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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

VISIONÁRIOS

João Gonçalves 6 Jul 05

De manhã, quando liguei o rádio do carro, estava a perorar o presidente do comité olímpico português, salvo erro o eterno Coronel Moura. Apanhei a prosa a meio, mas percebi o contexto. Tal como Londres, Paris, Nova Iorque ou Singapura, também Lisboa merecia organizar uns joguitos. O argumentário do Coronel era infalível. Resmas de postos de trabalho e a já célebre "auto-estima" estão sempre na "linha-da-frente". Por que não, dizia o Coronel, sermos candidatos em 2016 ou, digo eu, sempre por aí adiante até ao ano 3000, em nome desse extraordinário reforço sempre adiado da "auto-estima" nacional? A baboseira megalómana, quando ataca - e ataca forte -, custa muito a passar. O mais recente adepto da modalidade é o eng.º Mário Lino, das Obras Públicas. Mesmo ao arrepio da prudência voluntarista do primeiro-ministro, Lino quer a Ota, os comboios e o mais que puder juntar ao "bolo" cimenteiro. Se lhe falarem um bocadinho nos jogos olímpicos, ainda o vamos ver de mãos dadas com o Coronel Moura a correr atrás do nosso justo lugarzinho ao lado dos "grandes". Esta gente acha-se subtil e toma-se normalmente por "visionária". Pensa - julga - em "grande". Em suma, não se enxerga.

SÓCRATES, JULHO DE 2005

João Gonçalves 6 Jul 05

Continuo a achar que não há melhor alternativa a Sócrates. Reconhecer isto é já uma evidência da melancolia que me atravessa cada vez que penso na "coisa" pública. Adiei a passeata nocturna do meu cão para ouvir o primeiro-ministro na SIC. E, depois, estive a rever o Million Dollar Baby em "dvd". Que espantoso argumento quando comparado com o que Sócrates me ofereceu! Quando, em Fevereiro, votei no PS, já não tinha ilusões. Muitos dos meus amigos e conhecidos continuaram - e continuam - a acreditar piedosamente no Pai Natal. A minha natureza "contra mundum" não me deixa, no entanto, grande margem de manobra. Mesmo assim, escutei o que o homem tinha para me contar. Desde logo, pareceu-me que foi muito mal entrevistado. Ricardo Costa tem a mania que é engraçadinho e Sócrates - e bem - fez questão de lhe demonstrar precisamente o contrário. O rapaz da economia contou pouco. Tinha "pano para mangas" e não soube aproveitá-lo. O registo discursivo de Sócrates é de uma clareza cristalina, assente em duas ou três "ideias-chave" que raramente ultrapassam o limite da banalidade. Jamais abandona aquele estilo misto de "campanha eleitoral" com o do "estudante aplicado". Não tem rasgo, mas também não ofende. Se ainda houvesse, estaria no "quadro de honra" do liceu. Tem uma magnífica presença física e não se defende mal. Seja lá o que for que isto quer dizer, deixou uma impressão de "força de vontade" por vezes traída por algum voluntarismo fácil. Passou praticamente incólume perante o "pacote" arco-íris, embrulhado em cimento e em belíssimas intenções, que tinha apresentado de manhã. Não convenceu na história das SCUT, um outro "pacote" que, mais tarde ou mais cedo, vai ter de engolir. Safou-se razoavelmente na questão Souto Moura com uma resposta académica. E "diluiu" com inteligência as "mágoas" dos setecentos mil funcionários públicos nas "dores" dos quatro milhões de trabalhadores "privados". Tudo em nome de uma coisa a que chamou "uma ideia de esquerda". Nada do que foi dito me entusiasmou particularmente, nem a mim nem sequer a um morto. Apesar de tudo, devemos estar agradecidos por, cerca de um ano depois, termos um Sócrates no lugar de um Santana Lopes. Não quero com isto dizer que vamos parar a algum lado, em especial, por causa disso. Com o outro é que, de certeza, não íamos a lado nenhum.

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