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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU
Não nutro nenhuma espécie de simpatia pelo chamado "espírito de natal". Não sei o que isso é e, se me apetecer pensar em Cristo, não preciso de um dia específico para o fazer. Julgo, até, que Cristo se ofenderia com o "festim nu" que, a pretexto da discutível data do seu nascimento, conduz meio mundo pelos labirintos dos centros comerciais num insano frenesim consumista sem sentido algum. Por outro lado, trata-se de uma época utilizada em larga escala para arejar a consabida hipocrisia humana. Pessoas que se detestam ou que se ignoram cordialmente durante o ano inteiro, trocam mensagens e presentes como se fossem cúmplices e "amigas". Criaturas especializadas em espetar facadas nas costas dos outros, durante uns dias elevam-se a uma insuspeita beatitude. Para além disto, enfarda-se e engorda-se à conta de incontáveis almoços e jantares de natal. Toda esta pantomina me provoca azia e asco. Às ceias idiotas com bacalhau, prefiro "A vida de Brian" dos velhos Monty Python. Eu bem me esforço por seguir aquela melodia do filme, "always look at the bright side of life". Porém, esta época de boazinhas esforçadas só me lembra o livro de Henry Miller sobre Rimbaud, O Tempo dos Assassinos. É apenas uma ideia para um "cartão" de Boas Festas.

O medo, o medo com a cabeça de hidra, que é generalizado em todos nós, é uma ressaca das formas inferiores de vida. Estamos divididos entre dois mundos, um, aquele de que emergimos, e o outro, aquele em direcção ao qual caminhamos. Este é o sentido mais profundo da palavra "humano": somos um elo, uma ponte, uma promessa. É em nós que o processo da vida está a ser levado a efeito. Temos uma tremenda responsabilidade, e é a gravidade disso que desperta o nosso medo. Sabemos que se não formos em frente, se não realizarmos o nosso ser potencial, recairemos, nos apagaremos, e arrastaremos o mundo connosco na queda. Levamos o Céu e o Inferno dentro de nós e toda a Criação está ao nosso alcance. Para alguns são perspectivas aterrorizantes. Mas desejariamos que fosse diferente? Seriamos capazes de inventar um drama melhor? (...) Se fores capaz de ser um verme, serás também capaz de ser um deus.

MAIS LIVROS

João Gonçalves 24 Dez 05


A Penguin decidiu comemorar os seus honoráveis 70 anos com a publicação de cerca de setenta "pocket Penguins" que junta muitos dos autores divulgados pela editora, numa versão "pequenina" e acessível de extractos dessas obras. Desde o "vulgar" Nick Hornby a Homero, passando por Camus, Borges, Anaïs Nin, Flaubert, Simon Schama, Orwell, Freud, Nabokov, Updike, Chomsky, Ian Kershaw, Márquez, Levi, Graves, Capote, David Lodge, Chekhov, Evelyn Waugh ou Steinbeck, vale a pena espreitar a oferta. Segundo um amigo que me ofereceu dois deles, parece que, pelo menos em Lisboa, só a Almedina do Saldanha os vendia.

O "RESPEITINHO"

João Gonçalves 24 Dez 05

Na crónica de hoje no Público (sem ligação), Vasco Pulido Valente vem chamar a atenção para a questão da "liberdade" vs. "respeitinho" na nossa história política contemporânea, a propósito da "indignação" que terá suscitado a "postura" de Mário Soares no recente debate com Cavaco Silva. Pulido Valente acha, aliás com inteira razão, que somos em demasia um país vergado aos "salamaleques" e aos "srs. drs." e que, no essencial, lidamos mal com a liberdade. Disse-se sempre, e com alguma sustentação, que Soares possui uma visão "dessacralizada" do poder. É verdade, mas é apenas uma parte da verdade. Soares, conforme lhe dá jeito, tanto pode comportar-se como um déspota monarco-republicano, iluminado por Jaurès ou Afonso Costa, ou como um político "moderno" e democrata, "afectivo" e de "proximidade", como agora se diz. Soares até podia ter feito o pino diante de Cavaco que ninguém levaria a mal. Como bem lembrou Miguel Sousa Tavares no Independente, Soares "é o único que se permite cuspir para o lenço em público ou mastigar pastilhas". Acontece que, como deve saber Pulido Valente, não é do "respeitinho" ou da "liberdade" que se tratou naquele debate. Soares precisava de diminuir a todo o custo Cavaco Silva, fosse com "boa" ou com "má" educação. E de dar a entender que o simples facto de Cavaco ser candidato à presidência da República já constituia, em si mesmo, um acto, para ele, incompreensível. Pulido Valente, que tanto critica a concepção "proprietária" e jacobina que Soares tem da democracia, no fundo, entende que ele deve continuar a comportar-se como o "dono" mimado dessa mesma democracia. Mesmo quando lança insinuações pequeninas sobre o comportamento de Cavaco nos Conselhos Europeus, tipo "eu sei mas não digo", mais adequadas a quem toma conta de condomínios fechados do que próprias de quem já foi chefe de Estado. Eu sou contra o "respeitinho" hipócrita e a favor, em quaisquer circunstâncias, da liberdade. Mas nem eu, nem Pulido Valente, somos candidatos à presidência da República.

CONTINHAS - 2

João Gonçalves 24 Dez 05


O que as sondagens sobretudo mostram é que a vitória de Cavaco Silva não cai do céu, nem sequer das ditas sondagens. Aliás, a sua divulgação em catadupa, com algumas disparidades entre elas e com "metodologias" discutíveis, não é inocente. É o caso da última, a da "SIC" (Eurosondagem), que é titulada com uma enganadora "vitória à primeira garantida". Lida a "ficha técnica", percebe-se, pela margem de erro de cerca de 3%, que não é nada assim. Já a do "Correio da Manhã" (Aximage) - "Cavaco intocável vale cinco Soares" - peca pelo excesso. A pergunta que deve ser feita, nesta matéria, é muito simples. Quem é que beneficia mais com sondagens deste género, pseudo-deprimentes ou pseudo-generosas, consoante a perspectiva? Cavaco Silva partiu, mesmo antes de partir, muito confortado pelos números elevados. A exposição em campanha e os debates obrigaram, naturalmente, a alguma "descida à terra" e nos números, algo que não abalou nada de fundamental para os seus objectivos. Porém, revelam ambos - "a descida à terra" e os números - que a campanha que se vai seguir no "terreno" vai ser determinante para conquistar os indecisos, os abstencionistas e os "moles". Para Soares, pelo contrário, cada dia que passa precisa de uma pequena vitória, já que o "problema" destas eleições chama-se "eleitorado socialista", dividido por ele, Alegre e Cavaco. Os números mostram que Soares tem conseguido essas pequenas vitórias - é ele e não Cavaco, de facto, o verdadeiro beneficiado, por exemplo, com a sondagem da SIC/Eurosondagem - que, no entanto, sabem a pouco e, por enquanto, nem sequer chegam a metade do que Sócrates conseguiu em Fevereiro. À medida que o "balão" de Soares incha, os votos de Alegre diminuem e julgo que isso será, com o tempo, uma inevitabilidade. Jerónimo e Louçã - por esta ordem - farão a despesa dos votos dos seus fiéis e, no caso da matemática acabar por contar muito nesta equação, as migalhas que sobram para as pequeníssimas candidaturas, também. Em suma, do "drama" do "eleitorado socialista" - que é uma parte, apenas, dos que votaram no PS nas última legislativas - depende a resolução desta equação e, quiçá, a tão desejada "segunda volta".

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