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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O PATHOS DA CULTURA

João Gonçalves 31 Mar 05

Não foi só nas chamadas "áreas nobres" da governação que alguns hesitaram e, por fim, recusaram, assumir determinadas funções. Também na Cultura houve quem não abdicasse do seu "conforto" e da sua rotina por um projecto mais ousado e politicamente mais sustentado para o sector. É o que dá "fazer contas" ou, melhor, ter medo de as de ter de fazer. É, como dizia o outro, a vida. Lembrei-me disto quando li este texto de Eduardo Prado Coelho (anda a aparecer muito por aqui talvez porque voltou a estar em grande forma), "Uma situação difícil". Depois não se queixem.

UM LIVRO

João Gonçalves 31 Mar 05

Hoje, 31 de Março, às 19 horas, na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias, no Campo Pequeno, em Lisboa, é lançado o segundo volume de "Tradição e Revolução", de José Adelino Maltez, abrangendo o período que vai de 1910 a 2005. A apresentação do livro será feita por Marcelo Rebelo de Sousa (informação via Paulo Gorjão).

RECENSEAR SARTRE

João Gonçalves 30 Mar 05



Para quem não saiba, a França - e algum "mundo" intelectualmente vivo e sério - prepara-se para comemorar os cem anos de Jean-Paul Sartre. Os franceses não costumam brincar nestas coisas e levam a sério a memória dos seus maiores. Foi assim, por exemplo, com Malraux em 1996. Havia Malraux por todo o lado, nas ruas, nas livrarias e no metro de Paris nesse Novembro frio. Chirac colocou-o no Panteão. Em Junho chega a vez de Sartre. Eu embirro profundamente com a deriva estalinista do homem e com o seu esquerdismo tantas vezes insuportável. A sua figura também não era propriamente do mais agradável à vista. Nada disto porém me importa perante a grandeza da sua obra e perante o deslumbramento em que consiste a sua escrita. De longe, prefiro a sua ensaística - filosófica e literário-filosófica ao resto - a que junto esse livrinho extraordinário que é Les Mots. Estou curioso para ver o que é que os nossos jovens escribas "liberais" e outra intectualidade "orgânica" da direita e da esquerda irão escrever acerca de Sartre. Para já, Eduardo Prado Coelho, no Público, dedicou dois "fios do horizonte" a Sartre. Com a amigável vénia, e para que se não percam na voragem virtual do site do jornal, aqui os deixo, antecipando de alguma forma o mais que seguramente me apetecerá escrever ou colocar no blogue sobre Sartre até Junho.


O intelectual dos intelectuais (1)


