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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Do meu amigo Joaquim

João Gonçalves 6 Jan 13

 

 



Inverno em Vila Real. O nevão
cobria a rua do liceu.
Uma luva de cabedal amodorrado
no tampo, o vapor do alento
liga-nos à toada indiferente.
O meu tumulto ensombra-te.

Um pombo protegido no beiral,
a cabeça na plumagem de procela.
Tu calado, eu afeito ao silêncio, delineava-se
no compêndio e numa bolsa a letra
do nosso nome, de maneira a desenhar
uma única sílaba fora de alfabeto algum.
Que bem tão mal ali se convinha, se
faltava à aula, na sediciosa ocasião
de um inaugural amor.

O foro furtivo já desagregava.
Nem eu te quereria
na luta em sobressalto do meu rumo.
Porém, sempre que falarem da neve
e o que for teu vier pela avenida
em direcção à confeitaria
algo do desaparecimento, quem sabe, te lembrará.

É preciso dar tempo ao tempo

João Gonçalves 6 Jan 13

 

Agora que toda a gente anda a falar da RTP (e da eventual reprivatização da RTP), confundindo uma empresa com serviço público, é precisamente a altura menos adequada para dizer alguma coisa sobre essa curiosa prolixidade intencional. É preciso dar tempo ao tempo como repetia Mitterrand.



«Momentos de Mudança, da Sic Notícias, é produto recomendável num país que também televisivamente não se recomenda. Ou foi, já que ignoro se os nove episódios transmitidos, disponíveis na Internet, terão continuação. Não se trata, como com exagero pretende a estação, de uma "série documental". São, isso sim, reportagens de certo fôlego sobre casos individuais em situações generalizáveis num país a atravessar crises e espantos diversos: o nascimento, a criação de uma empresa, o desemprego, a doença, a falência, a velhice, o casamento entre homossexuais, as mulheres no exército, etc. O "etc." corresponde ao último episódio, intitulado Sofia e Tiago, um casal de autoproclamados "activistas" que aparentemente ocupa os dias a organizar manifestações e a participar nas ditas. À semelhança dos programas restantes, a perspectiva dos autores é simpática para com os protagonistas e, suponho, tenta levar o espectador a sentir o mesmo. Escusado dizer, falha estrondosamente. Não custa imaginar a resignação de Maria Amélia, a velhinha apanhada em processo de transição para um lar de idosos. Ou a angústia de Germano e Elisa, forçados a entregar a casa por falta de dinheiro e de saúde. Ou a desilusão de Ivo e Hélder, cujo matrimónio nem sempre lhes confere a tolerância que esperavam. Em contrapartida, é impossível perceber o alegado desespero de Sofia e de Tiago. O que se percebe é o universo de clichés que habita as respectivas cabeças. Se Momentos de Mudança no fundo acaba por captar a estupefacção dos intervenientes, os "activistas" julgam decifrar o que os rodeia. Estupefacto fica o espectador ante tamanha sucessão de infantilidades. Infantilidades pedagógicas, de resto. Queixosos da precaridade laboral enquanto brincam aos movimentos sociais no computador ou passeiam de carro à procura de apartamento na capital, entusiasmados na mobilização de ajuntamentos onde todos são iguais e furiosos quando os seus pares não lhes conferem o protagonismo desejado (uma cena hilariante), avessos aos partidos e mortinhos por desencantar lugar num, convictos e ignorantes, Sofia e Tiago escrevem sozinhos um manual de instruções para os preliminares da ascensão política. Ou um aviso dissuasor, para os que ainda possuem a noção do ridículo.»

 

Alberto Gonçalves, DN

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