«SABER PERSISTIR»

«A actual fórmula governativa abre ao Governo uma perspectiva temporal alargada, que permite um trabalho responsável, sem atender a pressões eleitoralistas ou à agitação dos demagogos. Temos de evitar a política do chamado «stop and go», programar a médio prazo a acção governativa e acompanhar a política conjuntural de emergência de uma política de reformas ousada que lance as bases de um crescimento económico. (...) Só numa tal perspectiva têm sentido os sacrifícios pedidos à população - que aliás foram compreendidos e aceites, dado o bom senso inato do povo português - porque só assim criaremos as condições de um futuro melhor. (...) Há que fazer um grande esforço de explicação da política económica do Governo, das medidas tomadas e a tomar, por forma a ganhar a confiança de trabalhadores e empresários. Há a preocupação, por outro lado, de reduzir o tempo que medeia entre o anúncio das medidas e a sua efectivação. As obstruções do aparelho de Estado e a burocracia que, como se diz, «cria dificuldades para vender facilidades», têm de ser afastadas mediante um grande trabalho de moralização, dignificação e dinamização dos serviços públicos. (...) O principal para que o Governo tenha êxito é saber persistir. Ter a coragem de não mudar de rumo, independentemente dos acidentes de percurso. Recomeçar, pacientemente, quantas vezes forem necessárias. Tomar decisões. Não se deixar perturbar por agressões verbais, por incompreensões ou por injustiças. Aguentar de pé. Para os homens de convicção e de recta consciência, o que conta é sempre - e só - o futuro.»
Mário Soares, Primeiro-Ministro, 15 de Maio de 1984 (in A Árvore e a Floresta, Perspectivas & Realidades, 1984)








