Segunda-feira, 20.05.13

Ame-o ou odeie-o

 

Depois de amanhã comemora-se o bicentenário do nascimento de Richard Wagner. Devia ter para aí dezasseis anos quando vi O Navio Fantasma, o meu primeiro contacto com Wagner. Praticamente a seguir veio O Anel - uma quase impossibilidade intelectual poder abarcar a densidade "global" daquilo tudo até aos vinte e poucos anos - e, na televisão, a produção Boulez/Chereau para Bayreuth em 1976. No São Carlos, no principio desta década, concebeu-se a versão Graham Vick do Anel cuja metade última acabou por ser exibida após a saída de Paolo Pinamonti da direcção artística do Teatro, em 2007. Agora não há dinheiro e, presumivelmente, a coisa talvez fique pela reposição em ecrã grandote daquela versão (já não era mau). De resto, é preciso sair daqui para ver Wagner que é o que pude fazer nos últimos dez anos. Parece entretanto que saiu um livrinho sobre Wagner e os alemães. E que nesse livro o autor escreve que  «Wagner, ou se adora, ou se detesta, tanto pela música como pela própria pessoa», classificando-o como «um ser monstruoso». Acho que era pessoalmente detestável e, na relação com o formoso Luís da Baviera, um oportunista. Mas talvez sem essas características, e sem essas relações (com as mulheres, nomeadamente), alguma da sua obra teria sido inverosímil e destituída da genialidade que a caracteriza. A beatitude, em geral, só produz idiotia e moleza. É-me pois indiferente que Wagner fosse "monstruoso". Sei que sem ele tudo seria mais difícil do que já é.

Domingo, 19.05.13

A piroseira "recadista"

 

«Portugal vive numa espécie de desassossego, que terá certamente raízes na crise financeira, mas não apenas aí. Sobre os assuntos verdadeiramente importantes, a discussão tornou-se nula. Os factos são inutilidades. A comunicação social parece ter perdido o norte, embrulhada na verdadeira espiral recessiva, a da seriedade, onde cada notícia má tem de ser pior ainda.» Escreve o Luís Naves cheio de razão. Mas a razão do Luís estende-se, como uma espécie de crítica da razão impura, aos "protagonistas" que fornecem habitualmente os pretextos para a vozearia comunicacional. Do poder à oposição - e, convém recordar, cerca de 60 dos quase cem (100!) comentadores são ou foram "actores" políticos do regime -, não há dia ou hora em que não apareça alguém, em texto ou subtexto, a dizer do seu (ou de quem não pode ser tão conspícuo) estado de alma tático, partidário ou, mesmo, "oficioso", quase "de Estado". Era bom que se moderasse esta tagarelice desenfreada, esta piroseira "recadista", esta falta generalizada de alguma gravitas institucional que respeite a vida atormentada das pessoas, a dos verdadeiros "humilhados e ofendidos", e onde se deixe de olhar para os umbiguinhos ridículos de cada um destes nossos nibelungos de trazer por casa. 

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Sábado, 18.05.13

O lugar do morto

Um respeitável hebdomadário faz manchete com um corte "estrutural" de 4% nos vencimentos dos funcionários públicos. Depois, lá dentro, há "quadros" alusivos à matéria particularmente no que respeita a pensionistas da dita função pública. Se isto se confirmar, a "informação" está incompleta. E está incompleta porque os eventuais 4% devem ser acrescentados aos 5, 10, 20 ou mais por cento que entretanto já tinham sido aplicados à "massa salarial" dos trabalhadores públicos a partir de um determinado valor de salário ou pensão. Começou com o Governo anterior e aparentemente continua em nome do "ajustamento" e da "convergência" com os "privados". Mais do que outra coisa qualquer, isto parece querer dizer "empobrecer todos" (presente, futura e retroactivamente) e, na prática, nivelar "por baixo". Com uma nuance relevante. É que os "activos e os aposentados da apelidada função pública ocupam, neste "caminho" salvífico, o lugar do morto.

