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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

AGORA...

João Gonçalves 16 Jun 05

... já são praticamente todos a favor de uma "pausa" - um eufemismo delicodoce para não desagradar a ninguém - no processo de ratificação do Tratado Constitucional Europeu. E os referendos já não são o que eram ou o que se esperava deles. Até por cá se admite "esquecer" o referendo em Outubro. É por isto que Durão Barroso emerge cada vez mais e melhor no seu papel de catalisador de hipocrisias. Nós, os pedintes, apenas queremos ver a "cor do dinheiro" dentro do famoso "envelope". No resto, vale sempre o mesmo "Maria, vai com as outras".

CARLO MARIA GIULINI (1914-2005)

João Gonçalves 16 Jun 05




No silêncio, como convém a um músico superior, Carlo Maria Giulini desapareceu também esta semana. Tratava-se, na minha modesta opinião, de um dos maiores dirigentes de orquestra do século XX. Uma vez mais são as suas gravações que aí ficam para o atestar. Tive a felicidade de o ver dirigir Brahms no ciclo das "grandes orquestras mundiais", no Coliseu. Karajan, insuspeito, disse que Giulini era o melhor de entre eles. Não sei se era ou não. Sei apenas que era dos mais sublimes.

EUGÉNIO

João Gonçalves 16 Jun 05

Nem sempre o homem é um lugar triste.
Há noites em que o sorriso
dos anjos
o torna habitável e leve;
com a cabeça no teu regaço
é um cão ao lume a correr às lebres.


De O Outro Nome da Terra


Não falei do outro morto ilustre, o Eugénio de Andrade. Numa outra encarnação, mais dada às "letras" nos jornais, desloquei-me ao Porto, essa cidade que tanto gosto, para entrevistar Agustina. Lá estive na casa do Campo Alegre. Era Inverno e a escritora acolheu-me ao pé de uma mesa que escondia uma lareira, suponho que eléctrica. Pelas pernas, pôs uma manta. Entrava e saía constantemente um amável cão. Mostrou-me os jardins com uma maravilhosa vista para o Douro e ofereceu-me um exemplar da sua "Florbela Espanca", dedicando-o à "lembrança de uma conversa de longos caminhos, minuciosos e inacabados". Falámos inevitavelmente de Eugénio de Andrade e eu mencionei que trazia o seu telefone de casa para um contacto. Cá fora, numa cabine de telefone público - não havia telemóveis -, marquei esse número que nunca chegou a ser atendido. Desencontrei-me, pois, desse encontro não marcado com o poeta. No seu desaparecimento, praticamente ninguém se poupou nas palavras. Logo sobre Eugénio, um poeta com uma noção tão perfeitamente enxuta do seu uso. Uma das melhores "falas" sobre Eugénio de Andrade pertence a Joaquim Manuel Magalhães, poeta também, e seu amigo. Foi ele quem me contou - estava eu na tropa em Tavira - a "origem" de "As Mãos e os Frutos", presumo que sem qualquer espécie de ironia. Eugénio também tinha estado na tropa em Tavira. E aqueles poemas ali terão sido escritos ou pressentidos, numa época em que notoriamente as mulheres ainda estavam longe de ter guarida em quartéis. "A tua vida é uma história triste./A minha é igual à tua./Presas as mãos e preso o coração,/enchemos de sombra a mesma rua." Ou : "Os teus olhos férteis de promessas/vão-se, e a noite fica fechada". Ou ainda esse magnífico "Espera": "Horas, horas sem fim/pesadas, fundas,/esperarei por ti/até que todas as coisas sejam mudas./ Até que uma pedra irrompa/e floresça./Até que um pássaro me saia da garganta/e no silêncio desapareça." É preciso dizer mais alguma coisa?