por Eduardo Prado Coelho


Estava na praia, em São Martinho do Porto. Tinha 16 ou 17 anos. Todas as manhãs chegava ao café por volta das nove e meia, com jornais e um livro. Alguns desses livros eram volumosos. Por exemplo, O Ser e o Nada e, mais tarde, a Crítica da Razão Dialéctica, ambos de Sartre. Antes de ir para praia por volta do meio-dia, lia páginas sucessivas, procurando compreender, o que nem sempre era fácil.Mais tarde, a Europa-América convidou-me a traduzir um dos livros de ensaios, Situações. O que fiz com o prazer de descobrir uma escrita vertiginosa, um sentido da estética da linguagem, embora Sartre visasse mais a transmissão da mensagem do que o prazer do significante. Mas Situações vinha-me explicar que um escritor está sempre no meio da história, confrontado com o conflito essencial da sua época: para ele, a oposição entre socialismo (que em dada altura desastradamente identificou com a URSS) e capitalismo (fundamentalmente, os EUA). Sartre escreve admiravelmente, mas não é com a escrita que se preocupa. Um famoso debate perguntava: "Que é a literatura?" E acima de tudo nós íamos aqui encontrar uma dessas noções que tiveram a sua época: o compromisso - ou, se preferirem, l"engagement. Mais do que o homem da liberdade, o homem em que o para-si fazia sentido libertando-se do em-si, Sartre foi para nós, envolvidos na ideia de esquerda, o homem do compromisso. E nesse sentido foi o intelectual - ou melhor, o intelectual dos intelectuais. O modo siderante como argumentava (e as suas polémicas com Camus, Merleau-Ponty, Aron, ficaram famosas) parecia não ter equivalente. Os livros de filosofia que escrevia pareciam totalizar a cultura e história do seu tempo. A política era nele uma paixão permanente. Nas manhãs de praia, ouvindo o ruído das ondas, tinha a sensação de que ele pensara tudo e de que ele dera um sentido a tudo.Depois, vieram os tempos das estruturas, isto é, aqueles em que o sujeito não imaginava os possíveis da história, mas aparecia como um efeito de superfície de um processo obscuro em que as marcas do sentido iam operando como se fossem máquinas. Não se falava em sujeitos que desejam, mas em máquinas desejantes. Até que um dia Derrida escreveu sobre Sartre em Les Temps Modernes. E antes Deleuze tinha escrito sobre ele. Michel Foucault tinha declarado numa entrevista de 66 a Madeleine Chapsal: "Fizemos a experiência da geração de Sartre como sendo uma geração certamente corajosa e generosa, que tinha a paixão da vida, da política, da existência. Mas para nós descobrimos outra coisa, uma outra paixão: a paixão do conceito e do que eu chamaria "o sistema"."O que é interessante, e resume a segunda metade do século XX, é que Sartre e Deleuze, e ainda Foucault e por fim Derrida pareçam hoje encontrar-se na figura do intelectual. Mas Sartre foi certamente o intelectual dos intelectuais.


Sartre (2)


Gilles Deleuze escreveu nos seus "Dialogues" com Claire Parnet: "Na Libertação permanecíamos bizarramente apanhados na história da filosofia. Simplesmente entrava-se através de Hegel, de Husserl e de Heidegger. Precipitávamo-nos como cães enraivecidos numa escolástica pior do que a da Idade Média. Felizmente havia Sartre. Sartre era o nosso Exterior, era verdadeiramente a corrente de ar do pátio (e era pouco importante saber precisamente quais eram as suas relações com Heidegger do ponto de vista de uma história por vir). Entre todas as possibilidades da Sorbonne, era ele a combinação única que nos dava a força para suportar a nova ordem restabelecida. E Sartre nunca deixou de ser, não um modelo, um método ou um exemplo, mas um pouco de ar puro, uma corrente de ar que o acompanhava quando vinha do Flore, um intelectual que mudou singularmente a situação do intelectual. É estúpido perguntarmos se Sartre é o princípio ou o fim de alguma coisa. Como todas as coisas e pessoas criadoras, ele está no meio, cresce pelo meio."Aqueles que viram o filme que passou no Instituto Franco-Português e também, numa versão diferente, na Fundação Calouste Gulbenkian (com salas à cunha, o que prova que Sartre não está esquecido) terão visto sobretudo quartos despojados, como se Sartre fosse um monge com a Plêiade ao fundo. Quase não havia livros. Uma secretária simples, reduzida a uma tábua de madeira, um divã austero, uma forma reduzida e displicente de vestir. Sartre vai à rua e procura comprar jornais, seja qual for. Percebe-se que é um fanático da informação - e isto num tempo em que apenas havia rádio, e se aguardava por esse magia insólita que é a televisão. Estava longe de ser bonito ou sedutor. E contudo ele foi um desses homens rodeados de mulheres, a começar pela "sartreuse", como se poderia chamar marialvamente a Simone de Beauvoir. Esta tinha um pensamento duro, e uma escrita rude e sem recortes. Mas ela e Sartre constituíram um desses casais míticos do século XX. Cada um tinha amantes, e, no caso de Simone, havia homens e mulheres. É famoso o seu caso com o romancista americano Nelson Algren (com quem amainou o seu feminismo e teve mesmo atitudes de inesperada condescendência). Às vezes Sartre e Simone trocavam amantes. Mas tiveram um princípio que suscitou o espanto e admiração de várias gerações: defenderam uma relação fundada numa transparência absoluta. Porque não há em Sartre espaço para o inconsciente. Num dos seus textos, com dimensão autobiográfica, Sartre escreveu: "As nossas relações pareciam superiores em valor, em carácter essencial, a todas as que eu tinha tido com outros homens e outras mulheres, na mesma época. É claro que era machista, mas, quando encontrei Simone de Beauvoir, tive a impressão de ter as melhores relações que se pode ter com alguém. As relações mais completas. Não falo da vida sexual e da vida íntima. Falo também da conversa ou da discussão a propósito de uma decisão importante da vida."

