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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

TUDO EM FAMÍLIA

João Gonçalves 30 Nov 05

O PS, a braços com algum desvario doméstico por causa das presidenciais, decidiu, através da "concelhia" de Lisboa, retirar a confiança política a Carrilho e ao seu número dois na Câmara de Lisboa por aparentemente terem votado qualquer coisa ao lado do PC. Veio depois Miguel Coelho, uma piéce de resistance da dita concelhia dizer que não, que afinal era só o número dois que ficava privado da sua sublime "confiança". Na AR, por causa do Orçamento, o mesmo PS indignou-se (mais uma indignação) contra o deputado faltoso Manuel Alegre o qual, por sua vez, se indignou com a indignação do seu partido. E atirou-lhes as sondagens à cara. Esta trapalhada paroquial não vai acabar bem. E acabará bem pior se, a 22 de Janeiro, o candidato "oficial" aparecer em terceiro lugar, coisa em que, apesar de tudo, não acredito. O que é espantoso no meio de tudo isto é que, ao contrário do que eu julgava, Sócrates deixou-se irritar e pôs-se a falar por causa de Manuel Alegre, alguém cuja irrelevância política não devia ser salientada pelo primeiro-ministro. Se ele o faz e se Soares já berra com o partido, isso significa que começaram a intuir a trapalhada em que se meteram todos por causa das presidenciais. Não tarda nada - e, para isso, convém atentar na entrevista de Soares a Judite de Sousa - o candidato "oficial" desatará a "descolar" do colo do partido, enquanto o partido lho quer manter a todo o custo, fazendo-lhe o favor de "chatear", a torto e a direito, o outro socialista candidato. É útil manter uma prudente distância destas zangas caseiras. E, por outro lado, prestar mais atenção a outras coisas. A avaliar pelo que se lê pelo que se ouve, parece que é isso que o país anda tranquilamente a fazer.

