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portugal dos pequeninos

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UM MAIS QUATRO

João Gonçalves 4 Dez 05

Ler no DN, Sondagens, Fantasias e Debates, por Diogo Pires Aurélio. É verdade. Começam amanhã os famosos debates televisivos por que tanta gente suspira. São a oportunidade única de os outros candidatos "conversarem" com a candidatura "declarativa" de Cavaco Silva. E é a oportunidade deste para sedimentar a convicção e a vontade de vir a ser o próximo Chefe de Estado. Em todos os dez debates, Cavaco será inevitavelmente a presença mais discutida, mesmo naqueles em que não estiver fisicamente presente. Não sendo reconhecidamente um terreno que lhe é favorável, estes debates podem, no entanto, reforçar a posição de Cavaco Silva em vez de a diminuir. Por três razões fundamentais. Em primeiro lugar, porque os outros quatro candidatos estão unidos por um mesmo propósito "negativo" que consiste em evitar a sua vitória, a 22 de Janeiro, e não tanto porque algum deles aspire verdadeiramente em chegar à presidência. Em segundo lugar, enquanto dois deles - Soares e Alegre - disputam o lugar numa eventual segunda volta, os outros dois apenas visam consolidar os respectivos "territórios", sobretudo à custa de "bater" em Sócrates e em Cavaco. Em terceiro lugar, e ao arrepio do discurso tagarela que será feito em todos os debates, com método e persistência contra ele, Cavaco deverá deixar nos espectadores - com serenidade, coragem e sem temores reverenciais -, a certeza da sua crediblidade e autoridade democráticas para o exercício do cargo de PR, afastando quaisquer fantasmas patetas de alegados "providencialismos", "autoritarismos" ou "governamentalismos". Finalmente, penso que os debates servirão para demonstrar, de uma vez por todas, de que lado está a arrogância e a sobranceria quando os dedos acusatórios dos quatro candidatos das "esquerdas" se virarem inevitavelmente para um Cavaco a quem é consensualmente atribuído um estatuto "pré-presidencial". É daí que Cavaco, ao contrário dos outros quatro, não pode descer.

UM PRÍNCIPE

João Gonçalves 4 Dez 05


Era quinta-feira e fazia um frio de rachar. A terrível campanha presidencial que opunha Eanes a Soares Carneiro aproximava-se de um fim que, nessa noite, se revelou definitivo e dramático. A 4 de Dezembro de 1980 aconteceu algo de extraordinário que fez da vitória de Eanes, três dias depois, uma melancólica glória. Um lance do destino ou uma outra qualquer mão invisível, fez com que, em trágicos segundos, desaparecessem, entre outras pessoas, o então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, e o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, uma das mais brilhantes cabeças da direita democrática portuguesa. Francisco Sá Carneiro protagonizou a primeira experiência de governação do centro-direita após o 25 de Abril, apenas cinco anos depois da "revolução". A constituição da Aliança Democrática foi um "achado" político através do qual a "direita democrática" se inseriu definitivamente no "sistema", em acordo com os "reformadores" de centro-esquerda de António Barreto, Medeiros Ferreira e Sousa Tavares. O desaparecimento de Sá Carneiro e a posterior irrelevância de Balsemão, obrigaram a ter de esperar mais uns anos para poder "mudar" a Constituição, primeiro com Soares e, depois, com Constâncio e Cavaco, e, finalmente com este, para se "rever" a economia "revolucionária" e alterar os "equipamentos sociais", em maioria e sem alianças. Quer Sá Carneiro, quer Cavaco Silva, ambos genuínos sociais-democratas, apesar das diferentes "histórias" respectivas, nunca perderam de vista a chamada "dimensão social" da política. Sá Carneiro juntava a isso o lado "lúdico", sem o qual, dizia, a política não valia a pena. Impôs ao "politicamente correcto" da altura - no qual se destacou o casal Soares que, em tempos de antena da então FRS, não se cansou de evocar oportunisticamente o papel da "família" - a sua relação com Snu Abecassis, paixão essa tragicamente imolada no fogo de Camarate. Os ataques hipócritas que sofreram, em campanha e fora dela, foram recordados no documentário apresentado por Cândida Pinto na SIC, no que foi um excelente serviço prestado à memória. O chamado "sá-carneirismo" tem assumido diversas formas ao longo destes anos. A maior parte dos que se reclamam dessa "orfandade" faria seguramente rir Francisco Sá Carneiro. Sá Carneiro tinha pressa e era um político de rupturas. Nesse sentido, era um homem em perigo. Terá sido um dos últimos príncipes românticos da política portuguesa no século XX.

DESTE LADO

João Gonçalves 4 Dez 05

"Reconheço que vim incomodar sua excelência [Cavaco Silva] no passeio triunfal para a Presidência da República". Com esta frase singular, alguém que ocupou, com prestígio e sentido de Estado- pelo menos durante o primeiro mandato - o cargo de PR, desfez quaisquer veleidades de que alimenta um projecto sério para o país. Nos intervalos em que não está a falar para si próprio, Mário Soares entusiasma-se e mostra ao que vem. É uma sombra infeliz do candidato galvanizador e moderado de 1986. No seu estonteante radicalismo, Soares entrou na fase de atirar qualquer barro à parede para ver se cola. Parece, "pela finura da artilharia", como se escreve no Minha Rica Casinha, o Santana Lopes desta campanha. Gritou para dentro dos apoios partidários de Cavaco para ver se alguém lhe prestava atenção e se, comovido ou indignado, se "revoltava" contra a independência da candidatura, coisa bem diferente de o candidato ser neutro, asséptico ou um "recurso" difícil de explicar. Acontece que, deste lado, parece que toda a gente sabe o que quer, sem dramas caseiros ou angústias protagonistas. Cavaco não precisa de andar todos os dias, numa roda viva, a tentar "unir" a "família" ou a ter de dizer mal de parte dela para que a "base" não lhe fuja. Deste lado, as questões psicanalíticas estão, graças a Deus, muito bem resolvidas. Todos querem ajudar Cavaco a ser o próximo presidente de todos os portugueses e não um mero cata-vento partidário.

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