CARRILHO

João Gonçalves 30 Mar 05

O PS anunciou os seus candidatos às principais câmaras. Não sei se Assis é uma boa escolha para o Porto. Não sou de lá. Para a minha cidade, no entanto, foi indicado o candidato certo, Manuel Maria Carrilho. Num artigo da semana passada disse sucintamente o que pensava sobre o assunto e sobre o ainda não certo candidato. Retiro a parte "datada" e recordo o que ali escrevi:


"(...) Carrilho não é um político sensaborão, "fácil", acomodado a rotinas partidárias ou conformado com as suas ortodoxias e rituais. Tem a seu crédito uma acção política minimamente estruturada num sector quase sempre politicamente adormecido - a Cultura - e legitima a sua ambição num propósito igualmente mobilizador para a cidade de Lisboa. A sua altiva e "rara" palavra, embora límpida e objectiva, dificilmente colhe no terreno partidário básico, pouco dado a sofisticações, e tantas vezes imerso num autismo contentinho e falsamente solidário. E tem sobre muita gente a vantagem de pensar, o que, para a "aparelhistica" mais primária, raramente serve. Não será, por isso, "popular". Eu, contudo, julgo que que ele poderia protagonizar uma candidatura inovadora, com apoios diversificados, para fazer de Lisboa um espaço vivível, inteligente e cosmopolita. Para já, e à distância destes seis meses, ele é seguramente o melhor candidato. Pelo menos, é o meu."


Ignoro - e porventura ignora ainda o PS - se esta candidatura se apresentará "solitária" ou "solidária", com entidades partidárias ou outras à sua "esquerda". Cabe a Carrilho sozinho, porém, apresentar a sua "plataforma" e o seu programa. Quem quiser que o siga.

AVANTE...

João Gonçalves 30 Mar 05

...camarada! Força!...

LER OS OUTROS

João Gonçalves 30 Mar 05

Como eu sei que o JPP também gosta do Durrell, esta sua "forma particular deserto" diz do mesmo por outras palavras.

UMA FORMA PARTICULAR DE DESERTO cresce nestes dias. A normalidade? O fim dos problemas? O governo finalmente ideal? A graça do estado de graça? Os noticiários televisivos dedicam-se às doenças, entre o alarmismo e o caso humano. Uma lontra nasce em directo. Volta-se ao circo, agora a sério, pelo pitoresco. Os ecologistas assumem o primeiro plano dos grandes problemas nacionais: os animais do circo são maltratados? Três golfinhos apareceram mortos numa praia. Crime ou petróleo? Lá para o Norte fazem-se os folares, lá para o Sul a chuva acabou com a seca. O futebol continua sempre com o mesmo interesse, parece que também normalizado.Pobres daqueles que duvidam de tanta fartura. Deviam era estar contentes e fazer férias longe, esquecer o fim do Pacto de Estabilidade, esquecer a "tenebrosa" directiva Bolkestein, esquecer as estranhas manobras à volta da Alta Autoridade para a Comunicação Social acerca da compra do grupo Lusomundo, entregar o país ao humor e às “celebridades”. O reino do bem voltou. Mostrem-se agradecidos e dediquem-se às lontras bebés.

O REINO FLUTUANTE

João Gonçalves 30 Mar 05

Apeteceu-me este título velhinho do Eduardo Prado Coelho, lembrando-me que era aí, num hipotético e virtual "reino flutuante", que eu queria estar. Preferencialmente rodeado das personagens-fracasso de Lawrence Durrell construídas no seu Quarteto de Alexandria. Não me comovem excessivamente os bem sucedidos e os contentinhos da vida. Desprezo a superficialidade banana do "homem médio" e a alegria pateta dos que esperam ardentemente pela sexta-feira para um jantar frívolo entre "casais". Do que eu realmente gosto é da nobreza do fracasso e da erosão do falhanço. No último livro do Quarteto, Clea, a dada altura Justine, que tinha desaparecido logo no primeiro livro, diz qualquer coisa como isto: "vontade de engolir o mundo". É isso que eu sinto. A maior literatura não é feliz e, como diria Pessoa, tem a tremenda consciência disso. Não perceber isto - é a vida que verdadeiramente imita a arte e não o contrário - é andar por cá a ver passar os comboios. Talvez por isso Camus tivesse escrito que o suicídio era a única questão filosófica. Terminado o circo da nossa vida pública, tendemos a voltar-nos para o espelho. Eu não gosto minimamente do que vejo. Tenta e fracassa. Tenta outra vez e fracassa melhor, mandava o Beckett. Eu concordo com ele. Tento e fracasso. Tento outra vez e fracasso sempre melhor.

EM PAZ

João Gonçalves 27 Mar 05

Deve andar por perto o congresso do PSD. As coisas chegaram a um ponto tal que, apenas três anos volvidos sobre o poder "absoluto" de Barroso, o Pombal - parece que é aí que tem lugar o conclave - recebe um ex-fulgurante Santana Lopes e duas figuras menores da nomenclatura partidária para disputar a liderança. Aquele que ainda há um ano era o partido do poder, chega ao Pombal envergonhado e reduzido praticamente a escombros às mãos de uma combinação entre dois "amigos de Peniche", Santana e Barroso. É difícil ter sido tudo tão mau em tão pouco tempo. Agora, na tentativa infantil de "dar uma volta a isto", os "intelectuais orgânicos" da direita querem "refundá-la". Já apareceu o inevitável mito Borges, acompanhado por uma rapaziada comprometida com todos os passados verosímeis e inverosímeis do PPD/PSD. Os "comentadores" tecnocratas e os tais intelectuais orgânicos conseguem ver em Borges o que ele manifestamente não tem: densidade política. E empurram o vazio que ele representa para a frente como se dali viesse, agora ou daqui a uns anitos, a salvação. O que se salva é que aparentemente Borges tem a noção daquilo que vale e deixa a coisa para "profissionais", leia-se Marques Mendes. Ele, modesto, limita-se a "marcar posição" com o seu pequeno rebanho de "zés-sempre-em-pé". No meio desta trapalhada "refundadora", os inimigos de estimação de Cavaco Silva - a tal "intelectualidade orgânica" - persistem em arrastá-lo para esta lama. Volta não volta, enchem a boca com o seu nome, ora na defesa hipócrita da sua candidatura presidencial, ora contra ela. Se alguém terá de se arrastar atrás da candidatura de Cavaco é esta indigência política e nunca o contrário. Cavaco já voa por cima desta miséria há muito tempo e jamais se comprometerá com ela. Não esperem de Cavaco qualquer gesto "federador" de desgraças alheias. Podem esperar sentados os que pensam que a risível "refundação" da direita virá do palácio de Belém. Cavaco terá legitimamente mais que fazer e suspeito que não lhe desagradará a parelha com Sócrates. Borges e tutti quanti podem continuar entretidos com os jogos florais que animarão o PPD/PSD nos próximos tempos. O PP nem sequer entra nesses jogos, desfeito no incómodo de partido unipessoal. Em suma, Sócrates, para nosso bem, pode governar em paz.

SE CONDUZIR, NÃO CONDUZA

João Gonçalves 26 Mar 05

Com tantas restrições, com tantas proibições e com a exigência de ornamentos coloridos para exibir no automóvel, será que o novo Código da Estrada nos deixa conduzir ?

ASSIM NA PAZ COMO NA GUERRA

João Gonçalves 26 Mar 05

O texto que se segue foi publicado por Mario Vargas Llosa no "Diario Las Americas" a 6 de Março passado, em homenagem ao amigo e escritor entretanto desaparecido, Guillermo Cabrera Infante. Apareceu ontem traduzido no suplemento DNA do Diário de Notícias.