MOMENTO RARO

João Gonçalves 30 Nov 05


Eu teria para aí uns dezasseis anos quando Fernando Pessoa entrou definitivamente na minha vida. Acabara-se a fase dos poetas parnasianos, com Pessanha à cabeça. Nas fotocópias distribuídas pela professora, para ilustrar a nova matéria, figurava o nome de Alberto Caeiro. Teoricamente o mais "simples" dos heterónimos, Caeiro, o "mestre" dos olhos azuis, escondia o resto. Aos poucos, Pessoa chegava pela sua própria voz e, sobretudo, pela do genial e febril "engenheiro de máquinas", Álvaro de Campos. Bernardo Soares viria muito mais tarde. A descoberta de Fernando Pessoa equivale a um murro no estômago. Não é possível, a não ser por pura iliteracia, ficar indiferente ao mínimo verso do homem. Eu digo "homem" com esforço, apesar de sabermos da sua errância por Lisboa, do seu emprego, dos seus "amigos". Na realidade, Pessoa, como tal, pouco existiu, naquele sentido frívolo que costumamos dar ao termo "viver". De certa maneira, não o podia fazer já que apenas "viveu" nesse lugar de abismo e de realidade que era a letra dos seus versos. Já fui mais "pessoano" do que sou hoje. Tive o privilégio de falar pessoalmente, uma tarde inteira na sua casa, com João Gaspar Simões, por ocasião dos cinquenta anos da morte de Pessoa. Li os livros de Prado Coelho, Lind, Eduardo Lourenço e Casais Monteiro. Quis, nessa altura, "perceber". Não sei se alguém o conseguirá alguma vez plenamente. Muitas vezes pego na belissima edição da Aguilar e escolho o acaso de um verso. "Todo o cais é uma saudade de pedra", por exemplo. Como escreveu Eduardo Lourenço em 1952, "muitos homens tiveram saudades e viram cais, mas temos razões para chamar momento raro a esse em que uma consciência de poeta arrancou do mundo das palavras portuguesas esta espécie de inscrição de estela imortal, que depois dele todos temos guardado em algum sítio, todos, os que viajaram e os que só na alma viajam". Em setenta anos, Pessoa permanece como uma espécie de cometa trágico que, do alto da sua inexpugnável solidão, nos ilumina. "Pessoa limitou-se a sentir e a pensar o existente, bem ou mal não interessa, e a compreender que uma consciência está sempre aquém e além de todas as coisas, jamais coincidente com a existência delas. E mesmo com a existência em geral. Fê-lo como nunca ninguém o tinha feito. Nem Antero. Mas com isso o extraordinário poeta do "lado ausente de todas as coisas" não "serviu" ninguém. Serviu a sua inviolável solidão e pediu aos outros que cercassem a deles de altos mutos. Não cremos (Pessoa é muito complexo) que a sua poesia seja alheia a outros gestos igualmente últimos do homem: o apelo da fraternidade, da esperança, do amor. Se assim for, significa que é limitado e nada mais. Há homens (houve sempre e pessoalmente desejamos que a sua raça estéril e altiva nunca mais acabe) que não são capazes de olhar até ao fim o espectáculo do mundo e da história tendo aí a palavra "esperança". Homens do Inferno, se acreditarmos em Dante. Fernando Pessoa talvez tivesse sido um deles. E porque não devia sê-lo?"
1. Leio no Diário de Notícias o texto sobre a apresentação da candidatura de Manuel João Vieira a Belém. Tem graça, tal como o "candidato" tem graça. Também li Joana Amaral Dias, "indignada" com Cavaco e com o ministério da Educação (ME) por causa dos crucifixos. Quanto ao primeiro, a Joana leva a "indignação" ao ponto de ligar a cruz ao Calvário, ou seja, a Cavaco, o qual, à conta de ter proferido duas trivialidades (que o país é maioritariamente católico e que não lhe parece que seja uma prioridade do ME este episódio, coisa que a própria ministra também acha), não tem "perfil" para ser PR.
2. Vamos entrar numa pequena crise de "indignações" generalizadas. Até eu provavelmente vou aderir. O João Morgado Fernandes (JMF) - um jornalista relativamente atípico, na medida em que escreve e pensa bem ( e quem sou eu para o julgar...) - indignou-se comigo. Julgo que o fez duplamente. Por causa de eu ter ido "buscar" uma citação de Rodrigo Moita de Deus (presumo que se deve tratar de um perigoso "reaccionário" das bandas do CDS/PP ou do "neoliberalismo") a propósito das cruzes e, seguramente, por eu ter criticado os "critérios" editoriais do DN em matéria de eleições presidenciais. Pois, meu caro JMF, fi-lo apenas em resposta à "indignação" de Medeiros Ferreira por causa do Público e para demonstrar que, se quisermos, podemos passar a vida de "indignação" em "indignação", tipo jogos florais democráticos, laicos e republicanos. Acontece que eu tenho simultaneamente a vantagem e a desvantagem de não ser jornalista. Posso, se me apetecer, ser tendencioso. Faço parte da chamada "opinião pública" e não tanto da "opinião que se publica". Esta, estando no seu perfeito direito de não gostar de a ou de b, ou de gostar mais de c ou de d, tem que ter um pouco mais de cuidado com o que escreve, independentemente de se "indignar" ou de se "curvar".
3. Finalmente, meu caro JMF, fala-me de "debates" em Portugal e de "graçolas incendiárias e analfabetas". Será que JMF incluiria neste grupo das "graçolas incendiárias e analfabetas" a de Medeiros Ferreira que viu Cavaco "imediatamente abraçado ao crucifixo"? Tirando o mato e a caramunha, descanse que nada se "incendeia" verdadeiramente neste país e Você, como bom jornalista, devia ser o primeiro a saber isso. Existem, é certo, meia dúzia de pessoas que "fingem" alimentar "polémicas" entre si a propósito de banalidades. Em França, por exemplo, quando Chirac colocou o respeitável busto da República à porta das escolas, em nome do laicismo, viu-se o que aconteceu. Apesar de tudo, a França, mesmo quando não é levada a sério, leva-se a sério, o que faz toda a diferença para a paróquia. Nós, quando nos começamos a levar a sério, mesmo (ou sobretudo) com a Constituição debaixo do braço, resvalamos imediatamente para um híbrido entre a comédia e a tragédia. É o que dá termos um país inundado de juristas (como eu, mas estou a milhas de ser fanático) e de proto-juristas. E como eu sei que o JMF é um bom leitor, recomendo-lhe Henry Miller e o seu Viragem aos Oitenta (Fenda), que até pode ser lido como uma sublime homenagem a um candidato presidencial, já que foi por aí que comecei (e agora estou a falar a sério): "quem se leva a sério está condenado."

