Sexta-feira, 31.08.07

FÁTIMA LOW COST


Vasco Pulido Valente - ainda não foi descoberto outro mais estimulante - é ateu. E está preocupado com a hipótese de o Vaticano, de mãos dadas com o governo português, criar um trajecto de voos "low cost" entre Fátima e o dito Vaticano, à semelhança do que parece que já acontece, ou vai acontecer, com Lourdes. Daí o perigo de alguém se lembrar de mais um aeroporto para "servir" Fátima, algo que muito legitimamente não deve ser exigido à cidadania. Não há nada a opor a isto. Segundo VPV, tivessem os pastorinhos nascido em Bragança e Fátima nunca teria acontecido. As circunstâncias ocorrentes, como diria Salazar, propiciaram Fátima. A República, a guerra e a localidade do Entroncamento para os comboios, foram determinantes no "fenómeno". Todavia, em nenhum momento do seu texto, VPV fala da fé. Não a dele, naturalmente, que é nula. Mas na fé que tem levado, ao longo dos anos, milhares de peregrinos àquele vale, entre burgessos e gente perfeitamente esclarecida. Mesmo que passasse pela vaticanal cabeça um "sistema" idêntico ao de Lourdes, já lá está a base aérea de Monte Real para tratar disso. Aliás, foi aí que aterrou, em Maio de 1967, o Papa Paulo VI quando visitou o Santuário. Não precisou vir a Lisboa para nada. Sem querer, VPV acabou por dar voz a uma boa ideia. Se a fé move montanhas, por que é que não há-de mover aviões?
Quinta-feira, 30.08.07

DALILA, CAVACO E MENDES OU A FÁBULA DO GATO E DO RATO

José Pacheco Pereira colocou-se ao lado dos dois comissários ex-PC que o PS instalou na Ajuda, contra Mendes e Cavaco, por causa de Dalila Rodrigues, a directora corrida do MNAA. Acusou-a de falta de lealdade e de, no fundo, ser pouco institucional e isenta. Os outros dois também, já que não deviam apaparicar uma despeitada e desrespeitadora da hierarquia. Vasco Pulido Valente tinha exibido a mesma opinião, ou seja, que os altos funcionários do Estado são meros servos acéfalos de Napoleão que comem, calam, se demitem ou são demitidos. Não estão lá para ter pensamento próprio ou exigir o que quer que seja. Inserem-se numa respeitosa hierarquia que deve ser preservada a bem do conceito abstracto de nação que, até prova em contrário, se presume representado pelo governo. Muito bem. Dalila tem ar de "tia" e bom aspecto, e isso paga-se no meio da cultura no qual é suposto as mulheres aparentarem, no mínimo, um ar de camionistas envergonhadas, usar calças ou túnicas até aos pés calçados com sabrinas. Dalida foi excessiva nas críticas à académica Pires de Lima e, em Portugal, não se deve criticar os académicos. Aliás, a professora, como lhe competia, nunca se dignou responder. Respondeu demitindo previamente e com apenas um mês de antecedência. Até na saloia manifestação napoleónica, Pires de Lima não conseguiu cumprir a lei nem a antecedência requerida para o dejecto. Nestas coisas, e ao contrário de JPP e de VPV, sou pouco ou nada institucional. Dalila foi apanhada no meio de um episódio político e respondeu politicamente. Foi tosca? Se calhar foi. E Cavaco e Mendes também responderam politicamente. Não foi um famoso dirigente chinês que afirmou ser-lhe indiferente a cor do gato desde que apanhasse o rato? Nunca fui maoísta mas julgo que o respectivo cálice deve ser bebido até ao fim.

Adenda: Este post do Pedro Picoito. De facto, qual é a diferença entre o líder da oposição ir visitar o MNAA ou um hospital e ser acompanhado pela respectiva direcção? Os museus são do governo ou são nacionais? Pelo menos no museu não lhe foi negada a entrada como num hospital do SNS não sei onde em que a diligente administração não quis desagradar a quem lá a enfiou.

RETRATO DE UM MERDOSO

José Miguel Júdice começou na extrema-direita. Até esteve preso no PREC por causa disso. Não aprendeu nada. Já vai no PS e só pensa, muito legitimamente, nos seus negócios. É um homem de cálculo dissimulado num homem de "afectos". Ao falar dos portugueses nesta entrevista - uns "merdosos" - está a falar de si. Deixei intelectualmente de o conhecer.

Adenda: A propósito, esta iniciativa do Diário Económico pela mão de António José Teixeira (uma série de entrevistas com gente do regime e de fora) foi a coisa mais estimulante que apareceu nos jornais durante este verão esquecível. Nem os melhores "cronistas" se safaram do lugar-comum e do enfado.

EMBOTAMENTO



«Não podemos deixar de considerar a nossa actualidade, de um ponto de vista subjectivo, como uma situação única de embotamento: a vulgaridade no campo social, a neo-escolástica na teoria, o embrutecimento nos media, o ressentimento entre os mais velhos, a ambição agressiva e por vezes maldosa dos mais jovens... em suma, uma época carente de espírito. Entre os raros que ainda velam o fogo, a maioria isola-se nos seus túneis. Provavelmente, o menos que podemos dizer desta situação é, sem dúvida, que não se trata de uma época favorável às grandes sínteses.»

