Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

A MÃO ESQUERDA DE DEUS

João Gonçalves 28 Fev 05

Vários plumitivos, numa bizarra confluência de gente dita de "esquerda" com gente dita de "direita", entre os quais se incluem - outros virão em breve - autores de blogues, já partiram em busca do candidato da "esquerda" para Janeiro de 2006. Embalados pelos resultados de 20 de Fevereiro, mas ao mesmo tempo receosos das suas consequências "presidenciais", estes filantropos andam, há já uma semana, profundamente empenhados em zurzir Cavaco Silva mesmo antes - sobretudo antes - de ele abrir a boca. No espaço de apenas uma semana, por exemplo, Mário Soares, em três intervenções distintas, não falou de outra coisa. Noutro registo, Clara Ferreira Alves, a intelectual "santanista" de "esquerda" ou o "historiador" Rui Ramos, à "direita", também se espremeram contra a hipótese "cavaquista". A que se deve então este prematuro e nada original vendaval anti-Cavaco? Ele só existe porque as eleições presidenciais têm como principal e incontornável "pano de fundo" a eventualidade e as potencialidades da candidatura "natural" de Cavaco Silva. E porque, do outro lado, por enquanto apenas está um nada vagamente prometedor. Esse nada é encimado por António Guterres, alguém que aos olhos destes pioneiros não representa a "esquerda". Quando muito, a "não-direita", o que é manifestamente pouco para a célebre soma dos 59%. Contudo, é notório que Guterres anda a ser "testado", embora o seu ar envergonhado de "peço-desculpa-por-qualquer-coisinha" não seja propriamente um estímulo para uma ambição presidencial. Por outro lado, o eleitorado que "fugiu" do PSD para a maioria absoluta do PS também "sabe quem é" António Guterres. E nas "agendas" das outras "esquerdas" dificilmente o seu nome constará expontaneamente ou em primeiro lugar. Este alegre frenesim anti-Cavaco justifica-se, pois, pela necessidade de sublimar este desiquilíbrio paradoxal gerado pelos resultados de 20 de Fevereiro, incapaz, para já, de promover uma "candidatura" aceitável pela "nova maioria". Não a do PS - que é insuficientemente homogénea para eleger um presidente -, mas pela "outra".

MITTERRAND

João Gonçalves 28 Fev 05

É hoje posto à venda em França o livro de Mazarine Pingeot, Bouche Cousue (Editions Julliard), a "memória" da filha "ilegítima" de Mitterrand sobre seu pai. Existe uma vasta bibliografia "mitterrandista" plenamente justificada pela qualidade do objecto de estudo. Com a malícia soberana que o caracterizava, Mitterrand dizia que era o "último Presidente": "depois de mim só haverá administradores". Em parte não deixa de ter razão, da mesma forma que outros desparecidos ou retirados líderes mundiais podiam dizer o mesmo. De facto, os últimos anos têm sido caracterizados pela emergência de criaturas incaracterísticas nas cenas políticas domésticas e mundial. A ascensão do "homem médio" a lugares de destaque não trouxe mais felicidade ao universo. Pelo contrário, banalizou-se o ataque às elites e os povos passaram a estar entregues, de uma maneira geral, à mais confrangedora trivialidade. Mitterrand, um homem da "esquerda", com uma história pessoal e política suficentemente ambígua para ser grandiosa, constitui um dos últimos avatares da política com densidade. A recente descida de Bush à Europa foi uma excelente ocasião para tornar mediaticamente evidente a "qualidade" efectiva dos "produtos" actualmente em uso. A longevidade política de um Blair, por exemplo, já praticamente se confunde com uma sossegada carreira na função pública, feita de compromissos, de amabilidades inócuas e da ausência de melhores alternativas. Ou que dizer da colocação, pela mão dos actuais dirigentes europeus, de um "cinzentão" como Durão Barroso à frente da Comissão Europeia? De Chirac nem vale a pena falar. Por tudo isto, recorrer hoje à memória de Mitterrand pode parecer pura arqueologia política. Não por causa dele, mas essencialmente porque os mais jovens, sem o suspeitarem ou sequer se interessarem, mereciam e precisavam de dirigentes à altura dele. Nas suas contradições, no seu projecto de poder e no seu exercício, Mitterrand não pode deixar de ser uma enorme referência. Depois dele e de outros como ele, como diria Pessoa, faltará sempre qualquer coisa.

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

  • António Maria

    Completamente de acordo.Ontem tive vergonha de ser...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, «plus ça change, plus c'est la mêm...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor