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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

4 DE JULHO

João Gonçalves 4 Jul 05

Ten days before Jefferson died, he wrote some notes for the approaching fiftieth anniversary of his Declaration of Independence. "May it be to the world what I believe it will be... the signal of arousing men to burst the chains under which monkish ignorance and superstition had persuaded them to bind themselves, and to assume the blessings and security of self-government... The general spread of the light of science has already laid open to every view the palpable truth that the mass of mankind has not been born with saddles on their backs, nor a favored few booted and spurred, ready to ride them legitimately, by the grace of God..." Science! To us that means total sorveillance, electronic devices to track others, weapons of mass...
On July 4, 1826, Jefferson died. For posterity he wanted to be known as the author "of the Declaration of American Independence, the statute of Virginia for religious freedom, and father of the University of Virginia."
A few hours later, the dying John Adams said, "Thomas Jefferson still lives." But Jefferson had already departed. John Adams had his epitaph ready; it was to the point: "Here lies John Adams, who took upon himself the responsability of the peace with France in the year 1800".
"Let us now praise famous men and our fathers that begat us", as the New England hymn of my youth, based on Ecclesiacticus, most pointedly instructed us.


(Gore Vidal, Inventing a Nation - Washington, Adams, Jefferson, 2003)

O PAÍS ERRADO

João Gonçalves 4 Jul 05

Primeiro foi o ministério das Finanças que errou o orçamento. Depois, soube-se que, antes deste erro, já o Banco de Portugal tinha errado o défice. Agora foi o ministério da Justiça - e essa entidade misteriosa que é o INE - que transmitiram dados errados sobre a Justiça a Bruxelas. O senhor "entidade reguladora da saúde" - outro mistério -, apaparicado pelo Presidente da República e pelos governos, percebeu que estava no "lado errado", ou mesmo em lado nenhum, e demitiu-se. O senhor presidente do Governo Regional da Madeira acha "errada" a presença de "indianos" e "chineses" na sua coutada praticamente privada no meio do Atlântico. Esta pequena e grotesca tragicomédia elucida-nos um pouco mais sobre o país em que temos a infelicidade de viver. Um país errado, irremediavelmente errado.

A GRUTA DOS NADADORES

João Gonçalves 4 Jul 05



Deu-me para reler um outro "alter ego" meu, o Conde Ladislaus de Almásy, O Doente Inglês, de Michael Ondaatje. Concentrei-me apenas no famoso capítulo IX, A Gruta dos Nadadores. Uso a tradução de Ana Luísa Faria para a Dom Quixote. Muito antes de o livro sair por aí, já o tinha lido no original. O essencial, na minha pobre e pessoal leitura, está concentrado nesse capítulo. Gostava de o poder pôr todo aqui. É um belo momento literário a que gosto de voltar de vez em quando. Sobretudo agora, quando tanto se incensa um livro notoriamente menor de Alan Hollinghurst, The Line of Beauty, traduzido pela Asa, e igualmente vencedor de um "politicamente correcto" Booker Prize, em 2004. De facto, quem não aprecia a mistura da então fogosa Mrs. Thatcher com "tories" sexualmente mal resolvidos e túrgidos adolescentes, ambiciosos ou ingénuos?

Eu era um homem quinze anos mais velho do que ela, está a ver? Tinha atingido essa fase da vida em que me identificava com os vilões cínicos dos livros. Não acredito na permanência, nas relações que duram anos e anos. Era quinze anos mais velho. Mas ela era mais esperta. A sua ânsia de mudar era maior do que eu pensava.

As palavras do marido em louvor dela não faziam o menor sentido. Mas eu sou um homem que em muitos aspectos da vida, mesmo como explorador, se deixou sempre guiar pelas palavras. Por boatos e lendas. Coisas registadas por escrito. Cacos com inscrições gravadas. O tacto das palavras. No deserto, repetir alguma coisa era como lançar mais água à terra. Ali qualquer pequeno cambiante significava um desvio de cem milhas.

Sou um homem que virou quase por completo as costas ao convívio mundano, mas às vezes sei apreciar a delicadeza de maneiras.

Esta é a história de como eu me apaixonei por uma mulher que me leu uma determinada história de Heródoto. Ouvi as palavras que ela foi desfiando do lado de lá da fogueira, sem nunca erguer os olhos, nem mesmo quando provocava o marido. Talvez fosse só para ele que lia o episódio. Talvez não houvesse na escolha outro motivo exterior ao casal. Era simplesmente uma história que a perturbara pela familiaridade da situação. Mas revelou-se-lhe de súbito um caminho na vida real.

Ela parou de ler e ergueu os olhos. Arrancando-se às areias movediças. Ela estava a evoluir. De modo que o poder acabaria por mudar de mãos. Entretanto, com a ajuda de uma historieta, eu apaixonei-me. Palavras, Caravaggio. As palavras têm o seu poder.

Sou um homem capaz de jejuar até ver aquilo que quer.

"Acho que te tornaste desumano", disse-me ela.
"Não sou o único traidor."
"Não me parece que te importe, isto que aconteceu entre nós. Passas por tudo de largo, com o teu medo e o teu ódio à posse, à ideia de possuir, de ser possuído, de ser nomeado. E julgas que isso é uma virtude. Eu acho que tu és desumano. Se eu te deixar, para quem é que te viras? Arranjas outra amante?"
Eu não disse nada.
"Diz que não, raios te partam."

Daqui em diante, segredou-me ela, ou encontramos ou perdemos as nossas almas. Se os mares se afastam, porque o não fariam os amantes? Os portos de Éfeso, os rios de Heraclito desaparecem e são substituídos por estuários de sedimentos. A mulher de Candaules torna-se mulher de Giges. As bibliotecas ardem. Que havia sido a nossa relação? Uma traição aos que nos rodeavam, ou o desejo de uma outra vida?

Todas as coisas que amei ou acarinhei me foram roubadas.

Morremos albergando em nós uma miríade de amantes e de tribos, de sabores que provámos, de corpos como rios de sabedoria onde mergulhámos e nadámos contra a correnteza, de personalidades como árvores a que trapámos, de medos como grutas onde nos escondemos. Quero tudo isto marcado no meu corpo quando morrer. Acredito nessa cartografia - quando é a natureza que nos marca, em lugar de apenas inscrevermos o nosso nome num mapa, como os nomes dos ricos nas fachadas dos edifícios. Somos histórias colectivas, livros colectivos. Não somos escravos nem monogâmicos nos nossos gostos ou experiências. Eu só desejava caminhar por uma terra assim, onde não existissem mapas. Levei Katherine Clifton até ao deserto, onde se abre o livro colectivo do luar. Estávamos no meio do rumor das nascentes. No palácio dos ventos.

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