Peter Sloterdijck, O Sol e a Morte, Relógio D'Água, 2007

ENQUANTO HOUVER

Aqui e aqui, José Medeiros Ferreira - alguém com quem gostaria de me voltar a "aliar" - responde a esta sugestão. JMF tem alguma experiência na matéria (criações partidárias a partir de Belém) embora - e talvez tivesse sido esse o erro fundador e vício na formação do acto - seja sempre preferível um lance institucional a partir da magistratura presidencial ("à francesa") do que mais uma inscrição anódina no Tribunal Constitucional. E três notas concordantes. "Fora as medidas impopulares de carácter financeiro a maioria absoluta está cada vez mais vigiada «a partir de Belém». Há "sinais de afunilamento do actual quadro partidário" e, last but not the least, "só este governo aguenta o sistema". Isto tudo, claro, "enquanto houver regimes de partidos". Este, em particular.
João Gonçalves | link do post | comentar

VIAGENS NA MINHA TERRA


Sócrates foi a Leiria e reinaugurou-se a si mesmo enquanto não há mais computadores para distribuir. Uma amiga de lá enviou-me este mail que faz o post. "Olá João. Hoje houve festa cá na terra. O PM veio inaugurar as obras do Polis. Como dizia o meu miúdo, devia ter vindo há 5 ou 6 meses porque aquilo já está em uso há mais ou menos esse tempo. Até já há algumas obras a precisar de reparação. Pelo menos, e como sempre (país provinciano) lá foram limpar as ruas por onde o senhor ia passar, cuidar das rotundas e das flores dos separadores... a coisa ficou mais linda. Estas pessoas deviam vir à província mais algumas vezes... Não que Lisboa, por onde mais se passeiam, esteja melhor, mas aqui na terra estas coisas notam-se." E Sócrates, nota alguma coisa?
Terça-feira, 28.08.07

SUGESTÃO


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O MAI

Rui Pereira, o MAI que sucedeu ao edil lisboeta, é um erro de casting. Pereira foi sempre um arcadiano do direito e, quando fala como ministro, esquece-se que o cargo é político e exprime-se como professor. "Atira" com as competências e as atribuições das polícias para cima dos jornalistas como se estivesse num auditório da FDL. Há dias, com Mário Crespo, a propósito da invasão do milheiral, foi desastroso. Pereira tinha nove anos de Tribunal Constitucional pela frente e trocou isso por esta funesta sinecura ministerial. Antes já tinha presidido, sem rasgo, à comissão para a reforma penal. Sem talento, sem verve e, sobretudo, sem política, Rui Pereira junta-se aos seus infelizes colegas da economia, das obras e da cultura, apenas para dar alguns exemplos. Não é mau homem, mas não chega. Que magnífica aquisição para a presidência europeia.

ABCESSO

Como andarão as "ameaças" a esta grande figura do regime, Francisco? Não a deixes cair. Ela, evidentemente, não se deixa. É vê-la reclamar eleições - para ela, claro - para a "distrital" de Lisboa do PSD para varrer a Teixeira da Cruz. Helena Lopes da Costa, deputada, é apenas um daqueles muitos nomes responsáveis pelo descrédito a que isto chegou. A sua passagem pela vereação da CML, com o infindável cortejo de assessores para tudo e para nada, é inesquecível. Não é subtil a exibir a sua pequenina ambição. Há quem a ajude, a ela e a muitos como ela, a ter uma biografia e um "currículo" político. Agora está com Menezes como já esteve com quem calhou, nomeadamente Lopes que a promoveu a vice-presidente do então maior partido nacional. Não sei se Marques Mendes tem rasgo suficiente - como teve Sá Carneiro - para varrer esta gente da face do partido. Este PSD paroquial e medíocre não pode durar muito mais tempo. Precisa urgentemente de uma ditadura que o salve da pocilga.
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UM REGIME RAPACE

O Tribunal Constitucional condenou os partidos ao pagamento de coimas em virtude das suas crónicas "más contas", neste caso, por causa das legislativas de 2005. Antes veio a lume a questão Somague/PSD e, antes desta, a questão PS/empresário brasileiro/círculo fora da Europa. Não vamos mais longe. Quando Soares era 1º ministro, foi devidamente autorizada a alarvidade da urbanização do Baixo Mondego. O PS mandava e o gesto betoneiro não foi inocente nem resultou de nenhum almoço de borla. Anos depois, numa presidência aberta sobre o ambiente, o mesmo Soares classificou o acto como uma calamidade. Alguém lhe chamou a atenção para a circunstância de ter sido ele, como chefe do governo, quem havia autorizado a dita calamidade. Soares, naturalmente, não se desmanchou e disse estar a fazer "auto-crítica". A plutocracia regimental é rapace e não pára em nenhum partido em especial. E só terá fim se alguém, um dia, lho puser.

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