Así en la paz como en la guerra

por Mario Vargas Llosa

El día que Guillermo Cabrera Infante murió yo estaba en el sur de Chile, afiebrado, aturdido por los antibióticos, y la bronquitis me había dejado afónico de manera que ni siquiera pude hacer una declaración a la prensa en homenaje a su memoria. Pero esa noche las imágenes de más de cuarenta años de amistad me mantuvieron en un duermevela angustiado. Recordaba cuando lo conocí, en París, todavía un diplomático al servicio de la Revolución, traspasado de dudas y de conflictos interiores; la broma que me gastó, cuando le dimos el Premio Biblioteca Breve a Tres Tristes Tigres (que en manuscrito se llamaba Vista del amanecer desde el trópico) haciéndose pasar por ¨un tal Onelio Jorge Cardoso¨ que me llamó a la Radio-Televisión Francesa para hablarme pestes de Cabrera Infante, y la increíble casualidad de que al exiliarse en esa ciudad de tantos millones de habitantes que es Londres viniera a vivir en un sótano que estaba apenas a un centenar de metros de mi casa, en Earl´s Court. Pasó unos años muy difíciles entonces, convertido en un apestado integral, al que, al mismo tiempo que la España franquista le negaba la residencia por sus antiguas vinculaciones con el régimen de Fidel Castro, toda la progresía hispana y latinoamericana volvía la espalda o escarnecía. La satanización de su persona y de su obra fue tan dura que estuvo a punto de perder el equilibrio mental. Lo salvaron la literatura y Miriam Gómez, esa extraordinaria mujer sin la cual Guillermo no hubiera resistido las cuatro décadas de exilio, el acoso y las infamias de sus colegas, ni hubiera vuelto a escribir una línea desde que terminó Tres Tristes Tigres, su obra maestra. Nadie lo hubiera dicho en aquellos años sesenta, los del swinging London, donde él parecía vivir a sus anchas, moviéndose como pez en el agua en ese mundo de locuras psicodélicas, música pop, brumas de marihuana y ácido lisérgico, happenings, viajes artificiales y cine experimental, que él documentaba en crónicas espléndidas, chisporroteantes de humor, imaginación y retruécanos. Era una de las venas de su personalidad literaria, la joyciana, la del juego y la prestidigitación lingüística, que en los años siguientes se exacerbaría hasta extremos a veces delirantes. Una vena que ocultó y acabó por borrar la otra, la del escritor realista y comprometido de su primer libro, la colección de cuentos de Así en la paz como en la guerra, que yo leí con admiración que mi memoria conserva intacta, por el poder de síntesis y la precisión matemática del estilo, el aliento entre heroico y trágico que transpiraban las historias y las viñetas que las intercalaban, un mundo que recordaba al mejor Hemingway, de milicianos austeros e idealistas románticos, de una gesta popular todavía no envilecida por la ideología ni el poder. Por razones obvias, Cabrera Infante prefirió olvidar estos relatos de su primera época, que ahora, sin duda, se reincorporarán de todo derecho al conjunto de una obra, la que, algo que ignoran sus más jóvenes admiradores, consta también de una rica vertiente realista y comprometida. Al mismo tiempo que era el cronista incomparable del Londres de los Beattles, Cabrera Infante recreaba la Habana prerrevolucionaria, la de los casinos, la música tropical, la alegría, la miseria, los millonarios y los gángsters y una desalada sensualidad, con tanta nostalgia, fantasía y tan fuerte impronta personal, que, más que recrearla, terminó por inventar una ciudad. Esa Habana es ahora tan suya como la Dublín de Joyce, el Trieste de Svevo, la Comala de Rulfo o el Macondo de García Márquez. Esa ciudad que bañan los cálidos rumores del mar y la estruendosa voz del personaje de Ella cantaba boleros, donde realiza su desenfrenado aprendizaje sexual el protagonista de La Habana para un infante difunto y donde transcurren los hilarantes episodios de Vista del amanecer desde el trópico debe más a la invención, a la melancolía, a la literatura y a la destreza narrativa de Cabrera Infante que a la realidad histórica, aunque, como