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A política e a ceifeira de Pessoa

 

«A referência à poesia passa por encarar a política como uma simplificação das coisas complexas, mas uma simplificação honesta», revela Poiares Maduro numa entrevista ao Expresso quando o confrontam com um dito seu no sentido de que "o bom político é uma mistura de cartógrafo, poeta e juiz". Está tudo errado nesta asserção do ministro adjunto, salvo o devido respeito. Apesar de a poesia ser geralmente entendida como um, entre muitos outros, uso possível das palavras, ela não emerge para "simplificar" nada. Pelo contrário, se for boa e não mero versejar infantil - em que, por exemplo, "ama" rima com "cama" no mínimo umas doze vezes no mesmo "poema" ou meros fenómenos da natureza "batem leve, levemente" nos limiares de um "pastoral" grotesco -  é ela própria que "complica" e que nada "simplifica". O doutor Johnson, Wordsworth, Eliot, Empson, Bloom ou o nosso Pessoa fartaram-se, cada um à sua maneira, de explicar o "estranhamento" que decorre do contacto com os chamados poetas" fortes" e nunca perderam tempo com "simplificações". A política, sim, é, por aquilo em que se transformou e por causa dos seus protagonistas, simplificadora, mimética e shallow enquanto o poeta forte será complexo, ambíguo e uncanny - "desfamiliariza" tudo o que até ali era "familiar" através do uso, do alinhamento das palavras. Neste sentido, o poeta é sempre mais "honesto" na sua intrínseca desonestidade que o político porque "finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente". O político estará mais perto da ceifeira que "canta, canta sem razão" porque "canta, pobre ceifeira, /julgando-se feliz talvez". Mas isto é um mero verso e, como é sabido, a poesia não reenvia para lado algum. Muito menos para a política.

Um patriarca para a doxa

 

A escolha de D. Manuel Clemente, actual bispo do Porto, para cardeal patriarca de Lisboa e, por consequência, futuro "número um" da igreja portuguesa, não surpreende. Policarpo há muito que devia ter saído e os derradeiros anos do seu exercício não se recomendam. Bento XVI pediu-lhe que ficasse para além do limite de idade e ele ficou. A escolha do Papa Francisco acaba por ser previsível. D. Manuel Clemente "mundanizou-se" e fala um dialecto chão apesar de escrever muito e, em geral, bem. Está mais sintonizado com o imenso lugar-comum em que se tornou a vivência espiritual nos nossos dias - nem o Prémio Pessoa do Expresso lhe escapou - e corresponde ao que o Papa esperará dos seus cardeais e vice-versa. Autografa livros como Francisco autografa braços engessados o que é sempre um upgrade. Havia uma alternativa chamada D. Carlos Azevedo mas bastou um dichote repelente e oportuno posto a circular no momento certo (e logo desaparecido com a mesma celeridade) para o afastar do patriarcado de Lisboa. Nesse episódio miserável, a hierarquia da igreja portuguesa, bispo do Porto incluído, comportou-se de acordo com o cânone fácil da pusilanimidade. Mas estes aspectos "terrenos" da coisa interessam-me pouco e em nada alteram a minha relação com a fé. O meu lastro, nesta matéria, é o de Paulo VI, João Paulo II e, acima de tudo, de Bento XVI. Fico confortável.

Sexta-feira, 17.05.13

E se melhor for impossível?

 

Não tenho muito a acrescentar ao que escrevi o ano passado sobre a possibilidade de adopção (ou de co-adopção) de crianças por casais do mesmo sexo. Em suma, os maiores partidos andaram bem em conceder liberdade de voto aos seus deputados e eu votaria favoravelmente o projecto da deputada Isabel Moreira ou outro qualquer que consagre a adopção plena nesse contexto parental. Defendo, sem hesitações, a adopção seja por quem for que prove ter condições para melhorar a vida de crianças que estariam bem pior sem essa possibilidade. Os conceitos de "pai" e de mãe" -e, até, de "família" - estão há muito destruídos nos arquivos dos tribunais que foram, anos e anos a fio, de família dita "tradicional". A maior parte dos autos testemunham, afinal, como os "princípios" são negociáveis e, por tabela, os filhos também ao lado das casinhas e dos automóveis. Isto onde há "família". Imagine-se onde nunca houve.

 

Nota: Os filhos da Jodie Foster, na foto, são biologicamente dela e da então companheira dela, Cydney Bernard, que os co-adoptou como seus.

 

Nota2: O projecto encabeçado pela deputada Isabel Moreira foi aprovado. Um módico de civilização.

 

Nota3: Vale a pena recordar umas palavrinhas de Richard Rorty por causa de eventuais acessos trogloditas: «Uso o termo "ironista" para designar o tipo de pessoa que encara frontalmente a contingência das suas próprias crenças e dos seus próprios desejos mais centrais - alguém suficientemente historicista e nominalista para ter abandonado a ideia de que essas crenças de desejos centrais estão relacionados com algo situado para além do tempo e do acaso. Os ironistas liberais são pessoas que incluem entre esses desejos infundáveis a sua esperança de que o sofrimento venha a diminuir e de que a humilhação causada a seres humanos por outros seres humanos possa terminar.» Este tipo de coisas tem a ver com isto, com a "esperança de que o sofrimento venha a diminuir e de que a humilhação causada a seres humanos por outros seres humanos possa terminar."

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Quinta-feira, 16.05.13

Afunilados



«O recente caso Rogoff/Reinhart, e as suas teorias sobre a ligação entre o crescimento económico e a dívida pública (usada para caucionar a política austeritária dos últimos tempos), é muito esclarecedor sobre as areias extremamente movediças da "ciência" económica, em que permanentemente se confundem três coisas bem distintas: os elementos e as correlações estatísticas, as causas dos factos e as razões dos acontecimentos. O mundo de hoje exige outras visões da economia, onde o pluralismo tem de ser a regra: um pluralismo crítico que ofereça aos estudantes (e aos cidadãos em geral) uma perspectiva global sobre a história e os procedimentos nucleares da disciplina. Um pluralismo doutrinário que apresente as várias linhas de pensamento económico existentes, promova a competição explicativa entre as suas argumentações e ofereça uma diversidade de pontos de vista. Um pluralismo interdisciplinar, que valorize os contributos de outras disciplinas e saberes na compreensão e tratamento dos problemas do mundo de hoje, que são cada vez mais polifacetados, interdependentes e complexos. Tudo isto exige, como comecei por dizer, mais dissenso do que consenso. Exige sobretudo que se compreenda que o consenso de que falam os zelotas do financismo divino é um mero garrote para, justamente, impedir que surjam e se trabalhem ideias e propostas alternativas àquelas que, apesar de falharem os seus proclamados objectivos, continuam, todavia, a dominar impunemente o mundo. É pena, pois, que por cá não se tenha dado a devida atenção ao relatório coordenado pelo prof. José Mattoso em 2011, no âmbito do Conselho Científico das Ciências Sociais da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que apontava para a degradação do ensino e da investigação da economia em Portugal. Lá se pode ler "que a ausência de pluralismo na ciência económica não resulta directamente, longe disso, da maior capacidade explicativa da visão mainstream. No caso da economia, tem-se mesmo popularizado um termo, o "pensamento único", para traduzir o afunilamento e ausência de pluralismo que tem afectado nas últimas três décadas a investigação nesta área científica, com consequências negativas evidentes sobre o respectivo progresso.»

 

M.M.Carrilho, DN

Quarta-feira, 15.05.13

A suspensão do juízo

 

Hoje, por definição, é mais um dia glorioso de suspensão absoluta do juízo (cada vez mais me parece que é todos os dias e a todos os níveis). Começou ontem com umas ridículas transmissões em massa a partir de Amesterdão. Agora é impossível sintonizar qualquer canal de televisão português até, pelo menos, o fim de semana. Aliás, a segunda mulher que mais grita em Portugal, depois de Ana Gomes, a D. Júlia Pinheiro, não se cansou de exibir a referida suspensão, manhã fora, na SIC. Infelizmente a ventania não a levou como está aparentemente a levar autoctónes felicíssimos da vida a caminho da Holanda. Mas, enfim, cada um tem o que merece e talvez sejamos uma "riqueza" de país a avaliar pela azáfama palonça no aeroporto e nas ruas de Amesterdão (os residentes devem julgar que há uma mostra simiesca, de borla, à solta). Constou entretanto que nem sequer a Nossa Senhora de Fátima nos falhou. País de sortudos, afinal, apesar deste PIB.

