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portugal dos pequeninos

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VALE A PENA....

João Gonçalves 10 Mai 05

... ler o artigo de Manuel de Lucena sobre Adolf Hitler, O Jovem Culto, no Diário de Notícias, com continuação prometida:



"Se Hitler não tivesse sido um homem mas sim o monstro que tantos preferem supor, talvez pudéssemos sobrevoar a sua infância e depois a sua juventude; ou imaginar, até, que essas idades não existiram nele, tendo o menino Adolfo saído já maduro do ventre de sua mãe de bigode, vicioso e pronto para o pior. Como aquele herói de um filme brasileiro (tirado por Joaquim Pedro de Andrade da obra do homónimo Mário), que nasceu a berrar "Mamãe nasci!"; e ao qual a progenitora - uma velha mais que relha - retorquiu, irada, chamando-lhe Macunaíma e esclarecendo porque o baptizava assim: "Macunaíma, nome começado por Má, péssima sina". Aí, o recém-nascido começou por brilhar em lubricidade, no mato, enganando o irmão adulto com a cunhada apetitosa, e assim se afastando de um Führer muito moreno com os seus olhos azuis mas puritano, nada tropical e cujos anos de aprendizagem, por entre brumas nórdicas, o foram envolvendo em germânicos mitos, sonhos e paixões, até ficar apto a fazer o que fez. Nessa aprendizagem, o capítulo da cultura tem dado água pela barba aos melhores biógrafos e aos mais argutos comentadores, cujas descrições mostram o jovem Hitler metido desde muito cedo em questões culturais às quais dedicou uma constante e apaixonada atenção vivendo-as, sempre, como questões de poder e acabando por conceber a acção política qual suprema forma de arte. Mas, regra geral, não se atrevem a dizer que ele foi, a seu modo e no seu tempo, um jovem culto, por mais defeituosa e bárbara que a sua cultura fosse, como de facto foi. Parece que reconhecer isto ainda é mais difícil do que mostrar o mandante do Holocausto a beijar crianças, a fazer festas aos cães ou a ser delicado para com modestos colaboradores. E essa dificuldade resulta: à uma, da redução da cultura a certas formas consideradas superiores, às quais Hitler não acedeu por lhe faltarem não só graus oficiais de ensino mas também, no íntimo do pensamento, uma sólida raiz humanística e racional; e à outra, da identificação dela (cultura) com valores universais, como a justiça e a bondade, que Hitler pisou ao querer dominar o mundo e promover uma raça de senhores. De resto, há boas razões para suspeitar que ele era niilista, apenas movido, no fundo, por uma insaciável vontade de poder. Ora, sendo a cultura, para muita gente, depois da "morte de Deus", o sumo Bem, como poderia ser culto este homem no qual, mais do que em qualquer outro, terá encarnado o Mal? Não obstante, lá que a seu modo ele foi bastante culto - muito mais, em todo o caso, do que grande parte dos nossos actuais políticos -, eis o que se me afigura inegável. Não pretendendo impor esta convicção aos meus leitores, expor-lhes-ei três diferentes posições acerca deste assunto, todas defendidas por autores com os quais por mais que se discorde muito se aprende. A primeira é dos que julgam que ele era , culturalmente falando, um filho das ervas. Ilustre representante desta tendência é Konrad Heiden, primeiro grande biógrafo do chefe nazi, que escreveu quando este ainda vivia (v. The Führer, Robinson Publishing Ltd., Londres 1944) e a quem se deve a ideia, depois retomada por Hannah Arendt, de que o nazismo foi uma aliança entre intelectuais e a plebe. Heiden considera Hitler "um nada humano", um "objecto"; e, ainda, "o vazio (...) disfarçado de homem (...) um destes homens sem qualidades (...) desprovido de cor a ponto de se tornar invisível", artista falhado e com poucos estudos, procedente de Viena onde vivera na "mais sórdida pobreza", em albergues para miseráveis apenas frequentados por "vadios, bêbados e gente assim". Mas era um homem do povo, "conhecedor do seu coração" e habitado por um milagre o milagre da sua voz "verdadeira epítome de poder, firmeza, autoridade e vontade (...) rugido da natureza inanimada mas acompanhado por (...) humanas inflexões de amizade, raiva ou desprezo". Definido pela contradição "entre a lamentável aparência e a poderosa voz", era além disso dotado de " uma mente política" e, em suma, um génio contraditório inexplicável como todos os seus pares, "de Moisés a Napoleão". Muitos anos depois, Jean-Marie Domenach (em Le retour du Tragique, Paris, Seuil, 1967, v.cap. II 4 Hitler et l'absence) situa-se na mesma linha. Contrariamente a Estaline, figura de relevo que enche o palco, "dir-se-ia que Hitler não existe, (...) não representa nada, não se enraíza numa tradição, não encarna uma ideia..." De acordo com Domenach, só o seu vazio "aspirava as multidões desenraizadas", e além disso desesperadas, que nele viram um ser como elas humilhado mas capaz de as resgatar. "Apoteose do homem sem qualidades pressentido por Kafka e Musil", havia nele "uma espécie de génio", capaz de agudas intuições políticas e estratégicas, bem como de se servir de todos os recursos da língua alemã, que lhe fornecia, a par de "estalos de chicote (...), longos vocábulos vagos com que inebriava os ouvintes". Mas cultura? Bah! Certos argumentos de Nietzsche inspiraram o estilo hitleriano, mas outras e mais abundantes passagens do filósofo antes serviriam para o combater. Ao contrário de Mussolini, Hitler não terá tentado "edificar uma doutrina coerente do Estado". De resto, o nazismo terá sido " rejeição da própria inteligência (e) das categorias da razão...". A eficácia de Hitler enquanto "tentador e sedutor" (expressão é de Hermann Broch) que subjugou a Alemanha não foi fruto do acaso mas também nada terá tido a ver com a cultura pessoal do Führer; representando, sim, se bem entendo o autor francês, o misterioso encontro do seu génio com "uma fibra da história alemã". Para a semana começarei pelo extremo oposto, resumindo um autor australiano recente, para o qual Hitler foi muito culto, que obrigou Wittgenstein a bater-se teórica e praticamente contra ele durante dezenas de anos; e contemplarei depois o que dizem historiadores (Fest) e (Kershaw) cuja posição é mais equilibrada mas não inteiramente convincente".

