Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

"PEDAGOGIA DE QUÊ?"

João Gonçalves 28 Jul 05

Isto está tão bem escrito e é de tal maneira certeiro, que certamente o Francisco José Viegas não se importará que eu o "copie" na íntegra para aqui:

O anúncio da candidatura de Soares à presidência, preparado e calculado há bastante tempo, veio interromper a modorra da política ou reconduzir os caminhos da política para lá dos limites do défice. Os portugueses terão, agora, mais com que se preocupar. Vai ser uma festa. Uma fonte próxima de Soares declarou ao jornal "A Capital" que espera uma campanha alegre e com ideias. Em simultâneo. Vai ser uma festa. Outra fonte próxima mencionou também a necessidade de mais ideias. Portugal vai, finalmente, regurgitar de ideias graças às presidenciais. Vai ser mais do que uma festa, porque se trata, ainda de acordo com essa fonte, um "acto cívico e pedagógico". Eu compreendo que se trata de um acto cívico dos 35 anos em diante, um dos direitos dos cidadãos é o de poder candidatar-se à presidência da República. Mas não entendo a natureza pedagógica da candidatura presidencial. Admito que o dr. Mário Soares tenha coisas para dizer (o que faz, aliás, num programa de televisão) e que tenha, até, ideias para discutir; o regime deve-lhe bastante e essa dívida tem sido paga em reconhecimento, respeito, silêncio e também veneração - infelizmente, há quem ache que o respeito pelas suas ideias se deve confundir com o respeito pela sua idade, o que é lamentável e o deve desgostar bastante. Não encontro nesta candidatura "virtudes pedagógicas" maiores do que em qualquer outra. A sabedoria que se retira da velhice é boa para relermos Séneca, mas não deve aprisionar-nos quando se trata de política. O pior que se pode fazer a Mário Soares e à sua candidatura é manifestar-lhe o respeitinho moral que fará dele um bonzo da República ou uma velharia aceitável e comovente. Parte da Esquerda vê nessa candidatura a salvação; provavelmente, até Sócrates a acolhe com alívio, ele que foi publicamente humilhado por Soares (que lhe chamou a parte "menos feliz da herança guterrista, pela falta de firmeza nas ideias"): porque esta candidatura "cívica e pedagógica" é entendida como "supranacional" ou apenas "superiormente orientada para o mundo das ideias" (já ouvi isto e ninguém se riu). Evidentemente que é um erro - e grave - dizer que a idade é um argumento sério contra Soares. No país que tem cada vez mais a mania imbecil da juventude eterna, a velhice merece ser valorizada, mas não idolatrada ou desculpada. E a candidatura de Soares servir-se-á certamente da idade como um valor essencial do seu marketing vejam como o velho combatente regressa; vejam como ele se submete ao confronto; vejam como ele tem, aos 80 anos, coragem de subir ao ringue e de assumir este "acto pedagógico"; vejam como a sua experiência é um valor. E virão então as imagens nos tempos de antena da candidatura: o velho resistente ao fascismo; o republicanismo a reboque; o regresso do exílio; os tempos da luta contra os militares e os comunistas; a primeira eleição presidencial; as suas presidências abertas contra Cavaco, "o gajo"; a sua amizade com "intelectuais e artistas"; a sua participação nas manifestações contra a guerra; e essa biografia avassaladora, cheia de momentos sublimes, de vitórias e de discursos, será servida como um antídoto contra a política e, justamente, contra as ideias. As dele, talvez; mas, certamente, as dos outros. O que estão a fazer a Soares é transformá-lo no semi-deus da democracia. O que é, manifestamente, um perigo para todos. Talvez uma derrota eleitoral o faça descer à terra e ser humano. Nessa altura discutiremos ideias.

P.S. Votei uma vez em Mário Soares nas eleições para a presidência da República porque não queria a vitória de um candidato antiliberal (Freitas do Amaral). Era bom que as pessoas se recordassem desses tempos.

A CEDÊNCIA

João Gonçalves 28 Jul 05

É isso mesmo, um "mau sinal", no Causa Nossa. Nenhuma das reivindicações dos camionistas me parece merecedora de ser satisfeita. Criação de privilégios e regimes especiais é coisa que neste momento deveria ser proibida, ainda por cima para um sector muito custoso em termos ambientais, que tem alternativa no transporte ferroviário. Mas o Governo já anunciou disposição para ceder, o que é mau, primeiro porque a causa não é meritória, depois porque a acção ilícita dos camionistas não deveria ser premiada.

UM LIVRO

João Gonçalves 28 Jul 05

Eça de Queiroz, Jornalista, Introdução, pesquisa e selecção de textos de Maria Filomena Mónica. Aprende-se muito com os "velhinhos"...