LEITURAS

João Gonçalves 28 Nov 05

O Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, também já foi lido aqui. É, convenhamos, uma leitura "forte" das famosas memórias. Porém, vale a pena ler e discutir. Sobre o "tira e pôe" dos crucifixos nas salas de aula, para já subscrevo esta sucinta opinião de Rodrigo Moita de Deus: "Não há razão nenhuma para existirem crucifixos pendurados nas salas de aula. Não há razão nenhuma para o assunto ser prioridade do ministério da educação." O Rui Costa Pinto chama a atenção para umas breves palavrinhas do candidato Mário Soares, em Santarém. Falaram-lhe de "dossiês" e ele remeteu para mais tarde uma "opinião" em matéria de energia. Será que é desta vez que Soares vai dizer o que pensa, por exemplo, de Pina Moura, o mais soturno dos "socratistas"? Finalmente, no militante Bicho Carpinteiro, Medeiros Ferreira interroga-se sobre os critérios editoriais do Público em matéria de presidenciais. Já agora, eu também me interrogo sobre os de António José Teixeira - que eu não tinha por cortesão - e dos seus auxiliares, no Diário de Notícias.

NA MESMA

João Gonçalves 28 Nov 05

Segundo o Correio da Manhã, via Portugal Diário, o sr. director geral dos impostos - que acumula com a "eficaz" e "eficiente" função de "relações públicas" da sua direcção geral, num raro exemplo que bem podia ser seguido por tantos colegas seus -, está a preparar-se para dar cumprimento, em 2006, à extraordinária "orientação" do governo que manda divulgar publicamente o nome dos contribuintes faltosos, empresas ou indivíduos. Estarão abrangidas cerca de oitocentas mil criaturas o que corresponde a mais de três milhões de processos de execução fiscal. Eu deploro que, por causa da impotência do famoso "sistema", se recorra à bufaria. Não é por muito "expôr" o infractor ao "povo" que ele passa a pagar. Pelo contrário. Entre nós, país de ressabiados e de invejosos, a expiação pública tende a converter em heróis - sobretudo os falhados de "luxo", como são quase todos os grandes não pagadores de impostos - entidades que, por princípio e por decência, deviam ser olhados como puros bandidos. O "povo", na sua remediada ignorância de pequeno ou médio contribuinte, tem, no fundo, pena de não poder agir assim. O "sistema", ao arrepio do que apregoa, vive dos "tótós" que não podem fugir aos deveres fiscais e à sua iníqua propaganda. Esta "medida" ressuma apenas demagogia. Finge-se que se "muda" qualquer coisa - e logo pelo pior dos lados, a delação - para que o essencial fique na mesma.

LER

João Gonçalves 27 Nov 05

No Sinédrio, "Já está no bom caminho..."

À PRIMEIRA

João Gonçalves 27 Nov 05

Depois de uma primeira fase excessivamente tagarela, o dr. Mário Soares serenou vagamente nos últimos dias. Parece que o partido e um ou outro estratega aconselharam recato. Para não perder de todo o registo habitual, Soares passou a falar do que verdadeiramente lhe interessa - Cavaco - através de imagens e de metáforas. Já elogiou o "silêncio", a pretexto da obra de Graça Morais, e a notável inteligência dos golfinhos, sem esquecer os pinguins. Para não perder o pé na matéria e porventura convencido de que é e de que está melhor do que Soares para "bater" Cavaco, Alegre decidiu colocar o ex-primeiro-ministro na sua campanha. Não percebe - também não tem ninguém que lhe explique - que o dr. Soares agradece a gentileza. Finalmente a graçola anti-Cavaco do dia veio de Jerónimo de Sousa. Esteve "inquieto" todo o fim de semana por causa da perspectiva da vitória da "reacção" e brindou o adversário da "direita" com uma maravilhosa "pérola". Cavaco é, na opinião do subtil político de Pires Coxe, um "macaco sábio". Quer Soares, quer Alegre devem ter-se roído de inveja por não se terem lembrado do preciosismo. Descendo agora à terra, verifiquei que Cavaco, o tal "macaco", andou pelas ruas com muita gente por perto. E que se proferia, com insistência, uma palavra sábia. À primeira.

MENA E A SUA BICICLETA

João Gonçalves 26 Nov 05



Estive a ler o Bilhete de Identidade de Maria Filomena Mónica. Sou um confesso admirador da prosa escorreita e cruel da autora. Acho que lhe li todas as colectâneas de ensaios dos últimos anos e a, até agora, opus magnum, a biografia do Eça. MFM deverá ter lido, por gosto e por dever de ofício, dezenas de biografias escritas na língua de Sua Majestade e, muito provavelmente, alguma "memorabilia" auto-biográfica. Para além disso, "viveu" em Inglaterra e passa lá vastos períodos todos os anos. Nesse sentido, Mónica, mais do que se sentir, supôe-se mesmo "inglesa". É por isso que a revisitação que faz da sua vida neste livro - apesar de quase tudo nessa vida ser tão "português" e tão "meridional" - esconde a constante pena de ter fatalmente de olhar o mundo e o país a partir das ruas estreitas de Lisboa. Ao contrário de Rui Ramos, a quem a autora deu o livro a ler previamente, conforme nos informa na "introdução", eu não fiquei embasbacado com a sua leitura. MFM intercala o relato da sua privada existência com notas sobre a "agenda" daqueles dias e anos para não pensarmos que ela estava apenas envolvida, por ser extremamante bela e, para a época, ferozmente inteligente, com rapazes despretenciosos, ocos e bonitos do eixo Lisboa-Cascais ou, mais tarde, dos meios "intelectuais" de Lisboa a Oxford. A iconoclastia afectiva, sexual e profissional de Filomena Mónica, bem escrita como sempre, não justifica o arraial publicitário que a tem acompanhado. Francamente não o merece. A este Bilhete preferirei sempre o Eça ou, por exemplo, as magníficas "Visitas ao Poder". Eu percebo que os elementos "novidade" e "exposição", sobretudo por virem de uma mulher onde o loiro do cabelo e a beleza convergem com a inteligência objectiva da criatura, impressionem. Mónica fica certamente encantadora a pedalar a sua bicicleta em Oxford ou a acompanhar as excitações dos primeiros dias da Revolução ao lado de Vasco Pulido Valente. Porém, e como escrevia no DN o Pedro Lomba, uma autobiografia também tem de ser literatura. E este Bilhete, malgré lui, não é.

Adenda: João Pedro George, no Esplanar, já se referiu por duas vezes a este "tema", com links para "observações" de diferente teor. E anda a ler o livro.

TRINTA ANOS

João Gonçalves 25 Nov 05


Em política, como em quase tudo o mais, a memória é curtíssima. E trinta anos, à velocidade a que tudo agora acontece, é uma eternidade. Em 25 de Novembro de 1975, a coragem moral, política e física - tudo coisas "de carácter" que vão desaparecendo - de um punhado de "civis" e de "militares" evitou o pior, ou seja, uma "guerra civil" original, em versão portuguesa. Antes desse dia, no "terreno" e em constante combate, Mário Soares e o Partido Socialista (à altura, um enorme "albergue" de sinceros democratas e de curiosos oportunistas, depois revelados) fizeram o indispensável, como nunca é demais relembrar. A 25, quando a aventura militar se declarou, de mãos dadas com a extrema-esquerda e a complacência estratégica do dr. Cunhal - que se retirou no momento adequado-, emergiu um homem desconhecido, de ar duro e sombrio, com os olhos escondidos nuns permanentes óculos escuros. Liderou com sucesso o "contra-golpe" e impôs-se, de seguida, como chefe incontestado de um exército desfeito, primeiro pela guerra, depois pelas brincadeiras de 74 e 75. Ramalho Eanes foi porventura a criatura que mais poder concentrou nas suas mãos, em Portugal, depois da "revolução". Eleito presidente, em 1976, uns escassos sete meses após a sua aparição na conturbada política nacional, era igualmente CEMGFA, comandante supremo e presidente do Conselho da Revolução. Nada disso impediu, antes pelo contrário, que voltasse a disciplina à tropa e que a democracia se institucionalizasse. Apesar das hesitações e das ambiguidades, sempre respeitei Ramalho Eanes. A ele, como no plano "civil" a Mário Soares, devemos o lance de termos passado a viver a liberdade em segurança.

O RESSABIADO

João Gonçalves 24 Nov 05

Medeiros Ferreira, sempre atento aos movimentos de qualquer insignificante milícia "anti-Cavaco", decidiu elogiar Miguel Cadilhe, o ex-excelente ministro das Finanças de Cavaco Silva do final dos anos oitenta. Nem o pormenor de a sua entrevista à Visão corresponder à simples manifestação de um mero caprichismo regionalista, aliado ao mais puro desforço ressabiado, incomodou o ilustre membro da comissão política de M. Soares, que o aproveitou de imediato em prol da sua privada cruzada. Ou seja, Cadilhe junta-se a MF, a M. Soares e a Jerónimo de Sousa como mais um homem da brigada que "não dorme" descansada. Esta preocupante insónia que atacou subitamente tanto espírito clarividente das "esquerdas", captura o primeiro incauto. É evidente que Cadilhe sofre de um mal muito comum em Portugal e que me dispenso de nomear. Pode, até, apesar da forma desajeitada e retorcida como se costuma exprimir politicamente, estar a pensar no PSD. Não seria inédito. Pelos vistos, e por enquanto, tem apenas a opinião a saldo.

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