CENTO E OITENTA E UM

João Gonçalves 10 Mai 05

Boaventura Sousa Santos, uma espécie de eminência parda da "sociologia portuguesa" - isto existe? -, arrasta-se há anos à frente de uma coisa chamada "observatório permanente para a justiça". Presumo que o referido "observatório", na sua inefável beatitude, produz documentos sobre o aparelho judiciário nacional e sobre as "estratégias" a seguir pelo poder político no sentido de o dito "aparelho" poder servir melhor o bom povo. Ao que estimo, depois de acompanhar parte do debate na RTP sobre a justiça, de muito pouco têm servido as "análises" do prof. Boaventura e do seu "observatório". Eu tento manter-me prudentemente afastado destas questões, apesar de ser jurista. Maçam-me e não me interessam profundamente. A elas prefiro, sem pestanejar, quatro episódios seguidos da série "Sexo e a Cidade". Talvez por isso os meus preclaros colegas me achem "complicado" e fora do registo "sério" que a nobreza do direito recomenda. Eles tomam-se, imagine-se, por subtis. O prof. Boaventura, que para sua felicidade não é jurista, deixou cair um dado interessante no programa. Abriu um rolo de papel que trazia e no qual se desenhavam os 181 - cento e oitenta e um! - actos processuais que normalmente são praticados num "processo ordinário". Este escandaloso número que nos coloca apenas uns míseros metros adiante do Burundi, é bem o espelho da mediocridade burocrática, formalista e anti-democrática que domina a justiça portuguesa. Cheia de vícios corporativos, atafulhada de reverências inócuas e balofa nos procedimentos, a "justiça" portuguesa falhou os trinta e um anos de regime democrático. E isto é tanto mais grave quando ela devia ser precisamente um dos seus pilares. É por isso que eu aplaudo a técnica dos "pequenos passos" que este governo aparentemente está disposto a seguir. Anos e anos de porfiados estudos, "diagnósticos", "pactos" e parvoíces do género deram em nada. Os juristas, como se sabe, são os maiores especialistas em onanismo. Pedir-lhes que "reformem" ou que "se reformem" é pedir o céu. Os cento e oitenta e um actos processuais a que aludiu o prof. Boaventura representam a glorificação da inanidade anti-cidadã que, por manifesta generosidade, se apelida de "justiça". Deus me livre e nos livre de tropeçar nela alguma vez.

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