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portugal dos pequeninos

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NOS OITENTA E DOIS ANOS DELE

João Gonçalves 9 Ago 05

de profundis amamus

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

O MESMO QUE NADA

João Gonçalves 9 Ago 05

O dr. Costa, que eu ainda tinha como um dos poucos políticos lúcidos da sua geração, está a revelar-se um perfeito logro. Depois de ter andado desaparecido enquanto o país ardia, decidiu agora mostrar-se muito e falar. Também ele, à semelhança de um vulgar burocrata, imagina que os problemas se resolvem com "relatórios". Como explicou a um jornal, está "à espera" de um para Outubro. Isto deve representar um imenso alívio para as populações e para os bombeiros. Os fogos de Agosto e, quem sabe, de Setembro, não há dúvida que se combatem com relatórios em Outubro. Parece que havia um "livro branco" - outra portuguesa maneira de não mexer em nada - sobre os fogos a que Costa não deu grande importância, à excepção da criação da famosa "autoridade nacional" do pacato e inócuo general Ferreira do Amaral. Este estrondoso fracasso das políticas de prevenção e de combate aos incêndios, comum a vários governantes, merecia que se tirassem as devidas conclusões. Em vez disso, espera-se por relatórios que ninguém lê ou cumpre, por "livros brancos" perfeitamente combustíveis e por criaturas que, apesar de não se entenderem sobre o essencial, mandam. É tudo tão cinzento e baço como o que fica depois das labaredas. E é exactamente o mesmo que nada.

TUDO EM FAMÍLIA

João Gonçalves 9 Ago 05

Uma das coisas "giras" que tem o dr. Mário Soares, é baralhar toda a gente. A começar pelos seus supostamente mais "próximos". Nesse aspecto, ele é uma permanente brisa de ar fresco ao pé destas mediocridades vaidosas que pululam na vida pública nacional, da "esquerda" à "direita". Por mais que se desminta, Manuel Maria Carrilho, citado "entre aspas" no Diário de Notícias, não aprecia a candidatura do fundador. E, sobretudo, não gostou da maneira como Sócrates tratou do assunto ou, melhor dito, da forma como Soares o "obrigou" a tratar. Carrilho, a pretexto de um falso pretexto, quis demarcar-se de um secretário-geral que não é manifestamente o seu preferido e que pressente a "afundar-se". Nada mais. Estas bizantinices não maçam Soares. Pelo contrário, devem diverti-lo imenso. Cada dia que passa, o partido está mais refém da sua gloriosa pessoa. Ele sabe que, na hora "da verdade", estarão lá todos. Eduardo Prado Coelho, que é um teórico da ubiquidade, explica já isso claramente quando, depois de "zurzir" Soares como uma "falsa boa ideia", como aliás o fez ao lado de Pintasilgo em 1985/86, se prepara para "acabar por o apoiar também". Estes episódios sucessivos de "desestabilização" na "família" são bem elucidativos do factor de perturbação que a candidatura de M. Soares veio introduzir numa maioria absoluta "à beira de um ataque de nervos" que, por acaso, é da sua "cor". O que significa que Soares, candidato, vai querer fugir disto o mais depressa possível, como o diabo da cruz. Sucede, porém, que a "sua" maioria é o governo de Portugal e, supostamente, uma coisa séria. Não invejo a tarefa dos "preparadores" dos discursos presidenciáveis de M. Soares, alguns deles meus amigos. O eleitorado que deu a maioria absoluta ao PS, fê-lo para governar bem e não para perder tempo com questões domésticas. Até mais ver, Soares é uma questão doméstica que "ameaça" todo o edifício "socialista" de ruína precoce. Eu avisei e tornei a avisar. Ele não vem pelo bem de Sócrates. Vem só e exclusivamente pelo dele.

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