AUTO-RETRATO

João Gonçalves 28 Jul 05

"Para se ser advogado é preciso ter-se uma inteligência estúpida e que eu tenho é uma estupidez inteligente." Teixeira de Pascoaes

EMBARCAÇÕES PRESIDENCIAIS - 2

João Gonçalves 28 Jul 05

Eu e José Medeiros Ferreira, voltamos, afinal, a estar de acordo. Apreciamos a "passagem" de Heródoto pelas páginas de "O Doente Inglês", esse estranho e belo livro que aproxima as principais personagens da magnífica história de abandono, deserto e morte de Michael Ondaatje. Continuamos ambos "reformadores" e mantemos os dois - indemne - o "espiríto livre". Precisamente por causa destas duas últimas coincidências é que nos separamos nas "presidenciais". Não me preocupa minimamente o "destino" da "esquerda em geral" que, naturalmente, extravasa as fronteiras minimalistas dos partidos que a compôem. O meu Amigo, aliás, é um bom exemplo de alguém que, respeitando o papel da organização partidária na vida pública democrática, bem sabe que não é ali que esta se esgota. Da mesma maneira que não me maço com as venturas da "direita em geral". O próximo presidente da República deve estar acima desta "topografia política" demasiado primária. A questão está em saber qual é o "lado" que, nas presentes circunstâncias, mais "equilibra" e qual é o "lado" que mais "desequilibra". A maioria absoluta do Partido Socialista, numa altura em que simultaneamente as outras "esquerdas" cresceram, não foi conquistada pelo "lado esquerdo". Um presidente que "some" as "esquerdas em geral", desequilibra. Um presidente que "junte" o contributo para a solução maioritária de Executivo, encontrada em Fevereiro, com as expectativas legítimas de representatividade institucional do "centro-esquerda" e das "direitas", equilibra. De um lado, um potencial "desestabilizador". Do outro, um verdadeiro "moderador". E é precisamente por eu ser um espiríto livre, meu caro Amigo, que não cedo à chantagem reverencial que se prepara para acolher Mário Soares como o tal "salvador da pátria" de que tanto se falou e que, afinal, era outro.

O VÉU

João Gonçalves 28 Jul 05

A conveniente algazarra em curso por causa do dr. Soares, lançou como que um véu sobre dois assuntos importantes e recorrentes a que convém prestar toda a atenção. Refiro-me à preparação do orçamento de Estado para 2006 - a decorrer na maior das clandestinidades - e às eleições autárquicas de Outubro. No primeiro caso, desconhecemos as "prioridades" de Teixeira dos Santos. Será politicamente mais vulnerável às pretensões despesistas dos seus colegas do que Campos e Cunha o era? É mais condescendente ou não com o devorismo localista? Isto prende-se com a escolha autárquica. As abencerragens que concorrem em alguns lados, seja pela "antiguidade", seja pelas suspeitas de corrupção, fragilizam ainda mais a credibilidade de um "poder" que é tido invariavelmente por todos, desde o "25 de Abril", como "modelar". Redondo como as rotundas espalhadas pelo país, pelo menos é. Basta ver as caras dos principais concorrentes para desesperar de qualquer "renovação". A palavra das "finanças", por todas as razões, continua a ser determinante, independentemente da mudança "oportuna" ocorrida a semana passada, votada tão rapidamente ao esquecimento. A questão está em saber onde é que ela está. É que, no horizonte, só vejo florescer - e muito contentinhas - as megalomanias milionárias dos drs. Pinho e Lino, certamente acarinhadas por grande parte da boçalidade autárquica que aí vem.

LER

João Gonçalves 28 Jul 05

... o Paulo Gorjão, "Questões de semântica e de estratégia".

O "DONO"

João Gonçalves 28 Jul 05

Na Figueira da Foz e em grande forma - talvez ligeiramente irritado -, Mário Soares reiterou que estava "em reflexão" e que nem sequer sabe "se vai a campanha". Anda, disse ele, a ouvir "partidos" -no plural- e a famigerada "sociedade civil" que inclui "cientistas, universitários, sindicatos, associações" e "magistrados", enfim, "todo o tipo de gente". Pelo meio, fugiu-lhe a boca para a verdade e disse com todas as letras que, por terem existido "grandes falhas" em matéria de presidenciais dentro do PS, então "chegaram" a ele. O talento para a mistificação, em Soares, permanece intacto. Quem o conhece, sabe várias coisas. Soares pura e simplesmente não ouve ninguém. Não ouve, pronto. Eles podem falar, até admito umas trocas simpáticas de impressões, mas ele não que saber disso para nada. Nunca quis, nem precisa. Depois, é manifesto que há que tempos tomou a decisão. A "sociedade civil" virá apenas compôr, na hora certa, o ramalhete. Nada mais. Finalmente deu de barato que foi ele quem forçou o partido e, por tabela Sócrates, a "lá chegarem". E imagino com que "delicadeza". "Levar a água ao seu moínho" sempre foi o seu lema. Apenas um ano passado sobre a entrada em cena do "social-democrata" José Sócrates, Soares é ,de novo, o "dono" do PS.

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

  • António Maria

    Completamente de acordo.Ontem tive vergonha de ser...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, «plus ça change, plus c'est la mêm...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor