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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

"INTIMAÇÕES DE MORTALIDADE"

João Gonçalves 19 Jan 05

Peço emprestado ao Vasco Pulido Valente e ao seu livro "Retratos e Auto-Retratos" (Assírio & Alvim) este excerto. Com ou sem ironia, é a única reflexão que me ocorre acerca de um assunto que eu não aprecio e que procuro manter longe deste blogue, eu próprio. Mas se está bem dito assim, por que é que hei-de inventar?


Não há transição. A infalibilidade e a confiança perdem-se de repente. Ontem corria tudo bem, hoje corre tudo mal. Ontem não se fazia um erro, hoje só se fazem erros. A pessoa é a mesma: o corpo e a cabeça. As circunstâncias são as mesmas, os outros são os mesmos. Por mais que se procure, nada mudou. Só mudou o efeito que se produz no mundo. Um homem deita-se com o mundo aos pés e acorda com ele às costas. As mulheres fogem, os amigos desaparecem, os telefones desligam-se. Dantes andava-se e esquecia-se. Agora, a vida pára. Repete-se. Um mês é igual ao anterior e ao próximo e ao seguinte. Não acontece nenhuma coisa diferente, só acontecem coisas indiferentes. Por qualquer razão obscura, não se consegue descobrir o sítio onde as coisas acontecem; e elas já não acontecem onde aconteciam.


Um pequeno pânico instala-se. Ao princípio pensou-se que era um estado passageiro, uma época de azar ou de mau jeito. Mas depois o estado não passa, a sorte não vem e o mau jeito continua. Conta-se com angústia o tempo para trás e, a certa altura, conta-se com terror o tempo que sobra. Deixa-se de ter quarenta e três ou quarenta e sete anos e têm-se treze anos até aos sessenta ou dezoito até aos sessenta e cinco. E não será optimismo os sessenta e cinco? E vale a pena? Acontecem coisas aos sessenta e cinco? Não com certeza as que acontecem aos trinta.


Eu penetrei na impropriamente chamada meia idade desta maneira: ou seja, aflito. O céu caiu-me em cima sem aviso. Nestas crises, segundo o costume, as pessoas agarram-se: à família, ao trabalho, às ambições. Reparei que os meus amigos se agarravam. Um a um, consoante a sua natureza, transformaram-se em secretários de Estado, políticos respeitáveis, académicos triunfantes, altos funcionários ou pais extremosos. Vários preferiram a virtude, ideológica ou sexual. Com meritórias excepções, quase todos se encaminharam. Mas precisamente eu não pretendia encaminhar-me. Deus sabe que eu nunca fui assim.

ESTADO DE CHOQUE

João Gonçalves 19 Jan 05

Já tínhamos o famoso "choque fiscal", um dos mais famosos não-acontecimentos do governo de coligação. Depois apareceu o "choque tecnológico" do eng. º Sócrates que, espera-se, se transforme oportunamente em acontecimento. Agora apareceu, pela boca do dr. Mexia - uma espécie, em mau, de António Ferro de Santana Lopes - , o "choque de gestão". Não é, pois, de admirar que o país, abalado por tanto "choque", não passe precisamente desse estado.

LEVANTAMENTOS

João Gonçalves 19 Jan 05

O dr. António Costa, um sólido político, explicou que só a maioria absoluta do PS pode resolver o problema da governação. É assim - continuou - porque não existem condições para "alianças" com a "esquerda" do sr. Sousa ou do dr. Louçã. Com um bocadinho de sorte, ainda vamos ver o eng. º Sócrates a avisar a nação que só aceita governar se lhe for outorgada a dita maioria. Seria, no mínimo, um remake despropositado de Cavaco em 1991 e de resultado mais do que duvidoso agora. Ninguém mais do que eu acha que a maioria é realmente necessária. Pedi-la, no entanto, não se reduz a um mero exercício lexical ou psicológico. Ajuda, de facto, e pouco mais. O eleitorado a quem o pedido primordialmente se dirige já não tem quaisquer ilusões. Precisa de um "mais" que o convença. Entre isso e o partir para a abstenção ou para um voto inútil, o passo é deveras curto. Miguel Cadilhe disse outro dia uma coisa interessante à qual porventura não se prestou a devida atenção. De entre o emaranhado de problemas que impedem que isto ande para a frente, é melhor escolher um, decisivo, e definir uma "meta" razoável e verosímil para o procurar resolver. Nada, pois, de "hiper-realidades" ou de torrentes incontroláveis de "soluções" em que ninguém acredita. De qualquer forma, já não há "soluções felizes" e é este "realismo" que deve ser explicado claramente às pessoas. Se assim for, é possível que a resposta ao "levantamento nacional" solicitado pelo dr. Santana Lopes seja a maioria absoluta do Partido Socialista.

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