os meios que se tinham desperdiçado. E se percebeu que os três dês de 1974 tinham sido trocados por outros dês: do desleixo, do desperdício, do desnorte. E para isto não há desculpas, nem perdão, porque nunca é possível salvar aquilo que se destruiu.»

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