Trolhas perigosos
Neste relatório. O editor de economia da SIC, José Gomes Ferreira, resumiu de forma exemplar esta bandalheira tipicamente regimental.
Neste relatório. O editor de economia da SIC, José Gomes Ferreira, resumiu de forma exemplar esta bandalheira tipicamente regimental.
Abre hoje no Porto a feira do livro. Dedicam-na à poesia e a Agustina. Foi há muitos anos que Agustina - que fui entrevistar à sua casa do Campo Alegre - me deu o número de telefone de Eugénio de Andrade. Liguei-lhe de uma cabine pública. Não havia telemóveis. Ninguém atendeu. E assim ficámos neste desencontro eterno que é, talvez, um termo possível para a poesia.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
Foi um belo mote da campanha da primeira maioria absoluta do Prof. Cavaco Silva, no verão de 1987: «Portugal não pode parar.» Continua actual. «A agência de "rating" [Fitch] considera "impressionante" o número de privatizações que estão a ter lugar em Portugal e, dadas as ofertas de compra apresentadas no primeiro trimestre, antecipa que a meta para o valor das privatizações seja superada.»
«Há por isso um ponto sobre o qual não pode haver dúvidas, para poder haver uma saída. Esse ponto é que dois anos e meio de impasses constituem a prova cabal que a crise do euro e da União Europeia decorre, mais do que do descontrolo financeiro grego, da impotência da própria governação europeia. Foi esta a grande evidência que a irresponsável crise grega revelou. Não podemos, por isso, continuar no círculo vicioso de cimeiras inúteis, a fingir que se ultrapassa esta situação com pequenos remendos, alguns biscates e muita laracha. Como se, quanto mais rápidos se revelam os mercados, mais lentamente se pudessem comportar os políticos. Realizaram-se 24 cimeiras desde o começo da crise, o que dá um bom filme da contumaz impotência europeia: todas elas foram, ou de conversa inconclusiva, ou de anúncio de decisões que, na maior parte dos casos, nunca passaram à prática. Como se todos soubessem o que há a fazer, mas ninguém soubesse como.»
Adenda: A França, fiel ao compromisso eleitoral de Hollande, mantém a intenção de renogociar o chamado "tratado orçamental". E a Irlanda está hoje a referendá-lo. Quanto mais a "Europa" for uma imposição burocrática mais perto andará da falácia política e económica. O seu desmesurado crescimento (quase 30 estados-membros) ameaça o outro crescimento, aquele de que tanto apenas se tem falado nas derradeiras semanas. Nas palavras de Carrilho, é de facto «como se todos soubessem o que há a fazer, mas ninguém soubesse como.»

«Ontem assistimos a mais um episódio revelador, pela voz de Avelino de Jesus, professor do ISEG que se demitiu em Março de 2011 da "comissão de reavaliação das parcerias público-privadas". Criada na vigência do governo Sócrates, a bendita comissão serviu apenas para empurrar com a barriga qualquer esclarecimento sobre a forma como o Estado negociou as parcerias com os privados. Jesus, que bateu com a porta antes das eleições, disse à Comissão de Obras Públicas que a "negação de informação" decorreu da necessidade de se encobrir alguns "arranjinhos". Ficámos a saber, por exemplo, que os documentos iam sendo entregues a conta-gotas, com má vontade, pelo Governo. Ou que a comissão chegou até a receber um CD vazio, sem qualquer informação.»
True, This! —
Beneath the rule of men entirely great,
The pen is mightier than the sword. Behold
The arch-enchanters wand! — itself a nothing! —
But taking sorcery from the master-hand
To paralyse the Cæsars, and to strike
The loud earth breathless! — Take away the sword —
States can be saved without it!
Edward Bulwer-Lytton, 1839
Passou por Harvard. Vai já passar em Junho em Nova Iorque, no Anthology Film Arquives, e em Julho em Los Angeles. Mais boas notícias para o cinema português. Joaquim Sapinho tem em talento o que a muitos sobra em tagarelice de capelista.
Numa entrevista em directo na antena1, pelas oito da manhã, a actriz Rita Blanco manifestava em Cannes a sua alegria por ter participado no filme que ganhou a Palma de Ouro do Festival. O seu papel é o de uma porteira portuguesa e aparece em três cenas. O realizador fez questão em que fosse a Rita e não, por exemplo, uma espanhola a entrar na película. É mais uma boa notícia para o cinema português que, para usar uma expressão da actriz na entrevista noutro contexto, não precisa "andar de calças na mão" para ser reconhecido.

Chega logo à noite ao fim, em Portugal, no canal Fox, a série House. Fico mais pobre. House (Hugh Laurie) instituiu-se no melhor mau feitio metafórico jamais visto em televisão. É a prova que, verdadeiramente maus, são os bonzinhos. Rimbaud, "pai" espiritual desta merda toda, tinha razão. Par délicatesse, j'ai perdu ma vie. House não.