CUNHAL A SEIS TEMPOS

João Gonçalves 16 Jun 05



1. Finalmente o país parou para ver passar o dr. Álvaro Cunhal. Há 31 anos, aquando da sua chegada triunfal ao aeroporto de Lisboa, o personagem que desceu do avião era, ainda, um mistério. As primeiras imagens e as primeiras palavras recortavam a figura definitiva que os “anos brasa” da revolução iriam consagrar. O porte aristocrático, o olhar hegeliano da “noite do mundo”, o discurso cortante, a mordacidade evasiva, a concentração obsessiva, o messianismo do “colectivo”, tudo isso apareceu imediatamente a preto e branco na única televisão da época. Os exilados que regressavam no mesmo avião em que viajava Cunhal afastaram-se prudente e respeitosamente dele. Deixaram-no sozinho com as suas notas. Era o único que sabia perfeitamente ao que vinha.
2. As imagens de “Daniel” e de “Duarte” - da resistência clandestina à ditadura - mostram o homem bonito e sedutor que Cunhal nunca deixou de ser até ao fim. Explicava que a “força” vinha da convicção. E que a convicção obrigava ao combate e à resistência. Em certo sentido, Cunhal faz parte de um mundo que pouco ou nada diz à maior parte dos homens videirinhos dos dias de hoje. Justamente eles jamais conseguirão perceber que, para Cunhal, era uma impossiblidade intelectual o cometimento da mínima cedência aos “princípios” e ao “ideal”. Nem sequer o porquê da inadmissiblidade da discussão da “justeza” comunista. Por isso Cunhal é insusceptível de alguma vez poder ser acusado de “travestismo” político. Ele era aquilo que ele era e nunca poderia ter sido outra coisa. Não significava isto qualquer limitação da inteligência, em sede da qual recolhe a unanimidade de “superior”. Pelo contrário, no seu “sentido único”, Cunhal foi de uma verticalidade rara. E, por aí, igualmente um homem raro.
3. Valeu a pena o país curvar-se perante a sua memória? Valeu. Álvaro Cunhal é incompreensível para a geração do “25 de Abril”. Tê-lo lembrado por ocasião do seu desaparecimento, foi um serviço bem prestado à memória contra o esquecimento. Serve de muito pouco, no entanto, ao oásis acéfalo que é, na generalidade, a actual sociedade portuguesa. Como é que se explica ao país da “quinta das celebridades” e da bola que um homem pode aguentar, em nome de um ideal e da emancipação económica e cultural do seu povo, oito anos de isolamento prisional? Eu creio que Cunhal percebeu muito cedo que andava literalmente a pregar no deserto. O mérito dele – e a nossa vergonha – é ter continuado a pregar, sem a mínima tergiversação. Não cuido agora de saber se tinha razão. Sabemos que não tinha. A sua visão do “pacote” da democracia era radicalmente diferente daquele que nós, par delicatesse, aceitamos. Ceder nunca fez parte do seu vocabulário, porque sempre representaria “outra coisa”. Ora se havia “coisa” que Cunhal detestava, na coerência da sua “fé”, era o “outro” da “coisa”. Num livro do ano passado, Conversas com Álvaro Cunhal, Maria João Avillez perguntava, em 2000, se podia falar em “derrota” e “amarga”. Cunhal disse simplesmente isto: “amarga é uma palavra muito pequenina para o que foi”. Esta espécie de luminosidade amarga acompanhou os anos últimos, sem que, por um segundo, a antiga “convicção” tivesse alguma vez sido abalada.
4. Parece que é piroso revelar-se fascínio perante Álvaro Cunhal. Eu sempre o tive. Entre os meus quinze e dezasseis anos fiz parte da União dos Estudantes Comunistas (UEC). A minha breve e inócua militância traduziu-se por umas passagens por “cooperativas” alentejanas, pela assistência a reuniões meio clandestinas, nas casas de uns e de outros, dirigidas por um “controleiro” senior, em fazer “piquetes” na sede da UEC (nunca cheguei a perceber com que propósito) e a conviver esporadicamente com os “génios” femininos da então juventude comunista, a “Geninha” Varela Gomes e a Zita Seabra. Assisti, com fervor religioso, a alguns comícios em que o momento alto era a palavra vibrante de Cunhal. Li o “Rumo à Vitória” e sublinhei “A Revolução Portuguesa, Passado e Futuro”. Cantei, no coro do liceu, as “heróicas” do Lopes Graça. E, em momentos mais delirantes, andei nas ruas da Costa de Caparica a distribuir panfletos e a recolher “donativos”. Depressa me apercebi da frivolidade infantil desta desastrosa militância e “aburguesei-me”. Logo em 76, achei piada ao candidato presidencial dos óculos escuros, Eanes, apesar de o “nosso candidato ser Octávio Pato”. Leituras e companhias, o curso de direito e a emergência do “movimento reformador” de António Barreto e Medeiros Ferreira, em 1979, fizeram o resto. Anos passados sobre esta aventura, voltei ao convívio com Cunhal através do seu “Partido com Paredes de Vidro”. Mais recentemente, li a monumental “biografia política” de Pacheco Pereira, ainda a meio do caminho com apenas dois volumes publicados.
5. Isto tudo serve para dizer que eu respeito a “história” e a memória de Álvaro Cunhal. Tive familiares que estiveram detidos em Peniche ao mesmo tempo que o “camarada Duarte”. Tive e tenho familiares que sempre foram comunistas. Eu parti muito cedo e definitivamente numa outra direcção. Faltava-me tudo o que eles têm: acreditar no "homem", primeiro, e, pior do que isso, na sua "salvação", a noção de disciplina férrea, a “convicção”, a "felicidade pela coerência" e, sobretudo, a “história”. A Álvaro Cunhal, e à resistência moral e física de tantos outros comunistas e não comunistas, devemos hoje até o direito a sermos parvos. A força imbatível da liberdade “absorveu” e neutralizou a tempo a “deriva totalitária”. Penso que já devíamos conviver todos bem com isso e sem grandes problemas "existenciais".
6. Deu-me um certo gozo ver o país do “respeitinho” democrático e da “era” dos “homens-plasticina” inclinado perante o féretro de Cunhal rodeado de bandeiras vermelhas. Lá no assento mais ou menos etéreo onde subiu, Cunhal, com a sua eterna subtileza irónica, deve ter sorrido e, olhando cá para baixo, murmurado uma vez mais “até amanhã, camaradas”.

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