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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

INTIMAÇÕES

João Gonçalves 20 Nov 05

Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o génio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros. Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles. Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e bovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.

Giovanni Papini, Relatório Sobre os Homens, Livros do Brasil

O SEXO E A CIDADE

João Gonçalves 20 Nov 05

Corre pela blogosfera -alguma- um pequeno "debate" em torno da sexualidade. O pretexto aparente é o "caso" das meninas amantes de Gaia. Sobre esta matéria, a sexualidade, recomenda-se recato. "Não te metas na vida alheia se não quiseres lá ficar", é uma excelente metáfora literária, inventada por Almada Negreiros em "Nome de Guerra" para "fechar" a discussão. Pasolini, por exemplo, dizia que havia apenas "uma" sexualidade cuja manifestação prática se podia traduzir em hetero, homo ou bissexualidade. E Gore Vidal passa a vida a explicar que não existe propriamente heterossexualidade ou homossexualidade, mas antes actos hetero ou homossexuais, eventualmente, até, praticados pela mesma pessoa. A apetência por mulheres, por homens ou por ambos resolve-se normalmente entre quatro paredes. Incomoda-me tanto a exibição pública da "homossexualidade" como da "heterossexualidade". Sou contra quaisquer associativismos segregadores, sejam eles adeptos histéricos da velha Shirley Bassey ou da associação das famílias numerosas. Desconfio, por igual, das "paradas" com manifestantes vestidos de branco e com muitas criancinhas pela mão, como dos desfiles "religiosos" das "drag-queens" do Barreiro. Dito isto, acho que ninguém - homem ou mulher, adolescente ou púbere - pode ser aborrecido por causa do uso, unívoco ou múltiplo, que entende dar aos respectivos órgãos sexuais, aí compreendendo a boca e as mãozinhas, dentro de portas que até podem ser as de um automóvel. Em suma, nesta, como noutras matérias, devemos seguir o conselho de Menandro: "nada te aconteceu de facto enquanto não te importares muito com o ocorrido".

Adenda: Ler os excelentes e últimos posts de Henrique Raposo, em O Acidental, em torno da "questão".

LER...

João Gonçalves 20 Nov 05

...este post de Paulo Gorjão.

ARISTOCRATAS

João Gonçalves 20 Nov 05

1. Na sua prosa entre o sibilino e o académico - provavelmente uma característica forte dos políticos açorianos -, Mário Mesquita "analisa" no Público (sem link), apesar de advertir que não tem "competência para (se) aventurar em análises psicológicas", "o sorriso amarelo de Cavaco". O ilustre membro da comissão política da candidatura de Mário Soares desenvolve uma "tese" muito simples. O sorriso "contrafeito" ou "amarelo" de Cavaco - ou, naquilo a que, "na crueza anglo-saxónica", Mesquita apelida mais impressivamente de "sorriso-come-merda", "eat shit smile" - explicar-se-ia pela notória aversão do candidato aos "mecanismos" da democracia, a saber, a opinião pública, a opinião que se publica e as campanhas eleitorais com o seu cortejo de "debates" e de multidões expectantes. Apesar de "ir à frente", Cavaco "parece tão infeliz" porque - e é isto que, no fundo, Mesquita quer dizer - não tem "pedigree" democrático.
2. Dito por outras palavras, Cavaco não é um "aristocrata" da democracia, como escreve, na última página do mesmo Público, Vasco Pulido Valente, num acesso ternurento para com o "velho leão". E vai mais longe. "É bom que exista" Soares por causa da putativa entrega da República a um "autoritário vazio" (sic).
3. Esta adjectivação, sobretudo por vir de quem vem, demonstra (e VPV, especialmente, não se cansa de o fazer três vezes por semana) que estes trinta anos de democracia "capturaram" meia dúzia de lugares-comuns e de "personalidades" representativas desses lugares-comuns, o que faz com que Cavaco, por exemplo, apesar de ter sido primeiro-ministro maioritário durante dez anos, seja visto como um "estranho" a esse pequeno-grande "mundo" da democracia "consensualizada", aquilo a que, depreciativamente mas com razão, VPV tem chamado de "regime". Cavaco, não sendo nem um jacobino, nem um "burguês" e, muito menos, um homem "culto" aos olhos da "teoria comunicacional" vulgarizada, será sempre um fracasso mesmo (e sobretudo) enquanto ganhador. Pelo contrário, Soares conseguirá emergir dos escombros da sua "melancólica campanha", que "lhe corre mal e não se endireita" (VPV), como um símbolo a preservar, tipo jarrão Ming da democracia e da república.
4. VPV acaba por reconhecer que Soares vem a estas eleições representar um "mundo que nós perdemos", para utilizar o título de um historiador inglês. E curva-se respeitosamente perante esse exercício ("é bom que ele exista"). Nada disto, por muito comovente que seja, explica politicamente a "necessidade" da sua candidatura. Reduzi-lo a uma função ornamental democrática, a crer na prosa destes dois ilustres cronistas, é pouco para Soares. É por isso que ele vagueia, nesta campanha, à sombra do "plebeu" que, mesmo com um sorriso "come merda" (Mesquita dixit), é o verdadeiro aristocrata destas eleições.

LER

João Gonçalves 20 Nov 05

No Minha Rica Casinha, Alegre Soariza-se. É uma das "tarefas" do "reality show" "quem-consegue-dizer-mais-mal-de-cavaco-silva-até-22-de-janeiro". É compreensível. Alegre tinha partido ligeiramente atrasado no "concurso". Só que, à medida que se for "soarizando", Alegre vai perdendo. Entre uma cópia e um original, não se costuma hesitar. E, de Francisco José Viegas, por causa disto, "Ainda os beijos na escola"

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