ocurre siempre con las grandes creaciones literarias, esa ciudad hecha de sueño y de palabras terminará por imponerse a las futuras generaciones de lectores como la única que existió. Esa Habana que él fabricó con su talento, en sus cuentos, novelas y crónicas nadie podrá quitársela ya a Cabrera Infante, como le quitaron la otra, la real, un despojo al que nunca se resignó, que abrió en su vida una herida que nunca dejó de supurar, una ausencia que a la vez que alimentaba su vocación y le sugería imágenes, personajes, diatribas, evocaciones, recuerdos y ensoñaciones a menudo deslumbrantes, lo fue matando a pocos de nostalgia, de amargura y de frustración a lo largo de todo su exilio. Decir que amaba entrañable, enfermizamente a su país, a la ciudad en la que no había nacido pero que adoptó, no sería suficiente, pues ese verbo, usado así, inevitablemente se malea y sugiere las cursilerías patrioteras del nacionalismo. Era algo mucho más visceral y personal que el patriotismo, era una temperatura, la densidad del aire, ciertos colores del cielo y, sobre todo, una música verbal, el calor de unos cuerpos y el entramado laberíntico de anécdotas, personajes, bromas y tragedias que habían hecho de Guillermo lo que era y lo que en ningún caso aceptó dejar de ser, aquello de lo que el exilio lo privó, dejándolo atrozmente mutilado. Él, que sabía idiomas, que podía escribir en inglés con tanta gracia como en español -lo dijeron los críticos anglosajones al aparecer Holy Smoke- no lo hubiera admitido jamás, y, más bien, en las conversaciones y las entrevistas se jactaba de ser el ciudadano del mundo que en apariencia era. Pero bastaba oírlo, o leer todo lo que escribió, para advertir que, por debajo del cosmopolita, del polígrafo bilingüe, del londinense de los mil juegos de palabras, se agazapaba un exiliado inconforme con su forzado desarraigo, un ser herido al que desesperaba cada día más la sensación de que nunca recuperaría la tierra que perdió. Los últimos años fueron los peores, por la salud deteriorada, las operaciones, las estancias en los hospitales, en Londres, una ciudad que multiplica la soledad más que ninguna otra en el mundo, y la tortura mental que debió ser para Guillermo saber que se moría dejando a Miriam sola y a Cuba todavía en poder de Fidel Castro. La última vez que lo ví, en su piso de Gloucester Road, atestado de libros y videos de películas, me mostró, riéndose, un montaje hecho por él con las últimas apariciones del dictador cubano en la televisión, en las que eran visibles los síntomas de envejecimiento y decadencia. Bromeaba que, a juzgar por las imágenes, aquella pesadilla se iba por fin acabando, pero debajo de esas bromas había algo muy serio, una ilusión, una esperanza que probablemente debió acompañarlo hasta sus últimos instantes de lucidez. Cuando Cuba sea por fin libre los cubanos deberán siempre recordar que nadie fue más consecuente, constante y radical en su rechazo de la tiranía que asola la isla hace 46 años, como Cabrera Infante. Nunca hizo la menor concesión, nunca optó por callar, siempre que tuvo ocasión se jugó entero para hacer saber al mundo la realidad totalitaria, el envilecimiento de las ideas y de los valores y la mentira sustancial sobre la que se sostiene el régimen de Fidel Castro, y para denunciar los sufrimientos, los atropellos y los abusos de que es víctima el pueblo cubano. Eso, ahora, luego de la caída del muro de Berlín y el naufragio universal del comunismo, es muy fácil, se ha convertido casi en un cliché en boca de politicastros. Pero durante muchos años, atreverse a sostenerlo era ir contra la corriente y condenarse a la cuarentena literaria e intelectual, porque en ningún otro ámbito -más aún que en el político- la falsificación de la realidad cubana y la mitificación tramposa de lo que ocurría en Cuba fue tan poderosa como entre los escritores y supuestos pensadores. Dicho esto, conviene precisar que Guillermo Cabrera Infante no fue un político, ni siquiera un intelectual interesado en el debate de ideas sobre asuntos sociales. Contrariamente a una efigie que han levantado de él sus pronunciamientos, polémicas, condenas y diatribas contra la dictadura, Cabrera Infante fue un escritor para el que la literatura y el cine ocupaban gran parte de la vida, y acaso la hubieran colmado totalmente si los dioses no hubieran condenado a su país a albergar la más longeva dictadura de la historia de América Latina. Su rechazo del castrismo fue moral antes que político y por eso nunca quiso identificarse con ninguna de las corrientes o tendencias de la oposición a la dictadura cubana. Hay que recordar que, muchas veces, criticó con severidad a distintas formaciones de exiliados por su pequeñez de miras, sus disputas cainitas, y por perder el tiempo en operaciones de política de campanario, descuidando el objetivo primordial. Las críticas de cine son una parte inseparable de la literatura de creación de Cabrera Infante. Llamarlas ¨críticas¨ es ya desnaturalizarlas, porque ese membrete da la idea de unos textos cuya finalidad es analizar e interpretar unas obras a fin de hacerlas más accesibles al espectador. En realidad, todas las críticas de cine de Guillermo, pero sobre todo las reunidas en esa otra maravilla de libro que es Un oficio del siglo veinte, son creaciones literarias, verdaderas ficciones, elaboradas utilizando la materia prima de unas películas que, al pasar a esos textos, se vuelven narraciones literarias, relatos tan sorprendentes, amenos y brillantes por su humor, sus juegos retóricos y sus hallazgos, como los cuentos y novelas que escribió. Como Manuel Puig, otro escritor que hizo literatura con el cine, Cabrera Infante se servía de las imágenes de las películas como otros escritores se sirven de sus recuerdos familiares o de los hechos históricos para construir una realidad que era autosuficiente, que existía y persuadía a los lectores de su verdad en función de sí misma. Era fascinante oírlo hablar de las películas, que conocía con una minucia de detalles asombrosa, evocar diálogos, recordar imágenes, oírlo contar anécdotas de los actores, en sus roles profesionales o en sus vidas privadas, y comprobar que en esas expansiones se zambullía de veras en la ilusión en cuerpo y alma, como lo hacen los niños. Había sido un periodista excepcional y algo de ese oficio de improvisados y repentinos le quedó siempre, pues le bastaban tres o cuatro frases para poner a sus oyentes en situación y capturar su atención y deleitarlos con una salida inesperada o una ocurrencia genial. Aunque, debido a los golpes y a las traiciones, se había vuelto algo desconfiado y receloso, una vez vencida su inicial resistencia, podía ser la persona más cálida y afectuosa, que abría su casa y su corazón a todo el mundo, secundado en esto infaliblemente por Miriam, que se las arregló siempre, aun en las épocas más difíciles y ófricas de Londres, para mantener en ese rincón de Kensington el enclave tropical donde uno, nada más entrar, se sentía en casa, aceptado, querido y mimado por esa pareja excepcional. Londres, y en especial algunos lugares como la ¨Bombay Brasserie¨, ya no será lo mismo para mí sin Guillermo Cabrera Infante, ni para nadie que lo tratara, visitara y quedara prendado de su sabrosa plática, de sus desconcertantes salidas, de su generosa humanidad. Queda su obra, por supuesto, que está allí para durar, y seguir ganando lectores y divertir, hechizar, y también enojar, a mucha gente, una obra que expresa como pocas lo que fueron los años del boom, una antigualla ya en estos tiempos tan distintos a los de entonces, en los que Europa y la propia América Latina descubrían que el continente de los dictadores y los mambos era capaz también de producir literatura, y los escritores de por allá venían a Europa a conocerse entre ellos y a asumir su condición de escritores latinoamericanos, unos años de ilusiones, amistad y también fuertes dosis de irrealidad, que no durarían mucho. Pero mientras duraron enriquecieron la vida de todos nosotros. Adiós, vecino.


Guillermo Cabrera Infante (1929-2005)

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