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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

"DESCRÉDITO"

João Gonçalves 25 Ago 05

Do notável artigo de Maria de Fátima Bonifácio no Público (sem link): "(...) Em má hora Sócrates seguiu o exemplo de Barroso. Já nem me quero referir à "promessa" de criar 150.000 empregos. Esclareceu que não era propriamente uma promessa, mas sim um objectivo. Mas sabia, como não podia deixar de saber, que, aos ouvidos menos atentos da generalidade dos eleitores, a coisa passava por promessa. Mas se neste caso apenas podemos pôr em dúvida a boa-fé, no caso dos impostos podemos ter a certeza da má-fé. Sócrates estava farto de saber que teria de os aumentar; Campos e Cunha referiu logo essa "possibilidade" antes de tomar posse. O apuramento do défice pela comissão Constâncio apenas se destinou, como toda a gente percebeu, a justificar a mentira sobre os impostos conscientemente proferida em campanha; e serviu também para justificar cortes na despesa pública de que ninguém ouvira antes falar. Tal como as fraudes eleitorais no século XIX, estas coisas fazem mossa: cavam o descrédito do governo, diminuem-lhe a autoridade e ferem a legitimidade das medidas de austeridade nunca antes anunciadas: o eleitor tem o direito de se sentir enganado. Em quem irá agora acreditar? Veremos se as próximas presidenciais servem para travar a corrupção do regime."

O RESPEITINHO...

João Gonçalves 25 Ago 05

... é uma coisa muito bonita, mesmo para os adeptos tardios do "socialismo em liberdade". Seja dentro de um partido, seja dentro de outra coisa qualquer. Não gostaria de ver Vital Moreira, por quem tenho imenso respeito intelectual, transformado no Vasco Graça Moura do PS e do governo.

A MÃO ESQUERDA DE DEUS

João Gonçalves 25 Ago 05

De acordo com alguma imprensa, Mário Soares porá termo à farsa da "reflexão" já na próxima semana. Entre aqueles que o ajudaram a alimentá-la encontram-se - segundo o próprio - governadores civis. Como toda a gente sabe, os governadores civis são uma espécie de longa manus do governo nos distritos. No caso de possuírem alguma habilidade e um módico de subtileza política, podem igualmente servir de "cabos" eleitorais. Em suma, a natureza político-partidária da sua nomeação recomenda-os numa campanha eleitoral a disputar com cuidado. Soares não perde tempo com minudências e quer, naturalmente, uma campanha "oficiosa" como candidato do "regime". Daí os jantares e as conversas intimidatórias com as pobres criaturas. E é precisamente aqui que começa a principal diferença de Soares 2005/2006 com Soares 1985/1986. Há vinte anos, a candidatura de Soares tinha o travo da "resistência" moderada à esquerda e à direita "oficiosas", representadas respectivamente no voluntarismo "esclarecido" de Pintasilgo, no ressentimente fraticida de Zenha e na fragilidade "governamentalista" de Freitas do Amaral. Se dependesse dos dois primeiros, Soares não teria saído do Campo Grande. Quando dependeu de Freitas do Amaral e da sua "aposta" em "puxar" Soares contra Zenha para a 2ª volta, Soares ganhou. E ganhou, apesar da maioria "cavaquista" que já nessa altura se começava a desenhar. Hoje Soares parte "colado" à actual maioria partidária de governo, que está longe de corresponder à maioria "eleitoral" que deu a vitória ao PS em Fevereiro. Será também e a seu tempo, o candidato oficial das restantes "esquerdas" para esconjurar o diabo, uma contabilidade mesquinha que até inclui a eventualidade de um "Le Penzito" português para "animar". O que é que de verdadeiramente "novo" têm Soares e os seus provisórios compagnons de route (Jerónimo de Sousa e o do BE) a propôr a um país em crise e às mais jovens gerações? Soares, na realidade, não propôe nada, nem lhe interessa minimamente propôr. Limita-se a impôr a sua veneranda pessoa ao PS e às "esquerdas" em nome de um combate ideológico que dissimuladamente diz não ter lugar. Acontece que, nesse "combate" que é bom que exista, o lugar do "moderado" de 1985/1986 será ocupado por Cavaco Silva. Às vezes a "mão esquerda de Deus" escreve "direito" por linhas tortas. Caberá a Cavaco Silva a meritória tarefa de provar que a democracia não tem donos nem direitos de exclusividade. Que não lhe doa a mão e votos não lhe hão-de faltar.

NO FUNDO

João Gonçalves 25 Ago 05

Vale a pena ler este curioso exercício de "administração pública portuguesa comparada". O pretexto é o combate ao fogo, mas podíamos escolher mais. As direcções gerais ou equiparadas estiolam na sua mesquinhez de "capela" ou no gigantismo absurdo da sua burocracia. A tentação da gestão paralela das mesmas coisas, pelas vias mais imaginativas, quando existem organismos pagos pelos contribuintes para os devidos efeitos, é uma constante. Têm-lhe chamado de tudo. Fundações, "grupos de missão", "comissões", "equipas de projecto" e tretas afins. No meio, continuam os serviços públicos que, muitas vezes, prosseguem objectivos sobrepostos ou concorrentes. O que ao Estado falta em racionalidade, sobra à "política" em imaginação. Os políticos, sobretudo os políticos no governo, adoram "estudar". Para isso nomeiam um enxame de criaturas para "estudar" as maiores e inúteis extravagâncias que acabam por não ter qualquer interesse de cidadania. Quando a realidade bate à porta - e Deus sabe como ela pode "bater" da pior das maneiras, como no caso dos incêndios -, vem ao cimo toda esta esquizofrenia "de Estado" que nos paralisa enquanto nação. O episódio das florestas, visto pelo lado do dr. Sampaio e, a seguir, pelo dr. Costa, é apenas um vago sintoma dessa esquizofrenia. Há séculos que não existe em Portugal um pensamento de Estado minimamente coerente. O pouco que resta é desperdiçado nestes ridículos jogos florais e desbaratado por figuras meramente ornamentais, colocadas na linha "hierárquica". Quem julgava que, com Santana, tínhamos batido no fundo, enganou-se. Verdadeiramente já lá estávamos, muito antes da sua emergência. E é lá que melancolicamente continuaremos.

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