 

Adenda: Para quem não consuma bola e esteja eventualmente mais preocupado com o aumento do PIB, entre outras coisas "menores", pode sempre ligar a RTP1 por volta das 21 e ver a entrevista de Vítor Gonçalves a Miguel Cadilhe.

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Terça-feira, 14.05.13

Uma lírica portuguesa

 

 


Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.

 

Sá de Miranda

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Privilegiados?

 

Durante décadas, "servir" o Estado ou "servir", trabalhar, em serviços não públicos como os bancos era não apenas uma distinção como uma necessidade. Num país sem actividade produtiva directa que alguma vez prestasse (e a pouca que prestava na agricultura ou na pesca foi "levada" pelas quotas comunitárias e pelas directivas de Bruxelas), com uma indústria incipiente e um "empreendedorismo" provinciano e sem ambição, sempre de mão estendida ao Estado, primeiro, e aos "fundos", depois, era natural que o terciário se hipertrofiasse. E que o litoral se "desenvolvesse" e o "interior" fosse progressivamente abandonado. Chegámos ao actual regime com um Estado inflacionado pelos escombros das ex-colónias e pela "ideologia". Com as autarquias, a grande "invenção democrática" de 1974, isto acentuou-se e a megalomania do betão fez o resto. Nos anos 80 e 90, por razões políticas puras que estão mais ou menos contadas em livros de autores de formações diferentes, o Estado incorporou mais gente. Com a reforma fiscal de Cadilhe, os chamados funcionários públicos passaram a pagar impostos como os seus colegas do "privado". Naturalmente que os apelidados de "privilegiados" dentro da dita função pública pagavam mais impostos (o princípio do "pay as you earn" não distingue, com uma estrelinha colorida na manga do casaco, ninguém) e descontavam mais para a respectiva aposentação. Entretanto a lei permitiu que, por exemplo, pessoas que toda a vida integraram carreiras "normais" do Estado mas que nos últimos anos de desempenho, em comissões de serviço, ocuparam cargos de topo, se reformassem com pensões calibradas com esse derradeiro desempenho e não tanto com o percurso contributivo originário. Tal como permitiu "carreiras especiais". São excepções, não são a regra. Dito isto, em 2013 temos um problema denominado função pública por contraposição aos demais trabalhadores? Não temos. Temos, antes e de novo, mas desta vez ao contrário, um problema político. É pacífico, por comparações medianas e óbvias, que não há trabalhadores investidos em funções públicas a mais. Há seis anos que a redução dos efectivos é persistente e consistente. O que sobra é a má afectação de muitos desses trabalhadores, tão diversos em competências e atribuições, que uma reforma do Estado (que não se confine a "cortes" horizontais, cegos, demagógicos e, no limite, ilegais, feitos em dias, semanas ou meses) devia também resolver. O que pretendo significar é que não se delucida um átomo da "crise" lançando anátemas estribados na pura ignorância ou na deliberada má-fé. Veja-se o que se vai passar com as rescisões voluntárias. As indemnizações pagam imposto e não pagam pouco. Como se lê no Diário de Notícias, «quem ganhe 750 euros brutos por mês e tenha menos de 50 anos receberá uma compensação equivalente a 1125 euros por cada ano de serviço, mas a parte que exceder os 875 euros irá fazer retenção na fonte, sendo ainda somada ao rendimento global sujeito a IRS quando for feita a declaração anual». Mais. «Tudo isto poderá fazer que as pessoas com rendimentos próximos do limite de um escalão (e agora existem apenas cinco) acabem a receber um valor líquido inferior aos funcionários que apenas receberão o equivalente a um salário por cada ano de serviço» o que se traduz em «que o custo efectivo das indemnizações não é igual entre o Estado e as empresas porque o Estado consegue reaver uma parte do que paga através do IRS.» Privilegiados, não é?

Portugal dos Pequeninos

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