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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

LER...

João Gonçalves 7 Nov 05

... no Origem das Espécies, "A ausência de República".

UMA PERGUNTA....

João Gonçalves 7 Nov 05

... do Paulo Pinto Mascarenhas: "será que o candidato oficial do PS mantém a ideia que o diálogo é a melhor forma de responder a este tipo de terrorismo urbano - ou, pelo contrário, está solidário com a posição do Governo de José Sócrates e apoia a "determinação" das autoridades francesas para acabar com a violência?"

A INTEGRAÇÃO SEGUNDO SAMPAIO

João Gonçalves 7 Nov 05

O dr. Jorge Sampaio quis dar o seu contributo para a gramática dos incidentes em França. Com aquele extraordinário sentido de oportunidade em que procura elevar-se da sua habitual irrelevância, sugeriu que "temos que defender aquilo que é a capacidade de integração, de conviver com o outro, de termos as minorias que se possam exprimir da forma que queiram". "Isso faz parte do nosso país, da nossa cultura", acrescentou. Nada de mais errado. Sampaio, formado nos compêndios da "rive gauche", não podia deixar de lado o jargão "integracionista" do "multiculturalismo" que, como se vê, tem dado excelentes resultados. Querer à força "integrar" o que não é "integrável" ou, mais simplesmente, não se deixa "integrar" porque não quer, é meio caminho andado para o desastre. O mesmo se diga da eterna miragem do "diálogo de culturas". Se há coisa que "dialoga" pouco entre si é a "cultura", como bem explicou o José Pacheco Pereira num texto dos finais dos anos noventa, chamado "A solidão das culturas". E o que "faz parte do nosso país, da nossa cultura", ao contrário do que diz Sampaio, é a pura ausência de um sentido cosmopolita da existência e a uma secular ignorância do "outro". Vá lá a França falar de "integração" e vai ver o que lhe acontece.

O "OUVIDOR"

João Gonçalves 7 Nov 05

Passei há pouco pelo primeiro cartaz da campanha do dr. Mário Soares. Nele, Soares aparece aparententemente "porque sabe ouvir os portugueses". Virá outro a seguir onde ele também aparece "porque sabe unir os portugueses". E parece que se prepara um terceiro com outro verbo parecido, entre o "ouvir" e o "unir". Esta terminologia não deixa de ser curiosa quando aplicada especificamente ao candidato. Se existe coisa que o dr. Mário Soares suporta pouco, é ter de "ouvir" os outros. Maça-o enormemente, a não ser que seja um assunto que lhe interesse ou uma picardia que lhe convém. Aliás, Soares é mestre em "fingir" que está a prestar atenção aos seus interlocutores. Normalmente não lhe interessa nada o que os outros lhe estão a dizer. Desde sempre que Soares sempre foi conhecido - ele mesmo o confirma - por gostar de "levar a água ao seu moínho". Salvo mais recentemente, quando as suas contradições a propósito da justificação da recandidatura se tornaram mais incómodas, é que ele se viu forçado a "explicar-se" e, portanto, a "ouvir", e mesmo assim, mal. Quanto ao "unir", deve ler-se apenas como "somar os votos das esquerdas" ou "desistam para mim". Nada que tenha a ver, em geral, com os portugueses.

LER...

João Gonçalves 7 Nov 05

...no Margens de Erro, "La Malaise Française", vários.

UM RETRATO...

João Gonçalves 7 Nov 05

... de um país feito a partir de uma cidade - Lisboa -, por Eduardo Pitta:

Lugar-comum: a classe política é medíocre. De facto. Mais do que reflectir a mediocridade geral, o elenco de candidatos presidenciais (em que pese a minha simpatia por Soares e, por exclusão de partes, o voto correlato) traduz o huis clos da sociedade portuguesa. Se a sociedade é o que sabemos, porque carga de água teríamos outra classe política? Duas horas na rua, ao domingo, em Lisboa — e não estou a falar da Baixa, porque já ninguém vai à Baixa; nem das periferias étnicas, que são outra coisa; nem sequer do cenário de cartão do Parque das Nações —, na cidade burguesa que sobrou, e hoje é quase nada — a quadrícula das Avenidas Novas que vai da Versailles a Entrecampos, umas ruas na Lapa e em Campo de Ourique, o anel do Príncipe Real, o Chiado que vai da Bertrand a São Carlos, adjacências da Praça de Londres e Avenida de Roma, decerto Alvalade e São Miguel —, duas horas neste microcosmo chegam e sobram para deprimir. O confronto com cidades europeias — não, não estou a pensar em Londres, Berlim ou Paris; mas em Madrid, Bruxelas ou Praga — é um exercício desencorajante. Um terço da cidade está a ruir. Oitocentos mil carros atravessam, todos os dias, o centro. As livrarias não têm fundos. Em toda a cidade, um único café digno do nome. Um. Em anos felizes, a temporada de ópera são doze dias: quatro programas, três sessões cada (regra geral, menos). Música clássica, a que a Gulbenkian se lembra de dar, em regra boa, mas pouca, e sempre para os mesmos, porque a coisa funciona em circuito restrito. Jazz, foi chão de antiquíssimas uvas. Teatro de repertório? Acabou em 1974. Do outro, vai havendo, mas os Artistas Unidos e a Cornucópia são ilhas para happy few. Estamos a falar de uma área metropolitana com 2,8 milhões de pessoas; tudo o que seja menos de 20 teatros, a sério, abertos todos os dias, é nada. Música pop, entre o foleiro e o standard MTV. Ciclos anuais de cinema (documental, gay & lésbico, francês, etc.) para as trezentas pessoas do costume, quase sempre com horários que não contam com as pessoas «comuns». Entre Outubro e Maio, cinco lançamentos de livros por dia. Ninguém vai. Dança? Raramente dou por ela. Pintura? Era bom. De fora não vem nada e não é preciso explicar porquê. Quanto ao mercado indígena, simplesmente parou. O boom dos anos 1980 era artificial mas marcou uma época. Tirando Cabrita Reis e Croft, ninguém se lembra dos vinte génios que o Alexandre Melo descobriu nessa altura (Sarmento não precisou de ser «descoberto»). A larga maioria das bancas de jornais fecha aos domingos e feriados. Não se pode andar a pé porque os passeios estão cheios de carros. Sobra o quê? Espaços à míngua de espectáculos e de público? Museus melancólicos? Um CCB votado a passeio dos tristes? Uma Festa da Música cada vez mais pobrezinha? O rio, que agora se chama «docas», por conta do negócio de secos & molhados? Noutro patamar de exigência há meia dúzia de restaurantes tão caros como os de Paris ou Nova Iorque. Felizmente temos a luz, em Lisboa deveras sublime. O pior é a porcaria assim iluminada. Único elo que nos liga ao mundo: as salas de cinema. Dizem-me que «a noite» tem movida. Terá. As vezes que fui «aos» sítios que estão a dar, tudo me pareceu sem o mínimo pique e, convenhamos, a tender para o ordinarote (quanto mais fashionable mais vulgar). Onde é que eu ia? Pois, Lisboa, domingo, duas horas na rua. Igualzinho ao que era em 1973, por esta altura do ano: um friozinho pindérico, famílias compostas, matriarcas de voz grave, herdeiros muito louros e irreverentes (hoje só no trazerem o cós das calças a meio dos pêlos púbicos), o BMW em contravenção, a pesporrência altissonante do dinheiro. Tal como em 1973, nada produzimos. Belmiro, epítome do «sucesso», é o quê? Um empresário da distribuição. Nada contra. Mas dá a medida da vocação do país. Quatro quintos do pessoal político veio das berças, saltou da carroça para o Porsche, acotovelou, trepou e instalou-se. Ao pé da maioria, Santana, que é o que a gente sabe, passa por príncipe da Renascença (Agustina dixit). Tem de haver um meio-termo entre a rebaldaria dos descamisados e esta macaqueação do antigamente: tédio, discurso, tiques, sinais exteriores de dominação. Afinal, os últimos trinta anos serviram para quê?

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