Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

LER OS OUTROS - OS NOVOS BÁRBAROS

João Gonçalves 11 Jan 05

.... este Fio do Horizonte de Eduardo Prado Coelho, no Público.

GERAÇÕES

A revista Pública trazia esta semana uma curiosa reportagem com aqueles a quem chamava os "pré-adolescentes". Diversas entrevistas com jovens de 11 ou 12 anos mostravam que a própria divisão entre adolescentes e pré-adolescentes é artificial. Tal como hoje os adolescentes têm comportamentos de adultos. Só que estes adultos são adolescentes retardados, ficam muitos anos em casa dos pais, vivem numa certa dependência económica, e têm condições favorecidas para o exercício da sexualidade. Donde, são pós-adolescentes. Faço-me entender? Eu próprio não estou certo de perceber tudo isto.
Sento-me numa esplanada, ao sol, olhando o mar, e ouvindo com curiosidade e algum espanto as conversas de alguns pré-adolescentes que estão perto de mim. O espanto vem certamente de eu não pertencer, longe disso, a esta geração, e nem sempre entender tudo o que mudou. A sensação que tenho é a de que conversam sobre coisa nenhuma. Ou melhor, conversam sobre formas de comunicação, que passam por três instâncias privilegiadas: o telemóvel, com relações orais e mensagens escritas, a Internet, e a discoteca.
No caso das discotecas, os horários mudaram por completo. Pergunto-me sobre a questão dos efeitos destes ritmos. Como é que chegando a casa às cinco da manhã se consegue ler um livro no dia seguinte? Ou mesmo seguir uma aula? E, no entanto, muitos deles jantam, deambulam pela cidade, acumulam-se à porta dos bares a beber cervejas e a fumar e começam a dançar por volta das duas. Antes disso, a discoteca está ocupada por alguns pares deslumbrados ou sonolentos que murmuram palavras de filmes antigos.
Escutando as conversas destes candidatos à adolescência, concluo que têm um vocabulário sucinto e concentrado em certas áreas temáticas. Que utilizam obsessivamente determinados estereótipos. Que por vezes deslizam para formas que se aproximam do grito ou do grunhido. E que, embora frequentem o cinema, com pipocas e tudo, é a música que emerge como a prática cultural dominante.
Há um aspecto que vale a pena citar. Estes jovens não têm os mesmos rituais linguísticos que nós tínhamos. Na minha geração, a linguagem era um instrumento de sedução em que a rapariga deixava que as palavras a tocassem afectivamente. Aflorar com a mão o joelho trémulo era o mesmo que ir buscar uma citação de um poeta: mostrava-se entre duas pessoas um espaço de encanto e delicadeza. Hoje, rapazes e raparigas falam exactamente a mesma linguagem, feita de piadas algo boçais e convites explícitos. A linguagem não tem zonas secretas nem assimetrias sexuais. Instrumentalizou-se sem invenção nem insinuação. Os códigos amorosos perderam subtileza e requinte.

O INCÓMODO...

João Gonçalves 11 Jan 05

.... é comentar o lapso tropical de Morais Sarmento à porta do Eliseu. Ambas as situações dão mostras de elevado "sentido de Estado".

FOTOBIOGRAFIA

João Gonçalves 11 Jan 05

No seu novo cartaz de campanha, Santana Lopes está "contra ventos e marés". Está, afinal, contra ele próprio.

DO FRIO

João Gonçalves 11 Jan 05

Fui descobrir no Para lá de Bagdade estes versos que entrelaçam a vida e o frio ou, se quisermos, o frio da vida, a vida a frio. Pertencem a Fernando Assis Pacheco, saudoso conversador, amigo das letras e dos outros.

As Putas da Avenida

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios daLorena


mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

  • António Maria

    Completamente de acordo.Ontem tive vergonha de ser...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, «plus ça change, plus c'est la mêm...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor